Carnaval no Peru February 2, 2008
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O carnaval chegou e aqui em Lima, não fosse pela Globo Internacional transmitir os desfiles, a gente nem ia sentir. Fica parecendo que não existe carnaval no Peru, o que está longe da verdade. É um fato que em Lima não tem bloco, desfile de rua, nem gente fantasiada. O máximo é a molecada molhando com água, ou outros líquidos menos nobres, os transeuntes inadvertidos. Geralmente enchem um saco ou um balão de inflar com o líquido e jogam na pessoa. Isso muitas vezes acaba gerando confusão e brigas, lembrando muito os “entrudos” do Rio de Janeiro colonial. Mas, como ia dizendo, o Peru tem uma rica e interessante tradição carnavalesca, muito diferente da nossa, e que vale a pena conhecer. A seguir um pouco de três principais tradições: de Cajamarca, Ayacucho e da região amazônica.
Carnaval em Ayacucho
A cidade de Ayacucho fica no sul do Peru, na região andina, a 2.700 metros de altitude, e fica no departamento de mesmo nome que é o mais pobre do país e o que mais sofreu nos anos de atuação da guerrilha do Sendero Luminoso. A mistura de tradições trazidas pelos colonizadores espanhóis com as herdadas dos habitantes originais (incluindo as provenientes do império inca) criou um clima de celebração, música e danças que são praticamente desconhecidas no Brasil. As celebrações ayacuchanas têm muita cor e começam na quinta-feira anterior ao carnaval, com os ensaios das bandas de música e grupos de dança (chamados de “comparsas”). (more…)
Piu-Piu de Marapendi January 27, 2008
Postado por tordesilhas em : Cultura , 2comentáriosOutro dia veio na minha cabeça a lembrança do “Piu-Piu de Marapendi”, um personagem clássico do começo dos anos 80 criado pela dupla de locutores da Rádio Cidade Romilson Luiz e Eládio Sandoval. Eles resolveram dar uma sacaneada na Blitz, que estava estourando nas paradas com o hit “Você não soube me amar”. Daí criaram uma paródia “Eu hoje vou me dar bem”. Eu me lembro que ouvia a música na Rádio Cidade e caia na gargalhada. Não só eu, como todo mundo. Tanto que eles gravaram esta e outra s pérolas em três compactos, que hoje fazem a delícia dos colecionadores e saudosistas. Graças à internet, é possível compartilhar este pedaço da minha memória afetiva do começo da adolescência com todo mundo. com vocês, Piu-Piu de Marapendi - Eu hoje vou me dar bem
Tecnobrega e Perreo January 16, 2008
Postado por tordesilhas em : Cultura , 1 comentário até agoraA cada vez que volto ao Brasil aproveito para comprar duas das que considero as melhores revistas do país ultimamente: Rolling Stones e Piauí. Cada uma no seu estilo, acho que representam o que há de mais interessante e diverso no no jornalismo brasileiro atual. A Rolling Stone de janeiro está particularmente interessante, com um conjunto de análises sobre os cinco anos de Lula no poder, um texto sobre minas terrestres na América Latina e uma reportagem excelente, assinada por Vladimir Cunha, sobre o tecnobrega, “versão rasteira e eletrônica da música brega dos anos 70 e 80, envenenada com loops de bateria e efeitos sonoros”. Até jogos eletrônicos, como Mortal Kombat, entram na jogada.
Segundo a revista, o tecnobrega é sucesso absoluto entre os jovens pobres nas periferias paraenses e alimenta toda uma indústria invisível de produtores e DJs de fundo de quintal, CDs piratas e shows movidos a luz potente, efeitos especiais, som no limite da insanidade a uma disputa acirrada entre as equipes musicais. Um dos clássicos absolutos do tecnobrega é a música “Chupa Paula”, escrita por Marlon Branco (!!), cuja inacreditável letra tem os seguintes versos singelos no seu refrão: “Chupa chupa paula / Mete o pau e mete a máquina / Chupa safadinha e vem pra cá vem dançar”. A letra completa está aqui. E a música pode ser escutada aí embaixo.
