O Mata-Muertos November 10, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 1 comentário até agoraFinalmente voltando a Lima depois de 14 dias de viagem pela Bolívia e Colombia. Muita história interessante para contar. Pouco a pouco vou tentar incluí-las todas aqui no Tordesilhas. Algumas já podem ser lidas em um outro blog em espanhol, o Vasto Mundo, que eu criei para experimentar incluir apenas relatos de viagem que tem a ver com o meu trabalho na Oxfam. Na verdade é uma experiência para um blog oficial que a Oxfam está prestes a criar. Por enquanto, deixo aqui uma história recolhida nas minhas andancas pela regiao do rio Atrato, no nordeste da Colombia, uma área belíssima, onde convivem duas culturas, a indígena e a afro-colombiana, tentando sobreviver a horríveis histórias de morte e violencia causadas pelo conflito armado que está comendo a Colômbia por dentro.
O “Mata-Muertos”
Visitei uma comunidade indígena enfronhada cinco horas de barco adentro do rio Atrato. Ali conheci o “Mata-Muertos”. Nao pude tirar fotografias dele e por isso vao ter de acreditar nas minhas palavras. A história é a seguinte: segundo os indígenas da regiao, quando um deles morre, mas seu espírito nao consegue seguir adiante por alguma razao, ele fica vagando pela comunidade, espantando os moradores, principalmente os familiares, e trazendo vibracoes negativas.
Normalmente acontece que alguns dias depois do enterro as pessoas comecao a ouvir gritos do morto no meio da noite, objetos se movem, animais e criancas adoecem sem razao etc. Neste momento, a comunidade chama o “Mata-Muertos”. Sua missao é abrir a sepultura do morto responsável pela alma penada. Muito provavelmente o seu corpo nao terá entrado em estado de decomposicao, apesar de ter sido enterrado há dias ou semanas. Neste caso, o Mata-Muertos tem de fazer uma cerimônia especial, que só ele conhece, e cravar uma estaca no coracao do cadáver. Só assim o espírito será liberado para finalmente seguir adiante e a comunidade ficará livre da sua presenca.
Só existe um Mata-Muertos por comunidade. Perguntei como ele é escolhido e me responderam que ele nao é escolhido. Ele simplesmente é o Mata-Muertos e todo mundo, inclusive ele mesmo, sabe disso desde sempre. Quando o Mata-Muertos da comunidade morre, outra pessoa o substitui. Como? Simplesmente o substitui.
O fato, e isso eu posso testemunhar, é que o Mata-Muertos da comunidade que visitei, apesar de ter todo o aspecto indígena, como os outros moradores, tem a pele mais clara, quase pálida. Nao sei se é o peso de carregar uma missao tao macabra e importante, ou é um truque consciente ou inconsciente feito com o uso de uma pintura especial. O que sei é que, segundo ele, neste último ano já ajudou a 12 almas-penadas a seguirem seu rumo em paz.
