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Passado que condena April 2, 2008

Postado por tordesilhas em : Geral , trackback

Outro dia li uma entrevista com o caricaturista Angeli na qual ele conta como tomou horror à escola na época em que o diretor era um general que obrigava os alunos a fazer aquelas coisas de “Sete de Setembro”, tipo “cantar o hino nacional com a mão no peito” e por aí vai. Isso me lembrou um episódio pouco edificante dos meus tempos de aluno do ginásio, já nos estertores da ditadura militar, ainda antes do Sarney, portanto.

A ditadura estava agonizante, mas não havia acabado. Como eu estudava em escola pública ainda era normal a tradição de enfileirar as turmas de alunos todas as manhãs para assistir o hasteamento da bandeira e cantar o Hino Nacional, o da Independência, o da República e até o do Rio de Janeiro, com seu ritmo de samba e tudo.

Também era motivo de orgulho ser escolhido para fazer parte do “Pelotão da Bandeira”, que tinha a honra de levar a Bandeira Nacional, a do estado, a da cidade e a da escola nas cerimônias públicas. Reconheço que cheguei a fazer parte do pelotão e me senti orgulhoso na cerimônia em que todo o colégio era reunido para assistir a passagem dos “emblemas” do pelotão (braçadeira azul celeste e luvas brancas) dos membros antigos para os novos. Era um evento público, envolvendo todos os alunos e os pais e parentes, na época das festividades do Dia da Bandeira, em outubro.

Outro motivo de distinção na escola era ser parte do grupo de “Vigilantes do Meio Ambiente”, os VIMAs. Este já era um grupo mais caracteristicamente de CDFs. Geralmente eram escolhidos os melhores alunos, ou mais especificamente aqueles que eram os “queridinhos” das professoras. Na verdade os VIMAs não faziam muita coisa, além de cuidar do jardim (mixuruca) da escola, plantar umas mudas de vez em quando, e participar de cerimônias públicas no Palácio do Governo na época da Semana do Meio Ambiente, em julho. Mas cada VIMA tinha sua braçadeira na cor verde musgo com o emblema da escola e também uma luva branca, usada nas cerimônias públicas. 

Sentiram o caráter “militarizado” destas distinções, não é? Mas o pior ainda estava por vir e era a famigerada “Patrulha Escolar de Segurança”, a PES. É isso mesmo que parece, uma emulação sem vergonha de uma força policial preparada para fazer valer na escola os conceitos difusos de “ordem” ou “liberdade com responsabilidade” preconizados pela Secretaria de Educação na época.

Pior ainda, devo confessar – mea culpa, mea maxima culpa - que fiz parte da PES por um ano, acho que na sétima série. Usávamos no braço direito uma braçadeira azul marinho com as letras PES bem grandes e visíveis em branco. Nossa missão? Manter a “ordem” na escola… Sério. Isto significava apartar brigas, organizar fila no refeitório, ajudar as crianças menores a atravessar a rua. Também nos dava o direito de levar os alunos encrenqueiros para a diretoria e ninguém podia tocar na gente sob risco de receber uma suspensão.

Agora que eu escrevo isso percebo que era pior ainda do que eu achava.  E realmente me lembro que tínhamos uma sensação de poder que devia um pouco parecida a que sentia a molecada da Juventude Hitlerista. O modus operandi das ditaduras é sempre perverso e muitas vezes encontra sua base de força justamente naqueles que se satisfazem em exercer um pouco de micro-poder na sua aba.

Que eu saiba ninguém que participou do PES, pelo menos na minha turma, cresceu um facínora psicopata. Pelo menos para compensar tínhamos outros professores que tratavam de abrir nossas mentes. Realmente quando entrei no segundo grau e tive aulas de filosofia e sociologia já no primeiro ano deixei totalmente para trás essa onda de fazer parte de grupos uniformizados ou organizados de qualquer espécie.

Ainda bem também que esta história de Pelotão da Bandeira, Vigilante do Meio Ambiente e Patrulha Escolar de Segurança ficou para trás, numa página pouco memorável do sistema educacional público do Rio de meados dos anos 80. E que ninguém quis me encher de tapa depois que eu deixei de ser PES.

Comments»

1. Serbão - 2 April, 2008

putz…
eu lembro que havia os ‘monitores’. a professora escolhia um aluno. que tinha que vigiar os outros e entregar quem se comportasse mal na ausencia dela.

lembro tbem que todo dia 31 de março era tipo um feriado na escola… todos hasteando a bandeira e cantando o Hino nacional.
anos depois, ao lembrar dessas cenas, me sinto no meio do livro do Orwell, Revolução dos Bichos…

2. Renato - 2 April, 2008

Pois é, Serbao, a secretaria de educacao do Rio foi mais radical… puro facismo…

3. Leila - 2 April, 2008

Eu estudava num colegio de freiras, entao a unica coisa mais militarista na epoca era cantar o hino toda sexta-feira no patio da escola. Todo mundo achava um saco.

4. Vanessa - 2 April, 2008

Eu também, Leila! Estudei em colégio de freiras e a única coisa que tínhamos que fazer era hastear a bandeira e cantar o hino. Agora, confesso que uma de minhas frustracoes foi nunca ter paticipado da cerimonia, levantando a bandeira na parte da manha…

5. maray - 3 April, 2008

Nossa! Tenho que dar graças por ter sido péssima aluna, veja só!! Nunca fui a queridinha das professoras!!
Mas cá entre nós, que ninguém nos leia…como eu gostaria de ter sido!! :)

6. Marcella - 16 June, 2008

No meu colégio tem um monte de Ordens ! ”/

BeijOs :D