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A novela de Wall Street September 18, 2008

Postado por tordesilhas em : Geral, Política, Mídia , trackback

F200809160821422140287669.jpgA crise financeira global é no fundo um grande novelão. Pelo menos é a impressão que eu tenho ao acompanhar o noticiário diário sobre os efeitos da crise mundo afora. Confesso que fiquei viciado na cobertura que o Wall Street Journal vem fazendo – claro que nenhum outro veículo de imprensa seria o mais adequado para transmitir os capítulos diários desta novela. O bom é que o enredo e os atores são de primeira, o que garante pelo menos um produto com o “Padrão Globo de Qualidade” e não uma esquisitice mexicana qualquer.

Por exemplo, no capítulo – que dizer, na edição de hoje - do Wall Street Journal há uma interessantíssima reportagem sobre os bastidores do resgate da empresa gigante de seguros AIG, salva a um passo do abismo por um empréstimo de 85 bilhões de dólares dado pelo governo americano. Seus sócios, em troca, tiveram de ceder o controle acionário da empresa. O texto traz o passo-a-passo da operação de resgate, mas o mais interessante sãos os detalhes humanos que se podem entrever nos momentos de angústia que antecederam a decisão final.

Ficamos sabendo que para dar o empréstimo o governo americano pediu a cabeça de Robert Willumstad, o Diretor Presidente da AIG, que havia tomado o posto fazia menos de três meses  e, portanto, tem pouca responsabilidade sobre a quase quebra da empresa. O interessante é saber, segundo a reportagem, que Willumstad tinha o sonho de dirigir uma grande empresa desde que havia sido preterido para um cargo mais alto no Citigroup.

Ou seja, o cara finalmente consegue culminar seus sonhos de carreira dirigindo uma empresa global avaliada em 178 bilhões de dólares, só para ver seus sonhos irem por água abaixo em menos de três meses ao ser posto para fora em um momento em que a empresa, de repente, passou a valer pouco mais de 10 bilhões de dólares. É ou não é um enredo fantástico para uma novela da Globo, ou ainda melhor, para um desses telefilmes da HBO?

Já estou até vendo a Glória Peres, que sempre busca antecipar enredos inovadores, escrevendo uma novela das 8 na qual as “empresas da família” (provavelmente um banco) passam por uma trama rocambolesca misturando bandidos de colarinho branco paulistas (ou baianos), juizes suspeitos do STF, traficantes de ativos colombianos, lindas modelos russas, um super investidor brasileiro trabalhando em Wall Street ou na City britânica e um pobre-coitado-com-cara-e-jeito-de-modelo, da periferia paulista, que se descobre um gênio do investimento e que salva o “banco da família” da quebra iminente. Pensando bem, o enredo da vida real de Wall Street é muito melhor.

De qualquer jeito, parece que a imprensa em geral sentiu  potencial altamente dramático da situação. Afinal, a vida de milhões de pessoas mundo afora está sendo diretamente afetada por este turbilhão no sistema capitalista global. Os trabalhadores dos bancos de investimentos que quebraram são até o momento as primeiras vítimas com “cara e voz”, já que os grandes investidores que viram suas ações repentinamente virarem pó ainda se escondem atrás dos vidros fumê de seus escritórios climatizados.

O Guardian ontem retratou o drama dos funcionários repentinamente desempregados na City londrina, com flagrantes de vários deles saindo pelas ruas com suas caixas de objetos pessoas nos braços. A maioria ria para as fotos, e o jornal perguntava, pelo conteúdo de suas caixas, se eles não estavam pelo menos levando bonos com algum valor de mercado, o que lhes garantiria al menos uns cobres para aguentar uns meses na fila de desemprego.

Enfim, os próximos capítulos desta novela da vida real prometem ser eletrizantes. Mal perco por esperar a edição seguinte do Wall Street Journal…

Comments»

1. Ana - 19 September, 2008

No telejornal francês foi o único lugar onde ouvi a palavra “nacionalizaçao”, a intervençao foi tao grande que pra eles significa nacionalizar a AIG, mas obvio que esse termo nao apareceu nos telejornais americanos…