Dia dos Mortos na Bolívia November 16, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , trackbackContinuando minhas histórias sobre a viagem a Bolívia e Colômbia que fiz recentemente, queria falar um pouco sobre a tradição do dia dos mortos no país de Evo Morales. Eu estava na Bolívia justamente na época e fiquei impressionado com as diferentes tradições que existem no país para lembrar os que já se foram desta para outra. O que vemos nos cemitérios brasileiros nem se compara. Abaixo um pequeno recorrido pelas tradições nas principais zonas do país. A informação foi tirada de uma reportagem publicada pelo jornal La Razón.
La Paz
Os “paceños”, como se chamam os habitantes da região da capital da Bolívia, costumam preparar uma refeição especial exatamente ao meio dia da sexta-feira, Dia dos Mortos. Os familiares a e amigos do defunto se reúnem e rezam junto enquanto “levantam” a mesa, ou seja, recolhem os alimentos. Cada alimento é recolhido depois de uma oração pelos que morreram. A família vai, então, para o cemitério e monta a mesa outra vez. Desta vez oferecem pães em troca das orações e cantorias. Aqueles que oferecem as melhores orações recebem a melhor parte dos alimentos.
Beni
Neste departamento boliviano que fica na fronteira com o Brasil, a tradição na cidade de San Ignácio de Moxos, por
exemplo, é que os amigos do defunto levam para a igreja comida, bebida, doces e “masaco” (uma espécie de banana moída com queijo). Enquanto o “rezador” dirige as orações, acredita-se que os mortos se alimentam com as comidas feitas em sua honra. Os jovens e crianças presentes são proibidos de receber as oferendas. Segundo a crença do lugar, o que as almas comem, não deve ser consumido pelas crianças porque ficam loucas.
Cochabamba
Uma variação interessante das tradições anteriores. Acredita-se que muitas vezes acontece de o espírito se sentir tão bem recebido com todas estas oferendas que ele se recusa a voltar para o seu lugar no fim do dia. Para expulsá-lo de volta, uma pessoa da comunidade tem de se vestir com a sua roupa e se ocultar para não ser encontrada. O resto da comunidade sai para buscá-lo e ao encontrá-lo o recordam de que deve voltar para o céu. O fazem aos gritos e dando-lhe chicotadas. Em algumas comunidades se armam grandes escadas para emular esta subida aos céus.
Tarija
Nesta região perto da Argentina a tradição é um pouco mais tranqüila. O defunto é lembrado no cemitério mesmo. Sua tumba é arrumada e enfeitada com velas e luzes nos nichos. No dia 1 de novembro a família e os amigos se mudam para o cemitério pela tarde para realizar uma espécie de vigília, parecida com o velório. Aproveitam para beber “canelados”, bebida feita a base de aguardente, açúcar e canela, e se escutam cantos e a música que o defunto mais gostava. Todos passam a noite no lugar e no dia seguinte se reúnem para um grande almoço familiar na casa do morto.
Região andina
Em muitas áreas da região andina da Bolívia, a visão sobre morte é distinta da tradição católica. Não se acredita que as almas vão para o céu ou inferno. Na verdade, a crença é a de que elas para um lugar especial chamado wiñay marka, qhorykancha o waca.
A pessoa não morre, mas se “afasta” para uma cidade eterna chamada wiñai marka e uma vez por ano os que se foram regressam para ver como estão seus parentes em casa.
Segundo os antropólogos, a cosmovisão andina não é de uma cultura de vida ou morte. A idéia é a de que viemos de algum lugar e vamos para outro. Nesta região a festa dos mortos, chamada “aya marka”, dura um mês, do começo ao fim de novembro. Neste período os mortos têm 30 dias para compartilhar a casa, o campo e o arado com os parentes. Se são bem atendidos, como agradecimento mandam chuvas para que a família possa ter uma boa colheita.
Quando se afastam do mundo dos vivos as almas vão para o “qhorykancha” ou “waca”, um lugar sagrado. Elas levam três anos para chegar lá, na primeira vez que visitam o lugar. Ali se transformam em “apus” ou “achachilas”, que são os deuses que protegem aos seres humanos. Ou seja, se transformam em montanhas, morros, água, elementos da natureza.
Eles voltam uma vez por ano para a casa dos parentes para se reabastecer de alimentos, água e tudo de que necessitam; para se recarregar de energias antes de voltar para sua morada eterna. Evidentemente estes costumes estão ligados ao calendário agrícola, fundamental para os moradores da região andina.

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