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Os 3 de Angola August 23, 2008

Postado por tordesilhas em : Geral, Política , 2comentários

Como será passar cerca dois terços da sua vida trancado em uma caixa de 2 x 3 metros, vendo a luz do sol apenas uma hora por dia e mantendo um contato mínimo com outros seres humanos? Robert King Wilkerson, Albert Woodfox e Herman Wallace, conhecidos como “os 3 de Angola”, certamente têm uma boa resposta para esta pergunta. Ele foram mantidos em uma solitária por mais de 30 anos na Prisão Estadual de Lousiana, conhecida como Angola, em um dos casos mais brutais de desrespeito aos direitos humanos na história dos Estados Unidos. A história destes três homens mostra que o conceito por trás de Guantánamo tem raízes mais profundas do que se pode imaginar e a discussão sobre tortura e direitos dos prisioneiros já foi resolvida há muito tempo, ao menos por parte das autoridades penitenciarias da Lousiana.

os_3_de_angola.jpgOs “3 de Angola” foram para a prisão por razões diversas no começo dos anos 70. Eles, então, criaram em 1971 uma célula local dos Panteras Negras como uma forma  de se defender e a outros prisioneiros, majoritariamente negros, das brutalidades freqüentes cometidas contra eles e para lutar por melhores condições prisionais, naquela que já havia sido chamada de “a prisão mais sanguinária do Sul dos Estados Unidos”.

Evidentemente o movimento não foi bem aceito pelas autoridades e administradores da prisão. Em 1972 Woodfox e Wallace foram mandados para a solitária acusados de ter assassinado um guarda da prisão. Wilkerson teve a mesma sorte, acusado por um outro assassinato, do qual nunca chegou a ser formalmente condenado. Os três homens ficaram literalmente esquecidos na solitária pelas décadas seguintes.

Eles foram “redescobertos” em 1997, quando sua espantosa história veio a público. Eles não apenas foram trancados em celas fechadas de 2 x 3 metros quadrados durante décadas, como as evidências mostravam que os crimes que motivaram seus confinamentos na solitária haviam sido claramente plantadas para calar suas vozes no começo dos anos 70. Logo começou um movimento pela retirada dos três do regime de solitária e para a revisão das acusações de assassinatos pelos quais haviam sido condenamos a penas de até 50 anos de prisão.

O movimento foi - e em grande parte continua sendo – ignorado pelas autoridades locais e administradores da prisão. (more…)

Novalima August 20, 2008

Postado por tordesilhas em : Cultura , 1 comentário até agora

Morar no estrangeiro, neste caso em um país latino-americano, tem uma grande vantagem: a oportunidade de conhecer manifestações culturais às quais dificilmente temos acesso no Brasil. No aspecto musical que esta oportunidade é mais flagrante. Aqui no Peru existem algumas pérolas que unem modernidade e tradição e que muito dificilmente conseguirão furar a barreira chauvinista do mercado musical brasileiro.

Muito interessante e inovador também é o trabalho feito pelo coletivo Novalima, grupo composto por quatro músicos peruanos radicados em Lima, Hong Kong, Barcelona e Londres. Eles dão um toque globalizado e moderno de dub, house e beats eletrônicos aos ritmos tradicionais afro-peruanos e à percussão latina. O resultado é uma música moderna, envolvente e sensual que atrai o ouvinte de qualquer cultura.

O CD mais recente do Novalima, chamado “Afro”, procura resgatar músicas afro-peruanas tradicionais, algumas compostas há mais de 100 anos, e mistura a batida eletrônica com a participação especial de ases do cajón, um instrumento de percussão típico do Peru.

O trabalho anterior do grupo, o CD batizado simplesmente de “Novalima”, trazia, por sua vez, uma batida mais lounge e músicas compostas quase que exclusivamente pelo coletivo. Até uma em português estava no repertório. Mas a minha preferida é uma releitura de “Con palo no”, uma tradicionalíssima canção afro-peruana à qual o grupo deu uma roupagem eletrônica.

