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O referendo do Chávez November 29, 2007

Postado por tordesilhas em : Política , 4comentários

UPDATE - É, parece que o Chavez levou o premio maior no referendo deste domingo. Pesquisas de boca de urna indicam uma vitória apertada do “Sim” às reformas constitucionais que dão poder quase ilimitado ao líder venezuelano. Tudo aparentemente dentro dos conformes do sistema democrático. É o monstro no estômago, devorando-nos desde dentro.

O referendo deste domingo na Venezuela pode se transformar em um inesperado tapa na cara de Hugo Chávez se forem confirmadas as pesquisas de opinião que indicam uma possível derrota da proposta de reforma constitucional que lhe daria a possibilidade de se reeleger eternamente. Evidentemente o líder venezuelano ainda goza de uma enorme popularidade, especialmente junto às camadas mais pobres da população e à parte da classe média e da elite que se beneficiam de seu modelo econômico. E nestes últimos dias ele porá na rua toda a força da máquina governamental e dos milhares de ativistas chavistas para  garantir a vitória.Espanha e Colômbia entraram na roda do “jogo para a galera” de Chavez. O rei espanhol Juan Carlos – com o já clássico “Por que no se cala?” – e o presidente colombiano Álvaro Uribe – com as idas e vindas da negociação humanitária com as FARC – deram as suas contribuições para o espetáculo midiático chavista. A derrota de Chavez no domingo não significará necessariamente que ele perderá espaço de poder dentro da Venezuela, mas lhe dará um sinal bastante eloqüente de que mesmo entre seus simpatizantes ainda existe um pouco de senso crítico. E certamente servirá para reavivar a oposição na Venezuela, o que é sempre muito saudável para a democracia.

Dia dos Mortos na Bolívia November 16, 2007

Postado por tordesilhas em : Cultura , deixe teu comentário

Continuando minhas histórias sobre a viagem a Bolívia e Colômbia que fiz recentemente, queria falar um pouco sobre a tradição do dia dos mortos no país de Evo Morales. Eu estava na Bolívia justamente na época e fiquei impressionado com as diferentes tradições que existem no país para lembrar os que já se foram desta para outra. O que vemos nos cemitérios brasileiros nem se compara. Abaixo um pequeno recorrido pelas tradições nas principais zonas do país. A informação foi tirada de uma reportagem publicada pelo jornal La Razón.

La Paz
Os “paceños”, como se chamam os habitantes da região da capital da Bolívia, costumam preparar uma refeição especial exatamente ao meio dia da sexta-feira, Dia dos Mortos. Os familiares a e amigos do defunto se reúnem e rezam junto enquanto “levantam” a mesa, ou seja, recolhem os alimentos. Cada alimento é recolhido depois de uma oração pelos que morreram. A família vai, então, para o cemitério e monta a mesa outra vez. Desta vez oferecem pães em troca das orações e cantorias. Aqueles que oferecem as melhores orações recebem a melhor parte dos alimentos.

Beni
Neste departamento boliviano que fica na fronteira com o Brasil, a tradição na cidade de San Ignácio de Moxos, por oferendas.jpgexemplo, é que os amigos do defunto levam para a igreja comida, bebida, doces e “masaco” (uma espécie de banana moída com queijo). Enquanto o “rezador” dirige as orações, acredita-se que os mortos se alimentam com as comidas feitas em sua honra. Os jovens e crianças presentes são proibidos de receber as oferendas. Segundo a crença do lugar, o que as almas comem, não deve ser consumido pelas crianças porque ficam loucas.

Cochabamba
Uma variação interessante das tradições anteriores. Acredita-se que muitas vezes acontece de o espírito se sentir tão bem recebido com todas estas oferendas que ele se recusa a voltar para o seu lugar no fim do dia. Para expulsá-lo de volta, uma pessoa da comunidade tem de se vestir com a sua roupa e se ocultar para não ser encontrada. O resto da comunidade sai para buscá-lo e ao encontrá-lo o recordam de que deve voltar para o céu. O fazem aos gritos e dando-lhe chicotadas. Em algumas comunidades se armam grandes escadas para emular esta subida aos céus.

Tarija
Nesta região perto da Argentina a tradição é um pouco mais tranqüila. O defunto é lembrado no cemitério mesmo. Sua tumba é arrumada e enfeitada com velas e luzes nos nichos. No dia 1 de novembro a família e os amigos se mudam para o cemitério pela tarde para realizar uma espécie de vigília, parecida com o velório. Aproveitam para beber “canelados”, bebida feita a base de aguardente, açúcar e canela, e se escutam cantos e a música que o defunto mais gostava. Todos passam a noite no lugar e no dia seguinte se reúnem para um grande almoço familiar na casa do morto.

Região andina
Em muitas áreas da região andina da Bolívia, a visão sobre morte é distinta da tradição católica. Não se acredita que as almas vão para o céu ou inferno. Na verdade, a crença é a de que elas para um lugar especial chamado wiñay marka, qhorykancha o waca.

