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Assassinatos políticos no Brasil democrático May 1, 2008

Postado por tordesilhas em : Política , trackback

plantados1.jpg“O assassinato de um militante não representa apenas a morte daquela pessoa. É um pouco o assassinato de sua causa, da luta que abraçou em vida.” Com estas palavras Natália Viana começa o capítulo de conclusão do impressionante “Plantados no chão – Assassinatos políticos no Brasil hoje”, o livro no qual a jornalista tenta recuperar um pouco da história de mais de 180 casos de assassinatos políticos contra líderes populares ocorridos no Brasil entre 2003 e 2007. Todos, portanto, já durante o governo Lula, cuja origem operária e história de perseguição torna ainda mais dolorosa a existência destes crimes e a persistência da sua impunidade.

Para aumentar a sua disseminação e abrir um espaço no cerco fechado criado pela grande mídia para este aspecto obscuro da luta política no Brasil, o livro está à disposição para download no website da sua editora, a Conrad, neste link. A autora também mantém um blog, o “Plantados no chão”, que pode – e deve - ser acessado aqui.

O livro traz seis histórias de líderes populares assassinatos por causa das lutas que encabeçavam e que foram consideradas exemplares para ilustrar a complexidade dos conflitos e interesses envolvidos.

Além disso, traz também uma lista de 80 casos de assassinatos que emergiram durante as pesquisas feitas para o livro e que contém elementos para compreender o que passou.

Entre os seis casos exemplares enfocados estão o da freira Dorothy Stang, cuja celeridade no processo de investigação e julgamento dos envolvidos é a exceção que comprova a regra de impunidade vigente nestes casos.

No outro extremo, está o massacre de cinco assentados do MST na fazenda Terra Prometida, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, ou a violência sistemática contra os indígenas Xukuru, no interior de Pernambuco, que já viram vários de seus líderes perseguidos e assassinatos, incluindo o conhecido cacique Chicão.

É das palavras ditas pela viúva do cacique em sua cerimônia de enterro que a autora retirou a idéia para o nome do livro:

”Recebe teu filho, minha Mãe Natureza. Ele não vai ser sepultado, vai ser plantado na tua sombra, como ele queria. Para que dele nasçam novos guerreiros.”

Definindo assassinato político em tempos democráticos
plantados2.jpg Outra discussão importante levantada no livro é sobre a própria caracterização do assassinato político no contexto democrático no qual vive o Brasil. Natalia Viana constatou a virtual inexistência de estudos e estatísticas sobre o tema.

Por isso, teve de consultar com diversas fontes e estudiosos para tentar caracterizar o caráter político dos assassinatos investigados, retirando da lista casos que envolvessem, por exemplo, a disputa por bens ou poder pessoal (latrocínio, disputa entre organizações criminosas etc.) ou mesmo morte de advogados ou “defensores profissionais” dos direitos humanos.

Com esses e outros critérios em vista, Natália Viana passou a se concentrar nos casos de militantes de movimentos sociais que tenham sido mortos em função da luta que desenvolviam em nome do seu grupo social.

A complicação surgiu exatamente no momento de levantar estes casos, quando a autora descobriu que simplesmente não existem fontes ou registros consistentes e permanentes. Foi necessário recorrer a fontes diversas, como o relatório que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) lança anualmente sobre os conflitos no Campo.

Ainda assim fica claro que existe uma zona escura de absoluto desconhecimento sobre os assassinatos políticos ocorridos no Brasil no período democrático atual, o que sem dúvida contribui bastante para a sua invisibilidade e impunidade.

É para ajudar na luta contra estes dois males da frágil democracia brasileira que Natália Viana e a Editora Conrad se impuseram o desafio de escrever “Plantados no Chão” e deixá-lo disponível para todos os interessados online. Um esforço que a realidade brasileira insiste em nos fazer pensar que é em vão. Mas, que acredito que seja absolutamente indispensável e necessário.

O Tordesilhas dá aqui sua pequena contribuição para esta luta quase quixotesca e faz suas as palavras da jornalista Jan Rocha no prefácio do livro:

“Um país que deixa matar seus líderes populares está se ferindo, se mutilando. Cada assassinato representa uma vitória para o atraso, a barbaridade, a raiva, a estupidez. Essa sangria permanente das mulheres e dos homens mais corajosos e dinâmicos, mais idealistas e generosos, tem um custo alto. A morte de um líder não é simplesmente a eliminação de uma pessoa inconveniente, mas um golpe contra a esperança. Contra o futuro.”

Comments»

1. Mi - 2 May, 2008

obrigada pela otima dica! no brasil assim como em toda a america latina, a politica do “fazer desaparecer” pessoas ainda continua tao atual como na epoca das ditaduras. A realidade é apenas camuflada pela luta dos atuais governos para mostrar como eles sao “democraticos”.Tudo faz parte do show. bjs!

2. Rnato Guimaraes - 2 May, 2008

Pois é…
Aqui no Peru o governo do presidente Alan Garcia está em plena campanha de perseguicao e desmoralizacao das ONGs que defendem os direitos humanos, depois que uma delas, chamada Aprodeh, mandou uma carta ao Parlamento Europeu dizendo que nao endossava a inclusao do MRTA, um dos grupos guerrilheiros que atuaram no país, numa lista de organizacoes terroristas ativas, exatamente porque o grupo nao estaria mais ativo e porque esta inclusao serviria como desculpa para o Estado seguir perseguindo ativistas dos direitos humanos.

É uma discussao complicada no contexto peruano, mas o fato é que políticos de direita e a imprensa vinculada aos ex-presidente Fujimori, junto com membros do governo de Alan Garcia (que tem várias acusacoes de desrespeito aos direitos humanos desde o seu primeiro e desastroso governo, no fim doas anos 80) se juntaram em uma espécie de cruzada santa contra qualquer organizacao que se apresente como defensora dos direitos humano.

E o pior, tudo isso travestido de defesa do Estado democrático, já que estas organizacoes, segunda a lógica dos seus detratores, no fundo estariam defendendo os interesses dos grupos subversivos.

3. Ana - 2 May, 2008

Obrigada pela dica Renato, jah baixei, vou ler e divulgar !

4. Leila - 3 May, 2008

Essa moça Natália é danada, hein? Pelo que li no currículo, ela ainda é nova na profissão.

5. Renato Guimaraes - 3 May, 2008

Pois é, a idéia foi muito boa e corajora e ao longo do tempo poderia gerar um trabalho ainda mais amplo… e eficaz para o “esquecimento”, tão típico da vida política brasileira.

6. Izabella - 4 May, 2008

bacana o post
valeu a dica
Um abraço

7. Izabella - 4 May, 2008

Ah ! linda a foto da janela do avião, é sua?

8. Renato Guimaraes - 4 May, 2008

Oi, Izabella, obrigado!
A foto é minha, sim.
Um abracao,
Renato