Este movimento musical do Pará me lembra muito outro ritmo que alucina os bailes de periferia de grande parte das cidades em vários países latino-americanos. É o “perreo”, uma variante do “reggaeton”, que lota os salões com jovens dançando de forma sensual (e sexual), deixando os críticos, pais de família e religiosos de cabelo em pé. Assim como o funk carioca, o perreo já deixou a periferia e é dançado até em festas de classe média branca. O nome da dança se refere ao fato de que os dançarinos imitam a posição sexual do cachorros (perros, em espanhol) com a mulher inclinando o corpo até ficar de quatro e esfregando-se no parceiro.
Em outra semelhança com o funk e o tecnobrega, o reggaeton/perreo mobiliza uma enorme indústria invisível de CDs piratas, shows lotados por milhares de jovens de ´periferia, artistas que despontam para o anonimato na mesma velocidade em que seus sucessos nascem, são escutados, dançados e esquecidos na estação seguinte.
Para dar um saber do perreo a quem não o conhece, escutem abaixo um clássico de K Mill chamado Mételo Perreo:
No YouTube tem vários vídeos mostrando o um baile típico de perreo. Vejam um abaixo. É isso mesmo que vocês vão ver. Já vi gente dançando mais ou menos asim (mas menos radical) até em festa de empresa.
Nossas histórias December 11, 2007
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A Google anunciou no último dia 7/12 uma interessantíssima parceria com o Unicef e iniciativa “One Laptop per Child (OLPC)” para criar, promover e manter o projeto “Our Stories”. É um website que pretende ser o repositório de histórias pessoais de vida de qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo e em qualquer língua. Mais ou menos o que já faz o Museu da Pessoa, no Brasil, mas em escala global. Aliás, o Museu da Pessoa é uma das fontes para as histórias inicias em português que se pode escutar no site.
No material de divulgação do projeto, a equipe do Google explica que ao mesmo tempo em que as histórias recolhidas são muito pessoais, existe uma linha comum de amor e perda, luta contra adversidade e triunfos. Ou seja, que ao escutar a história de outras pessoas, podemos apreciar mais nossa “humanidade comum” e sentir como as histórias e vidas de todos e todas, de qualquer lugar do mundo, importam e, no fundo, são parecidas. (more…)
Lima continua “movida” December 6, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 6comentáriosUm forte tremor sacudiu Lima esta noite (às 20:40) com intensidade de 5.8 graus Richter. Despertou imediatamente a lembrança do terremoto de agosto. O epicentro foi perto de Pisco, que ainda nem se recuperou direito do terremoto que arrasou a cidade. O tremor começou fraco e foi crescendo, mas logo parou. De qualquer jeito foi o suficiente para mexer aqui o edifício todo. Mas já estamos escaldados. Foi só respirar fundo e seguir para o jantar, num restaurante bem legal aqui de Lima. Ainda bem, porque a comida e a conversa estavam muito boas. É isso aí, depois do primeiro terremoto, o resto é fichinha.
Tarde em Barranco December 2, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 1 comentário até agoraO sol finalmente volta a brilhar em Lima, deixando as tardes de domingo ótimas para um passeio em lugares legais como Barranco, o bairro boêmio limenho, que lembra muito Santa Teresa, no Rio, ou Vila Madalena, em Sampa. Abaixo, algumas fotos desta tarde. Aqui, umas fotos que havia tirado em outro passeio por Barranco.
Dia dos Mortos na Bolívia November 16, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , deixe teu comentárioContinuando minhas histórias sobre a viagem a Bolívia e Colômbia que fiz recentemente, queria falar um pouco sobre a tradição do dia dos mortos no país de Evo Morales. Eu estava na Bolívia justamente na época e fiquei impressionado com as diferentes tradições que existem no país para lembrar os que já se foram desta para outra. O que vemos nos cemitérios brasileiros nem se compara. Abaixo um pequeno recorrido pelas tradições nas principais zonas do país. A informação foi tirada de uma reportagem publicada pelo jornal La Razón.