A pessoa não morre, mas se “afasta” para uma cidade eterna chamada wiñai marka e uma vez por ano os que se foram regressam para ver como estão seus parentes em casa.

Segundo os antropólogos, a cosmovisão andina não é de uma cultura de vida ou morte. A idéia é a de que viemos de algum lugar e vamos para outro. Nesta região a festa dos mortos, chamada “aya marka”, dura um mês, do começo ao fim de novembro. Neste período os mortos têm 30 dias para compartilhar a casa, o campo e o arado com os parentes. Se são bem atendidos, como agradecimento mandam chuvas para que a família possa ter uma boa colheita.

Quando se afastam do mundo dos vivos as almas vão para o “qhorykancha” ou “waca”, um lugar sagrado. Elas levam três anos para chegar lá, na primeira vez que visitam o lugar. Ali se transformam em “apus” ou “achachilas”, que são os deuses que protegem aos seres humanos. Ou seja, se transformam em montanhas, morros, água, elementos da natureza.

Eles voltam uma vez por ano para a casa dos parentes para se reabastecer de alimentos, água e tudo de que necessitam; para se recarregar de energias antes de voltar para sua morada eterna. Evidentemente estes costumes estão ligados ao calendário agrícola, fundamental para os moradores da região andina.

O Mata-Muertos November 10, 2007

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Finalmente voltando a Lima depois de 14 dias de viagem pela Bolívia e Colombia. Muita história interessante para contar. Pouco a pouco vou tentar incluí-las todas aqui no Tordesilhas. Algumas já podem ser lidas em um outro blog em espanhol, o Vasto Mundo, que eu criei para experimentar incluir apenas relatos de viagem que tem a ver com o meu trabalho na Oxfam. Na verdade é uma experiência para um blog oficial que a Oxfam está prestes a criar. Por enquanto, deixo aqui uma história recolhida nas minhas andancas pela regiao do rio Atrato, no nordeste da Colombia, uma área belíssima, onde convivem duas culturas, a indígena e a afro-colombiana, tentando sobreviver a horríveis histórias de morte e violencia causadas pelo conflito armado que está comendo a Colômbia por dentro.

O “Mata-Muertos”
Visitei uma comunidade indígena enfronhada cinco horas de barco adentro do rio Atrato. Ali conheci o “Mata-Muertos”. Nao pude tirar fotografias dele e por isso vao ter de acreditar nas minhas palavras. A história é a seguinte: segundo os indígenas da regiao, quando um deles morre, mas seu espírito nao consegue seguir adiante por alguma razao, ele fica vagando pela comunidade, espantando os moradores, principalmente os familiares, e trazendo vibracoes negativas.

Normalmente acontece que alguns dias depois do enterro as pessoas comecao a ouvir gritos do morto no meio da noite, objetos se movem, animais e criancas adoecem sem razao etc. Neste momento, a comunidade chama o “Mata-Muertos”. Sua missao é abrir a sepultura do morto responsável pela alma penada. Muito provavelmente o seu corpo nao terá entrado em estado de decomposicao, apesar de ter sido enterrado há dias ou semanas. Neste caso, o Mata-Muertos tem de fazer uma cerimônia especial, que só ele conhece, e cravar uma estaca no coracao do cadáver. Só assim o espírito será liberado para finalmente seguir adiante e a comunidade ficará livre da sua presenca.

Só existe um Mata-Muertos por comunidade. Perguntei como ele é escolhido e me responderam que ele nao é escolhido. Ele simplesmente é o Mata-Muertos e todo mundo, inclusive ele mesmo, sabe disso desde sempre. Quando o Mata-Muertos da comunidade morre, outra pessoa o substitui. Como? Simplesmente o substitui.

O fato, e isso eu posso testemunhar, é que o Mata-Muertos da comunidade que visitei, apesar de ter todo o aspecto indígena, como os outros moradores, tem a pele mais clara, quase pálida. Nao sei se é o peso de carregar uma missao tao macabra e importante, ou é um truque consciente ou inconsciente feito com o uso de uma pintura especial. O que sei é que, segundo ele, neste último ano já ajudou a 12 almas-penadas a seguirem seu rumo em paz.

Gelo em Bogotá November 3, 2007

Postado por tordesilhas em : Geral , 1 comentário até agora

Depois de uma semana na Bolívia, viajamos neste sábado para a Colômbia. De Bogotá vamos visitar o programa humanitário da Oxfam na regiao de Urabá, no noroeste do país, perto da fronteira com o Panamá. A chegada em Bogotá foi muito esquisita. Primeiro durante todo o trajeto do vôo tivemos de aturar turbulências. Quando estávamos chegando, já no momento do pouso, o aviao arremeteu de repente. Ficou todo mundo meio nervoso, ainda mais que Bogotá é cercada por montanhas. Logo o piloto explicou que o pouso havia sido negado no último momento porque o aeroporto acabava de ser fechado. Ou seja, teríamos de ficar voando até receber a autorizacao para pouso. Isso durou uns 20 minutos.