Esta aí a dica. Se não for possível encontrar um CD do Novalima na loja mais próxima, a Amazon pode quebrar o galho.

E para dar uma idéia do som deles, uma palhinha de “Con palo no”:

Mais Novalima no site oficial.

O bronze é nosso! August 18, 2008

Postado por tordesilhas em : Esportes , 3comentários

Muita gente, como eu, não tem a menor disposição de permanecer acordada toda a madrugada para acompanhar o fiasco –bronze.jpg perdão – o desempenho do Brasil nas Olimpíadas de Beijing. Outros tantos já estão cansados dos comentários e narrações eivados de patriotismos e patriotadas irrealistas, ou das mesmas reportagens mostrando os aspectos interessantes da cultura chinesa, suas idiossincrasias, e as mil possibilidades de preparar o pato, o escorpião e o gafanhoto na culinária chinesa. Para todos e todas já existe uma solução: o blog Bronze Brasil 2008, que faz uma cobertura detalhada e em tempo real da luta do Brasil para superar o recorde histórico de 10 medalhas de bronze em uma olimpíada.

Este blog imperdível é de longe o que de mais interessante surgir da participação brasileira em Beijing e já está em minha lista de favoritos. Os comentários são os mais atinados que tenho visto até agora na cobertura das Olimpíadas e o blog é o único que traz o quadro geral de Medalhas de Bronze, fundamental para entender o real impacto da participação brasileira em Beijing.

Abaixo o comentário do blog sobre a não-conquista de Diego Hipólito da suada e esperada medalha de bronze:

Refugou!
Agosto 17, 2008 by medalhista
Diego Hypolito manteve a tradição brasileira nas provas de solo e refugou na final da ginástica olímpica. Assim como Daiane dos Santos em Atenas, o ginasta falhou ao executar pela milésima vez a mesma coreografia, justamente quando mais importava.

Pequenos erros seriam bons para assegurar o bronze, mas Hypolito despencou após um salto e acabou em sexto. Depois da prova, Diego pediu desculpas aos brasileiros que torceram por ele.

Desculpas aceitas, mas me reservo o direito de nunca mais acordar cedo para ver provas de ginástica. Prefiro ficar na cama sonhando com bronzes que nossos atletas não conseguem conquistar.

Poesia peruana August 11, 2008

Postado por tordesilhas em : Cultura , deixe teu comentário

Javier Heraud é um poeta peruano, nascido em Lima, em 1942, e morto literalmente na flor da idade, aos 21 anos, em Puerto Maldonado, na região amazônica peruana. Ele voltava ao país clandestinamente como militantes da ELN (Exército de Libertação Nacional) do Peru. Heraud é um dos expoentes da chamada “Geração dos 60”, que renovou a poesia peruana. Com 19 anos já havia publicado seu primeiro livro de poemas, chamado “El Rio”, elogiadíssimo pela crítica da época. Ele viveu pouco, mas deixou uma obra que ainda hoje impressiona. Recentemente está havendo uma espécie de “redescoberta” da obra de Javier Heraud em Lima, com o lançamento de “Viajes Imaginários” e “Estaciones Reunidas”, dois livros que reeditam parte da obra do chamada “poeta guerrilheiro”. Javier Heraud não é muito conhecido no Brasil e nem sei se existe algum livro dele traduzido para o português. Espero que sim. Vale muito a pena conhecer a obra deste poeta sensível e ao mesmo tempo atento ao seu tempo. Abaixo, um exemplo da obra poética de Javier Heraud.

Poema

Vendrá el día que tendrás que
esculpir todo el amor que sientes ahora.

Esculpirás
La tierra que probaste ayer,
el árbol que pasaste y devoraste,
y tu jovial cansancio de antes.

