A Colômbia e o café September 27, 2007
Postado por tordesilhas em : Geral , 4comentários
Sempre que viajo para a Colômbia uma coisa que chama a minha atenção é a relação que os colombianos têm com o café. Nós, brasileiros, estamos acostumados a pensar no Brasil como “o país do café”. Mas acho que está na hora de a gente rever este estereótipo. A comparação que faço é a seguinte: no Brasil o café é parte do dia-a-dia, sem dúvida, mas nos relacionamos com ele de maneira quase indiferente. Sem grandes relações sentimentais, vamos dizer assim. Na Colômbia, ao contrário, aonde vou a impressão que tenho é de que existe uma relação mais “sentimental” com o café. É difícil de explicar, mas parece que os colombianos respeitam e valorizam muito mais a “sua” bebida nacional do que nós.
Uma das razões pode ser o fato de que o café ainda é muito importante para a balança comercial colombiana. No Brasil, apesar de ainda ser o maior produtor do mundo, o café há muito tempo deixou de ser um item fundamental na nossa pauta de exportações. Os produtores de Café colombianos sempre foram muito bem organizados e a Federação dos Cafeicultores ainda é um poderosíssimo e influente grêmio representativo do setor.
Um novo modelo de negócio
Uma coisa que eles souberam fazer muito bem foi investir na marca “café colombiano” e vendê-la como símbolo de qualidade mundo afora. Criaram 1959 um representante, o “Juan Valdez”, que é personificação do café colombiano: um produtor com seu bigodão e chapelão, sua manta típica, em pé ao lado la mula Conchita carregada de sacas de grãos. O interessante é que eles vendem café proveniente de diferentes partes do país e os lucros são divididos com os associados. De maneira que a competição não é entre os produtores no país, mas entre o “café colombiano” e o dos outros países.
Pois bem, agora eles estão entrando em uma nova frente e competindo direto com a Starbucks e seu modelo de negócio baseado na venda de cafés de diversas partes do mundo em um ambiente “cool”. A Federação de Cafeicultores lançou um franchise da marca Juan Valdez e está abrindo cafeterias no mesmo estilo das da Starbucks em todo o país. Na vez anterior em que eu vim a Colômbia havia apenas umas poucas. Agora já são 80 lojas na Colômbia, 10 nos Estados Unidos e duas na Espanha.
O clima nas cafetarias Juan Valdez emula um pouco o de uma loja da Starbucks: um desenho moderno, lugar para ler, wi-fi para os laptos, música moderna. Mas tem uma diferença: o café é muito melhor e é puramente colombiano, de diferentes partes do país. E eles não vendem aquelas misturas malucas da Starbucks que às vezes até atordoam na hora de decidir qual vamos querer.O que tem são as típicas variações de espressos, de cafés frios, os “nevados” e os “extremos”, estes misturados com bebida alcoólica. E, claro, é possível escolher comprar o seu legítimo café colombiano em grãos ou moído na hora.
Lutando contra a “despersonalização” do café
Acho esta iniciativa bem interessante para defender um “produto nacional”, como o café, apesar de que não sei se conseguiriam exportar o modelo de maneira ampla para fora do país e bater de frente mesmo com a Starbucks. Lembro-me que uns dois anos atrás eu estava na Conferência Internacional do Café, em Salvador, quando o presidente colombiano Álvaro Uribe fez um forte discurso atacando as regras do mercado mundial do café, que estavam matando pouco a pouco os produtores. Em um dado momento ele investiu contra o modelo Starbucks, que muita gente vê como uma salvação para os pequenos produtores, sobretudo os que produzem cafés especiais, orgânicos, gourmet etc.
Álvaro Uribe defendeu que na verdade o que a Starbucks e cafeterias do gênero fazem é “despersonalizar” o café, ao trazer grãos de diversas partes do mundo e fazer misturas exóticas que no fim nao permitem ao consumir sentir o verdadeiro gosto do café. Ou seja, mesmo com os folhetos que a cafeteria distribui explicando de onde vem o seu café, na verdade o consumidor ficaria com a sensação de estar tomando um café “estilo Starbucks”, e não um produto plantado e colhido na Etiópia, Quênia ou Colômbia. Isto na verdade enfraqueceria a capacidade de negociação dos produtores e ao mesmo tempo desvincularia o produto de quem o produz realmente, uma espécie de “mais valia” movida a cafeína.
Ele disse então que os produtores são os que deveriam controlar o processo de fazer chegar o café até o consumidor e com isso defendeu, é claro, o modelo colombiano. Em um momento Álvaro Uribe disse que era preciso fazer uma guerra contra a Sturbucks. Foi fortemente aplaudido por metade da audiência, provavelmente composta por produtores, enquanto a outra metade apenas dava risinhos sem graça. Estes provavelmente eram representantes das empresas tostadoras e comercializadoras que dominam o mercado mundial de café.
Como bom fanático por café, dou a maior força e espero que a rede Juan Valdez chegue um dia a Lima. Por isso tenho de aproveitar cada oportunidade de viajar para a Colômbia para comprar o meu “tinto”, como chamam o café puro aqui e, de quebra, “fazer a diferença para 560 mil famílias cafetaleiras colombianas”, como está escrito na caixa registradora da loja Juan Valdez.
Para mais informação é só dar uma olhada no site da Juan Valdez, aqui.