Logo entendemos a razao do fechamento. Havia cabado de cair uma fortíssima tempestade de granizo sobre a cidade e as ruas de Bogotá estavam brancas, cobertas por toneladas de gelo. Estava todo mundo na rua tratando de tomar fotos e fazer bonecos de neve, quer dizer de gelo. Depois de quase uma hora presos no enorme engarrafamento que se formou, finalmente chegamos ao hotel.

A última surpresa nos esperava. Havia um casamento em plena tarde e a noiva estava tomando fotos na recepcao, enquanto uma orquestra tocava salsas e vallenato (música típica colombiana). Acreditem se quiser, enquanto escrevo a música invade a minha janela. O cantor, com sua voz melodramática, canta “amigo”, do Roberto Carlos, em espanhol e em ritmo de bolero. Uma tarde bem surreal.

Abaixo umas fotos que nao me deixam mentir e um pequeno vídeo que eu fiz do taxi das ruas de Bogotá cobertas de gelo.

granizada1.jpg granizada2.jpg granizada3.jpg noiva.jpg

Viajando pela Bolívia November 1, 2007

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Estou estes dias viajando pela Bolívia e Colômbia visitando os programas humanitários da Oxfam nos dois países. Aqui na Bolívia estou na cidade de Trinidad, capital do departamento de Beni, muito perto da fronteira com o Brasil. Esta é uma regiao muito parecida com a do Pantanal. Ou seja, todos os anos devido às chuvas torrenciais os rios ficam cheios e ocupam toda a parte mais baixa da regiao. Este ano a situacao extrapolou e houve uma inundacao que deixou dezenas de milhares de pessoas desabrigadas. A cidade de Trinidad, com 120 mil habitantes, se parece com Nova Orleans. É totalmente cercada por diques para evitar ser invadida pelas inundacoes anuais. Mas nem sempre é possível evitar, como foi o caso deste ano. Pelo menos, diferentemente de Nova Orleans, as vítimas foram atendidas rapidamente e a maioria já voltou para as suas casas. Abaixo umas fotos que dao uma idéia de como é a cidade.

carro_1.jpgSe você teve o carro roubado, este pode ser o seu. É verdade! O que tem de carro “ilegal” (ou seja, roubado no Brasil) circulando pelas ruas de Beni nao está no gibi. Como eles nao podem ser legalizados porque nao têm documento, o governo local malandramente criou um registro especial que só existe aqui e que é representado pela placa verde, que voces podem ver na foto.

protesto.jpgEvo Morales nao é uma pessoa muito querida em Beni, que junto com os departamentos de Tarija e Santa Cruz, pressiona pela autonomia com relacao al governo nacional. A foto mostra o que um determinado setor local pensa do presidente boliviano. Estas sao colunas da sede da prefeitura de Trinidad.

motos.jpgMotos, motos e mais motos. Elas sao onipresentes em Trinidad. Sao familias inteiras circulando para lá e para cá em suas máquinas de todos os tipos, anos e procedências. Um susto constante para quem se desloca de carro.

Dois exemplos de um tipo de construcao típica de Trinidad, com seus edifícios de dois andares sustentados por colunas.

cine.jpg colunas.jpg

internet.jpgComo em grande parte das cidades na América do Sul, a internet está por todos os lados. É a inclusao digital na marra. Aqui en Trinidad, as cabinas se multiplicam, apesar de que a qualidade da conexao é ainda baixa e volta e meia o sistema cai, como eles dizem por aqui.

Pois é, o surubi e o pacú sao os principais peixes da regiao. É claro que eles nem desconfiam que seus produtos-estrela dao margem a todo tipo de piadas de duplo-sentido no Brasil. Só posso dizer que comi um pacu grelhado hoje no almoco e é realmente delicioso. Tem uma foto do prato mais abaixo. Foi preparado com todo carinho por uma família de pescadores que estávamos visitando. Nao tive coragem de fazer nenhuma piada com o nome do prato e nem explicar o duplo sentido que tem no Brasil.

pacu.jpg almoco.jpg

Alguns personagens que conhecemos na nossa visita a Trinidad. Pescadores, agricultores e os papagaios Lorenzo y Chiquita. Todo mundo acha que sao namorados, mas eles garantem que sao apenas bons amigos. A sua dona nao acredita muito.

agricultor.jpg pescador.jpg papagaios.jpg

Um pouco da vegetacao e dos produtos agrícolas de Trinidad. Fomos recebidos por um agricultor, o senhor Casiano Algarañez, o da foto acima com o chapéu, que nos ofereceu como almoco alguns mamões que ele havia acabado de recolher e que podem ser vistos na foto abaixo. Simplesmente deliciosos. A árvore belíssima que se vê abaixo se chama “paradiso”. Tudo a ver.

arvore.jpgcoco.jpgmamao.jpgAbaixo uma foto da melhor cafeteria de Trinidad. Nao se deixem enganar pela imagem. O café é muito bom mesmo. Um espresso caprichado feito com o café Ideal, “o melhor da Bolívia”. Ao lado um flagrante do momento em que provava o espresso diário depois de um dia extremamente cansativo. Dá para ver pela minha cara.

cafeteria.jpgcafeteria_renato.jpg