A Vogue e o King Kong March 24, 2008
Postado por tordesilhas em : Cultura , 29comentáriosUma polêmica das boas está chacoalhando o mundo da alta-moda nos Estados Unidos: a edição americana da revista Vogue está sendo acusada de reforçar velhos estereótipos raciais na capa deste mês, que trás o astro afro-americano de basquetebol LeBron James com o braço ao redor da cintura de Giselle Bünchen. Esta é a terceira vez na história da Vogue americana que um homem sai na sua capa (segundo a Time, nas vezes anteriores estiveram Richard Gere e George Clooney). Mas, como registra o Guardian, o que seria motivo de “comemoração” para a comunidade afro-americana está gerando protestos, já que a foto, tirada por Annie Leibovitz, lembra muito o cartaz clássico do filme King-Kong, de 1933.
Na capa da Vogue o astro do Cleveland Cavalliers aparece com uma pose agressiva, ao parecer entoando um grito de guerra, enquanto a super-modelo meio que flutua para fora de seus braços. Apesar do sorriso, como lembra o Guardian, a cara de Gisele Bunchen é a de alguém que “poderia estar em outro lugar”.
A “semelhança” entre a foto e o cartaz do filme King Kong vem provocando cada vez mais indignação na comunidade afro-americana. Um blogueiro citado pelo Guardian toca direto no ponto: “LeBron está justo ali perpetuando o estereótipo que ajudou a escravizar, linchar e matar a milhares dos nossos homens negros durante séculos…” A revista obviamente nega qualquer intenção racista em sua capa. Um porta-voz até lembrou que atualmente não há ningupen mais “fashion” na indústria da moda que LeBron e Bünchen.
Mas o fato concreto, como lembra a reportagem do Guardian, é que nas únicas vezes anteriores em que um homem apareceu na capa da Vogue, eles foram retratados de maneira muito deferente de LeBron: Gere e Clooney aparecem respectivamente em 1992 e 2000. Ambos posaram ao lado de super-modelos: o primeiro com Cindy Crowford e o segundo com a mesma Gisele Bünchen. Aí morrem as semelhanças com LeBron, já que em ambos casos os atores foram mostrados em posição “sexy” e “estilosa” ao lado de suas companheiras de foto.
Pode ser que realmente a equipe da Vogue não tenha tido nenhum intenção racista. Afinal seria natural retratar um esportista em uma posição que lembre o seu trabalho, daí que um grito de guerra na boca de um jogador de basquete não é tão fora do contexto assim. Mas não há dúvida de que deveriam ter tido mais sensibilidade ao preparar a foto. E eu acho, sim, que mesmo de forma não intencional, a imagem reflete os estereótipos racistas que estão no inconsciente dos editores da revista (e de boa parte de seus/suas leitoras também.

