Um blog imperdível October 24, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 3comentários“De cozinha, sei apenas o básico, para não passar vexame. Mas sei que para se preparar um bom linguini ao pesto, tudo tem que ser feito na hora. Assim são também as cenas emocionais, não se pode ensaiar muito antes de rodar para manter vivo o perfume do manjericão e a emoção “al dente”. Trecho de um destes programas culinários tão na moda? Poderia até ser. Mas na verdade é o início do terceiro post publicado pelo diretor Fernando Meirelles no blog fantástico que ele mantém sobre a filmagem do seu filme mais recente, “Blindness”, baseado no Ensaio sobre a Cegueira, do Saramado. O blog é muito bom mesmo, uma verdadeira aula de cinema dada por quem entende do ofício. Além do mais, os textos são excelentes, com uns poucos erros de digitação que os tornam ainda mais pessoais, e prendem a atenção do começo ao fim. Já entrou na lista dos meus blogs imperdíveis. E tal como o próprio Saramago, também estou ansioso para assistir o filme quando for lançado. Tenho certeza de que será mais um êxito do Fernando Meirelles.
Ditaduras travestidas de democracias October 21, 2007
Postado por tordesilhas em : Política , 2comentáriosO Chavez conseguiu o que todo mundo sabia que ele queria (e que iria conseguir): o Congresso venezuelano aumentou o mandato do presidente de seis para sete anos e de quebra lhe deu a possibilidade de postular a reeleição indefinidamente. Ditadura, pura e simples. Só que no novo modelo que está sendo criado inventivamente em alguns países da América Latina. Ou seja, devidamente “disfarçada” de democracia. Na Colômbia, a coisa vai pelo mesmo caminho. Está mais claro do que nunca que Álvaro Uribe vai tentar estender o seu mandato para pelo menos mais uma reeleição, com a ajuda do subserviente Congresso colombiano. Especialmente depois da vitória incontestável que os candidatos “uribistas” terão nas eleições municipais e provinciais que agitarão a Colômbia no próximo fim de semana. Na Venezuela, segundo as notícias, a população recebeu a notícia da mudança constitucional com apatia. Na Colômbia, Uribe é quase um deus, intocável, apesar de todas as denuncias de envolvimento do seu entorno mais próximo, e dele mesmo, com os paramilitares e narcotraficantes da pesada. Aliás, nao sem razao Uribe e Chavez sao tao próximos um do outro, apesar das aparentes diferencas ideológicas. Dá até desanimo…
Família não se escolhe… October 17, 2007
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Eu sou fã do pré-candidato democrata à presidência dos EUA Barak Obama. A história de vida dele não é segredo. Pelo contrário, é apresentada como um exemplo de que o “sonho americano” segue vivo, apesar de tudo, culminando em um personagem que pode se constituir no primeiro presidente negro americano. Mas por essa nem o candidato esperava: não é que Barak Obana é primo distante de George Bush e do vice-presidente Dick Cheney?
Pois é, a história parece até hoax de internet, mas aparentemente é verdadeira. Foi registrada pelo insuspeito Guardian aqui. Os fatos são os seguintes: os pais de Barak Obama formaram um casal inter-racial: ele era negro, proveniente do Quênia, e ela é branca, e vem de uma família tradicional de Kansas. Subindo a escala do tempo oito gerações para trás é que se chega ao ascendente comum entre Obama e Cheney. A história foi revelada por Lyne Cheney, a esposa do vice-presidente americano, que a descobriu quando investigava para seu livro de memórias entitulado “Blue Skies, No Fences”.
Segundo o Guardian, uma porta-voz da Sra. Cheney explicou que Barak Obama descenderia de Mareen Duvall, um francês huguenote cujo filho casou-se com Susannah, a neta de um tal de Richard Cheney, que havia chegado a Maryland desde a Inglaterra no fim dos anos 1650.
Como explica detalhadamemnte o Guardian:
“The Duvalls are Mr Obama’s great-great-great-great-great-great-great-great-great-grandparents, and the vice-president’s great-great-great-great-great-great-great-great-grandparents.”
Sobre a história, um porta-voz de Barak Obama teria declarado, de maneira mordaz, que “toda família tem a sua ovelha negra”.
O mais interessante é que faz um mês o jornal americano Chicago Sun-Times havia revelado que Obama o Bush também têm um ancestral comum, que remonta ao século 17.