La Paz
Os “paceños”, como se chamam os habitantes da região da capital da Bolívia, costumam preparar uma refeição especial exatamente ao meio dia da sexta-feira, Dia dos Mortos. Os familiares a e amigos do defunto se reúnem e rezam junto enquanto “levantam” a mesa, ou seja, recolhem os alimentos. Cada alimento é recolhido depois de uma oração pelos que morreram. A família vai, então, para o cemitério e monta a mesa outra vez. Desta vez oferecem pães em troca das orações e cantorias. Aqueles que oferecem as melhores orações recebem a melhor parte dos alimentos.
Beni
Neste departamento boliviano que fica na fronteira com o Brasil, a tradição na cidade de San Ignácio de Moxos, por
exemplo, é que os amigos do defunto levam para a igreja comida, bebida, doces e “masaco” (uma espécie de banana moída com queijo). Enquanto o “rezador” dirige as orações, acredita-se que os mortos se alimentam com as comidas feitas em sua honra. Os jovens e crianças presentes são proibidos de receber as oferendas. Segundo a crença do lugar, o que as almas comem, não deve ser consumido pelas crianças porque ficam loucas.
Cochabamba
Uma variação interessante das tradições anteriores. Acredita-se que muitas vezes acontece de o espírito se sentir tão bem recebido com todas estas oferendas que ele se recusa a voltar para o seu lugar no fim do dia. Para expulsá-lo de volta, uma pessoa da comunidade tem de se vestir com a sua roupa e se ocultar para não ser encontrada. O resto da comunidade sai para buscá-lo e ao encontrá-lo o recordam de que deve voltar para o céu. O fazem aos gritos e dando-lhe chicotadas. Em algumas comunidades se armam grandes escadas para emular esta subida aos céus.
Tarija
Nesta região perto da Argentina a tradição é um pouco mais tranqüila. O defunto é lembrado no cemitério mesmo. Sua tumba é arrumada e enfeitada com velas e luzes nos nichos. No dia 1 de novembro a família e os amigos se mudam para o cemitério pela tarde para realizar uma espécie de vigília, parecida com o velório. Aproveitam para beber “canelados”, bebida feita a base de aguardente, açúcar e canela, e se escutam cantos e a música que o defunto mais gostava. Todos passam a noite no lugar e no dia seguinte se reúnem para um grande almoço familiar na casa do morto.
Região andina
Em muitas áreas da região andina da Bolívia, a visão sobre morte é distinta da tradição católica. Não se acredita que as almas vão para o céu ou inferno. Na verdade, a crença é a de que elas para um lugar especial chamado wiñay marka, qhorykancha o waca.
A pessoa não morre, mas se “afasta” para uma cidade eterna chamada wiñai marka e uma vez por ano os que se foram regressam para ver como estão seus parentes em casa.
Segundo os antropólogos, a cosmovisão andina não é de uma cultura de vida ou morte. A idéia é a de que viemos de algum lugar e vamos para outro. Nesta região a festa dos mortos, chamada “aya marka”, dura um mês, do começo ao fim de novembro. Neste período os mortos têm 30 dias para compartilhar a casa, o campo e o arado com os parentes. Se são bem atendidos, como agradecimento mandam chuvas para que a família possa ter uma boa colheita.
Quando se afastam do mundo dos vivos as almas vão para o “qhorykancha” ou “waca”, um lugar sagrado. Elas levam três anos para chegar lá, na primeira vez que visitam o lugar. Ali se transformam em “apus” ou “achachilas”, que são os deuses que protegem aos seres humanos. Ou seja, se transformam em montanhas, morros, água, elementos da natureza.
Eles voltam uma vez por ano para a casa dos parentes para se reabastecer de alimentos, água e tudo de que necessitam; para se recarregar de energias antes de voltar para sua morada eterna. Evidentemente estes costumes estão ligados ao calendário agrícola, fundamental para os moradores da região andina.
