A morte dos glaciais andinos
Já faz algum tempo os principais jornais peruanos vêm publicando notícias sobre o desaparecimento cada vez mais rápido dos nevados que dominam os picos mais altos da Cordilheira dos Andes. Cerca de 70% de todos os nevados existentes na região andina estão concentrados no país e o seu contínuo desaparecimento é o sinal mais evidente do aquecimento global. Hoje a primeira página do jornal El Comercio trouxe uma reportagem assustadora e triste sobre o grau de degelo do nevado Pastoruri, o mais visitado da belíssima “Cordilheira Branca”, na região central do país. A notícia dá conta de que em menos de 10 anos o famoso nevado, localizado a mais de 5.200 metros de altitude, deixará de existir, deixando para trás um pico cinza e estéril.
Este será um elemento mais em uma seqüência aparentemente irreversível que poderá resultar, em um prazo de poucas dezenas de anos, no fim de todos os nevados localizados em região tropical. Segundo a reportagem, nos últimos 23 anos cerca de 30% dos glaciais existentes no Peru já derreteram. Entre os nevados que já deixaram de existir estão os da Cordilheira do Barroso (no departamento de Tacna) e o glacial Broggi, localizado em Áncash.
O Pastoruri está perdendo 23 metros da capa de gelo por ano. Em 1995 o gelo cobria uma superfície de 1,8km2. Em 2007, já havia retrocedido para 1,1 km2. O impacto imediato será sentido pela população das comunidades próximas ao nevado, principalmente da cidade de Huaraz, que vive do turismo. Anualmente cerca de 160 mil pessoas visitam a região. As imagens captadas pela equipe do jornal El Comercio mostram como ao redor da capa de gelo remanescente se formam pequenos lagos que acumulam a água do degelo e de onde saem pequenos riachos.
Na edição de ontem, 24 de maio, o mesmo jornal já havia trazido uma outra reportagem sobre o degelo do Nevado Qolquepunko, na região de Cuzco, onde anualmente acontece a principal festa do sincretismo andino, dedicada ao Senhor de Qoyllur Ritti. Este ano 80 mil peregrinos testemunharam como o glacial sagrado está desaparecendo. A situação é tão crítica que o ponto alto da festa, quando os peregrinos cortam pesados blocos de gelo, considerado sagrado, e os levam nas costas até a cidade de Cuzco, onde são oferecidos aos santos durante as procissões de Corpus Cristi, foi simplesmente proibido. Pelo menos 60% da cobertura de neve já desapareceu.
O Peru está entre os três países que mais sofrerão as conseqüências do aquecimento global, segundo os estudiosos no assunto. Toda a costa peruana, onde está concentrada a maior parte das atividades industriais e dos grandes projetos agroindustriais, além de grandes cidades, incluindo a capital, Lima, está assentada em uma área desértica. Depende de um delicado equilíbrio do regime de chuvas e dos nevados na zona andina, de onde provém boa parte das águas dos reservatórios que alimentam a região costeira.
No começo de maio a Comunidade Andina de Nações divulgou um informe chamado “El cambio climático no tiene fronteras” (A mudança climática não tem fronteiras). Segundo o estudo uma mudança de dois graus Celsius poderia gerar um colapso da Amazônia e uma aceleração no degelo dos glaciais, o que afetaria a oferta hídrica em toda a região andina (Colômbia, Peru, Bolívia e Equador). O informe indica que para 2025 estes quatro países vão perder cerca de 30 bilhões de dólares por ano. Ou seja, 4,5% do PIB destas nações, o equivalente a tudo que gastam com saúde ou 70% do que é invertido em educação.
Ou seja, a mudança climática já não é um problema das futuras gerações. É um problema nosso e as conseqüências já são sentidas hoje em dia, como mostra o descongelamento dos nevados andinos. E o pior é que pelo que eu vejo por aqui, os governos da região pouco têm feito para se preparar para este desastre anunciado.
O relatório da CAN é muito interessante e pode ser baixado aqui.

















Triste notícia!
Infelizmente, o governo parece ignorar totalmente esse problema, assim como outros relacionado ao meio ambiente da regiao. Uma tristeza mesmo.
Seu texto é de fazer chorar. Q lástima essa perda, pro ecossistema, pros povos da região, pra cultura… inacreditável.