De repente com isso, Obama consegue até ganhar uns votos de eleitores republicanos… Certamente continua com o meu voto.
Nóis sofre, mais nóis goza… October 15, 2007
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BRASÍLIA - Pesquisa Sensus divulgada nesta segunda-feira pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) confirma a torcida do Flamengo como a maior do país, com 14,4% dos torcedores. As torcidas do Corinthians, 10,5%, e São Paulo, 8%, aparecem em segundo e terceiro lugar na preferência da população. Mais aqui. Uma prova incontestável deste amor a qualquer prova é o fato de as maiores bilheterias deste campeonato brasileiro terem sido fruto de jogos do Mengao. Há muito tempo que o time não é lá estas coisas, mas este é um amor inexplicável mesmo. E eu aprendi a amar o Flamengo nos tempos do time glorioso do início dos anos 80. Quem viu aquela máquina, nao esquece jamais…
El olvido que seremos… October 15, 2007
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Polêmicas literárias são sempre interessantes. Na Colômbia agora tem uma que envolve Jorge Luis Borges e um dos livros mais vendidos no país, que relata a história de vida e morte de um conhecido ativista dos direitos humanos. O mote da polêmica é o soneto “Epitáfio”, atribuído ao mestre argentino, que foi encontrado no bolso do conhecido sanitarista Héctor Abad Gómez no dia em que este foi assassinado, 20 anos atrás. Seu filho, o escritor Héctor Abad Faciolince, foi quem encontrou o poema manuscrito e o reproduziu no excelente e emocionante livro “El olvido que seremos”, no qual faz um relato pessoal de sua relação com o pai. O tal poema está reproduzido abaixo, mas o que interessa aqui é o fato de que na verdade ele não foi escrito por Borges e a sua autoria alimenta a polêmica a que me refiro.
Na verdade, o poema em questão aparentemente foi escrito pelo poeta colombiano Harold Alvarado Tenorio e publicado em 1993 na revista Números. O problema é que Héctor Abad Gomes morreu em 1987, portanto seis anos antes. Como poderia, então, o poema ter sido encontrado no seu bolso se só teria sido publicado anos depois? O escritor Hector Abad Faciolince até considerou a possibilidade de que a sua memória lhe estivesse pregando uma peça. Mas ele se lembrou que havia escrito um artigo para o suplemento dominical de um jornal de Medellin em novembro de 1987 sobre o pai no qual está a reprodução do soneto.
Até o editor William Ospina, um dos maiores especialistas na obra de Borges, entrou na polêmica. Ele diz que o tal soneto não está entre as obras conhecidas do mestre argentino, mas reconhece no poema todos os elementos borgianos. No fim, ele prefere uma explicação quase mística, na qual o soneto poderia, sim, ter sido escrito seis anos de ter sido escrito…. Mais borgiano, impossível.
Um resumo desta história pode ser lido aqui e aqui. O soneto esta aí embaixo.
Ya somos el olvido que seremos.
El polvo elemental que nos ignora
y que fue el rojo Adán y que es ahora
todos los hombres y que no veremos.
Ya somos en la tumba las dos fechas
del principio y el término, la caja,
la obscena corrupción y la mortaja,
los triunfos de la muerte y las endechas.
No soy el insensato que se aferra
al mágico sonido de su nombre;
pienso con esperanza en aquel hombre
que no sabrá que fui sobre la tierra.
Bajo el indiferente azul del cielo
esta meditación es un consuelo.
Grande Mário de Andrade October 4, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 1 comentário até agoraFalar em burguesia está definitivamente fora de moda. Muito anos 60 para um mundo cínico e globalizado como o nosso. Mas vivendo em Lima por tanto tempo, com sua burguesia tão característica e com hábitos tão parecidos com um certo estereótipo da burguesia brasileira de 30 anos atrás - e que na verdade persiste até hoje, apenas disfarçada – lembrei-me um dia desses do clássico ¨Ode al Burguês¨, do Mário de Andrade, publicado em 1922 no livro Paulicéia Desvairada. Como todo clássico, não perde a atualidade…
Ode ao burguês
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! os condes Joões! os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos;
e gemem sangues de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o èxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suissa! Morte viva ao Adriano!
“-Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
-Um colar… -Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!”
Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burgês!…
De Paulicéia desvairada (1922)