O Mata-Muertos November 10, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 1 comentário até agoraFinalmente voltando a Lima depois de 14 dias de viagem pela Bolívia e Colombia. Muita história interessante para contar. Pouco a pouco vou tentar incluí-las todas aqui no Tordesilhas. Algumas já podem ser lidas em um outro blog em espanhol, o Vasto Mundo, que eu criei para experimentar incluir apenas relatos de viagem que tem a ver com o meu trabalho na Oxfam. Na verdade é uma experiência para um blog oficial que a Oxfam está prestes a criar. Por enquanto, deixo aqui uma história recolhida nas minhas andancas pela regiao do rio Atrato, no nordeste da Colombia, uma área belíssima, onde convivem duas culturas, a indígena e a afro-colombiana, tentando sobreviver a horríveis histórias de morte e violencia causadas pelo conflito armado que está comendo a Colômbia por dentro.
O “Mata-Muertos”
Visitei uma comunidade indígena enfronhada cinco horas de barco adentro do rio Atrato. Ali conheci o “Mata-Muertos”. Nao pude tirar fotografias dele e por isso vao ter de acreditar nas minhas palavras. A história é a seguinte: segundo os indígenas da regiao, quando um deles morre, mas seu espírito nao consegue seguir adiante por alguma razao, ele fica vagando pela comunidade, espantando os moradores, principalmente os familiares, e trazendo vibracoes negativas.
Normalmente acontece que alguns dias depois do enterro as pessoas comecao a ouvir gritos do morto no meio da noite, objetos se movem, animais e criancas adoecem sem razao etc. Neste momento, a comunidade chama o “Mata-Muertos”. Sua missao é abrir a sepultura do morto responsável pela alma penada. Muito provavelmente o seu corpo nao terá entrado em estado de decomposicao, apesar de ter sido enterrado há dias ou semanas. Neste caso, o Mata-Muertos tem de fazer uma cerimônia especial, que só ele conhece, e cravar uma estaca no coracao do cadáver. Só assim o espírito será liberado para finalmente seguir adiante e a comunidade ficará livre da sua presenca.
Só existe um Mata-Muertos por comunidade. Perguntei como ele é escolhido e me responderam que ele nao é escolhido. Ele simplesmente é o Mata-Muertos e todo mundo, inclusive ele mesmo, sabe disso desde sempre. Quando o Mata-Muertos da comunidade morre, outra pessoa o substitui. Como? Simplesmente o substitui.
O fato, e isso eu posso testemunhar, é que o Mata-Muertos da comunidade que visitei, apesar de ter todo o aspecto indígena, como os outros moradores, tem a pele mais clara, quase pálida. Nao sei se é o peso de carregar uma missao tao macabra e importante, ou é um truque consciente ou inconsciente feito com o uso de uma pintura especial. O que sei é que, segundo ele, neste último ano já ajudou a 12 almas-penadas a seguirem seu rumo em paz.
Um blog imperdível October 24, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 3comentários“De cozinha, sei apenas o básico, para não passar vexame. Mas sei que para se preparar um bom linguini ao pesto, tudo tem que ser feito na hora. Assim são também as cenas emocionais, não se pode ensaiar muito antes de rodar para manter vivo o perfume do manjericão e a emoção “al dente”. Trecho de um destes programas culinários tão na moda? Poderia até ser. Mas na verdade é o início do terceiro post publicado pelo diretor Fernando Meirelles no blog fantástico que ele mantém sobre a filmagem do seu filme mais recente, “Blindness”, baseado no Ensaio sobre a Cegueira, do Saramado. O blog é muito bom mesmo, uma verdadeira aula de cinema dada por quem entende do ofício. Além do mais, os textos são excelentes, com uns poucos erros de digitação que os tornam ainda mais pessoais, e prendem a atenção do começo ao fim. Já entrou na lista dos meus blogs imperdíveis. E tal como o próprio Saramago, também estou ansioso para assistir o filme quando for lançado. Tenho certeza de que será mais um êxito do Fernando Meirelles.