El día vendrá – sabes – que
yo seré de nuevo
piedra
tallo
semilla

Sin tener que preocuparme
del mañana para mí.
El amor que siento ahora
Lo arrojaré fuerte
Vomitaré en la tierra fresca,
La macharé como debiera estar
(hoy que es tan  difícil sufrir)

Este automóvil que habitaba en mis
entrañas, y te reías, estará sin lunas
mañana.

Vomitaré también,
(repito)
este sufrimiento atroz
que no me ahogará mañana.

Aleitamento materno e papai canguru August 3, 2008

Postado por tordesilhas em : Geral , 7comentários

dira.jpgUPDATE – o Gilvan Barreto é um grande fotógrafo brasileiro que volta e meia faz uns trabalhos bem bacanas para a Oxfam. Ele está aqui no Peru por umas três semanas acompanhando uma equipe da Oxfam que está documentando os efeitos da mudança climática e do aquecimento global no país. Afinal, o Peru é um dos países que mais serão afetados por ambos fenômenos no mundo. Mas o mais interessante é que ele recentemente fez a foto deste ano da campanha do Ministério da Saúde sobre Aleitamento Materno. A bela foto retrata a excelente atriz Dira Paes amamentando o filhote Inácio, que nasceu prematuro de oito meses e meio. Vocês podem ver a foto aí do lado. É só teclar em cima para ver uma versão maior.

Resolvi dar o meu pitaco na blogagem coletiva sobre aleitamento materno convocada pela Denise, lá do Síndrome de Estocolmo. A Vanessa já deu a contribuição dela, no Inconfidência Mineira. Inspirado pelo texto dela, achei que poderia dividir um pouco da minha visão sobre o tema. De imediato quero deixar claro que não tenho nenhuma inveja da capacidade inata das mulheres de gerar filhos e alimentá-los com o leite produzido pelo próprio corpo. Ainda não fui contaminado por este lado da “modernidade” masculina, segundo a qual alguns caras chegam até a invejar a menstruação e os nove meses de gravidez.

Mas tenho um profundo respeito e admiração por todo o processo. Sei que tem algo aí que é quase mágico, apesar de todas as explicações científicas que aprendemos desde a escola. Também sei que por mais que tente, nunca vou conseguir entender profundamente os laços que se criam entre a mãe e o filho ou filha durante a gestação e o processo todo de aleitamento materno.

Cada vez que vou à maternidade e vejo o Lucas encarrapitado no colo da Vanessa, com a boca enganchada no peito dela e com os olhos abertos – olhando atentamente para ela – sei que ali sou quase que um mero espectador. Fico vendo e tentando captar algo daquele vínculo de profunda intimidade define de certa forma a nossa condição de humanidade.

Desde o meu ponto de vista masculino, entendo perfeitamente a lógica racional da importância do aleitamento materno. Por ali passam os nutrientes necessários para fazer o bebê crescer saudável. Também são gerados vínculos de afeição que imagino que são extremamente úteis para o desenvolvimento psicológico da criança e por aí vai. Mas, claro, não sou eu que dou o peito… E percebo também que tem muito cansaço e stress em tudo isto. Só as mães é que sabem.

canguru1.jpgDaí que a humilde contribuição que estou dando a este processo todo com o Lucas é a de “cangureá-lo” sempre que possível. Para quem não está familiarizado com o termo, faz parte das técnicas modernas de cuidar de crianças prematuras. Ou seja, tanto o pai como a mãe são estimulados a carregar o bebê agarrado no peito, pele com pele, aninhá-lo, conversar com ele, cantar, ficar juntinhos…

É o mais próximo que jamais chegarei do aleitamento materno, mas posso dizer para todos os homens que estiverem lendo este post: é o maior barato “cangurear”. Ficar com o Lucas ali no colo, aninhado no meu peito, escutando os barulhos que ele faz, os movimentos enquanto tenta se acomodar.

Acho até que todos os pais deveriam cangurear seus filhos independentemente de ser prematuros. É uma maneira de experimentar um pouco deste vínculo íntimo que as mães geram com seus filhos quando lhes amamentam, com a vantagem de não ter de se preocupar com o colostro