El olvido que seremos… October 15, 2007
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Polêmicas literárias são sempre interessantes. Na Colômbia agora tem uma que envolve Jorge Luis Borges e um dos livros mais vendidos no país, que relata a história de vida e morte de um conhecido ativista dos direitos humanos. O mote da polêmica é o soneto “Epitáfio”, atribuído ao mestre argentino, que foi encontrado no bolso do conhecido sanitarista Héctor Abad Gómez no dia em que este foi assassinado, 20 anos atrás. Seu filho, o escritor Héctor Abad Faciolince, foi quem encontrou o poema manuscrito e o reproduziu no excelente e emocionante livro “El olvido que seremos”, no qual faz um relato pessoal de sua relação com o pai. O tal poema está reproduzido abaixo, mas o que interessa aqui é o fato de que na verdade ele não foi escrito por Borges e a sua autoria alimenta a polêmica a que me refiro.
Na verdade, o poema em questão aparentemente foi escrito pelo poeta colombiano Harold Alvarado Tenorio e publicado em 1993 na revista Números. O problema é que Héctor Abad Gomes morreu em 1987, portanto seis anos antes. Como poderia, então, o poema ter sido encontrado no seu bolso se só teria sido publicado anos depois? O escritor Hector Abad Faciolince até considerou a possibilidade de que a sua memória lhe estivesse pregando uma peça. Mas ele se lembrou que havia escrito um artigo para o suplemento dominical de um jornal de Medellin em novembro de 1987 sobre o pai no qual está a reprodução do soneto.
Até o editor William Ospina, um dos maiores especialistas na obra de Borges, entrou na polêmica. Ele diz que o tal soneto não está entre as obras conhecidas do mestre argentino, mas reconhece no poema todos os elementos borgianos. No fim, ele prefere uma explicação quase mística, na qual o soneto poderia, sim, ter sido escrito seis anos de ter sido escrito…. Mais borgiano, impossível.
Um resumo desta história pode ser lido aqui e aqui. O soneto esta aí embaixo.
Ya somos el olvido que seremos.
El polvo elemental que nos ignora
y que fue el rojo Adán y que es ahora
todos los hombres y que no veremos.
Ya somos en la tumba las dos fechas
del principio y el término, la caja,
la obscena corrupción y la mortaja,
los triunfos de la muerte y las endechas.
No soy el insensato que se aferra
al mágico sonido de su nombre;
pienso con esperanza en aquel hombre
que no sabrá que fui sobre la tierra.
Bajo el indiferente azul del cielo
esta meditación es un consuelo.
Grande Mário de Andrade October 4, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 1 comentário até agoraFalar em burguesia está definitivamente fora de moda. Muito anos 60 para um mundo cínico e globalizado como o nosso. Mas vivendo em Lima por tanto tempo, com sua burguesia tão característica e com hábitos tão parecidos com um certo estereótipo da burguesia brasileira de 30 anos atrás - e que na verdade persiste até hoje, apenas disfarçada – lembrei-me um dia desses do clássico ¨Ode al Burguês¨, do Mário de Andrade, publicado em 1922 no livro Paulicéia Desvairada. Como todo clássico, não perde a atualidade…
Ode ao burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
“-Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
-Um colar… -Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”
Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burgês!…
De Paulicéia desvairada (1922)
Só no Google mesmo… September 16, 2007
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A internet tem dessas coisas. Googueando por aí eu já havia descoberto dois outros “Renato Guimarães” com menções no motor de busca: um é especialista em sistemas e tem muitos textos publicados sobre o assunto é o outro é um jornalista das antigas que chegou a ser perseguido pela ditadura militar. Mas hoje descobri um homônimo inesperado. É um cantor ai dos anos 50/60 que chegou a lançar um disco. Não consegui mais detalhes sobre ele, mas graças ao blog “Anos Dourados”, que desenterra preciosidades musicais de tempos idos, foi possível baixar o disco do meu homônimo, cuja capa pode ser vista aí do lado. As músicas não são exatamente do tipo que eu cantaria, seu eu fosse cantor, mas tem uma que só pelo título já merece ser compartilhada. Trata-se da clássica “Ninguém é de ninguém”, do Altemar Dutra, à qual o meu xará dá uma interpretação no melhor estilo “trilha sonora de cabaré”. Escutem porque vale a pena.
