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Colapso, uma leitura imperdível September 11, 2007

Postado por tordesilhas em : Cultura , trackback

colapso.jpgPor que algumas sociedades perduram enquanto outras desaparecem? A resposta a esta pergunta fundamental pode ser encontrada no livro “Colapso”, escrito pelo biólogo Jared Diamond. Nestes tempos de globalização, aquecimento global, super-população este livro é uma leitura imperdível para qualquer pessoa que queira entender um pouco mais sobre como as inter-relações entre os seres humanos e deles com o meio ambiente podem determinar o futuro da civilização como a conhecemos ou até mesmo a existência humana na Terra. Trata-se de um tijolo de mais de 700 páginas muito bem escritas, o que torna a leitura muito fácil e absorvente. Não é um livro apocalíptico, mesmo porque procura abordar exemplos de sociedades que conseguiram sobreviver no tempo ao aprender a lidar de maneira sustentável com o meio ambiente.

O livro anterior de Jared Diamond, chamado “Armas, Germes e Aço”, já havia mostrado a verve e a visão inovadora do autor, ao abordar o sucesso do desenvolvimento dos povos pelo viés do domínio da agricultura, dos meios bélicos, da tecnologia… e da resistência às doenças e epidemias. No caso de Colapso, Diamond usa exemplos concretos de sociedades que desapareceram, como as da Ilha da Páscoa, dos indígenas Anasazi, no atual território norte-americano, dos maias, entre outras, para analisar suas relações internas e como lidaram com o ambiente em que viviam. A partir daí, o autor procura determinar as causas da desaparição destas sociedades e como poderiam ser usadas como exemplo para nós, hoje em dia.

Ele também analisa casos bem sucedidos de sociedades que conseguiram preservar seus recursos e permanecer no tempo. Como exemplo, Diamond discorre sobre os agricultores das terras altas de Nova Guiné ou os governantes japoneses da dinastia Tokugawa que impuseram uma gestão florestal que assegurou a proteção estrita dos bosques do país, apesar da sua grande população e pouca área disponível para plantio.

Uma análise particularmente polêmica do autor é sobre o genocídio de Ruanda, em 1994. Diamond abraça a tese segundo a qual uma das suas causas está relacionada com as pressões criadas pelo aumento exponencial da população com relação às áreas existentes para agricultura e as fontes de água. Ele não tira a culpa das decisões políticas dos líderes ruandeses, que finalmente foram os responsáveis pelos massacres perpretados.

Aliás, o interessante do livro é que Jared Diamond deixa sempre claro que no final são as decisões tomadas pelas sociedades que determinam o seu futuro. Ele não deixa muito espaço para o determinismo ecológico.

As ilhas perdidas
Para mim, uma das histórias mais tocantes do livro é a do destino de um conjunto de ilhas da Polinésia cujas populações tiveram um destino trágico depois que os recursos naturais dos quais dependiam colapsaram. São três paraísos do Oceano Pacífico: as Ilhas de Mangareva, Pitcairn e Henderson. Elas estão perdidas no meio do nada e foram das últimas a ter ocupação humana quando os polinésios começaram a se expandir passando de uma ilhota para outra em suas pequenas embarcações feitas de troncos de árvores.

ilhas.jpgMangareva, com seus 15,4 quilômetros quadrados, é a que reúne melhores condições para a gricultura e sobrevivência de grupos humanos. Atualmente conta com uma população de cerca de mil habitantes, mas segundo estudos arqueológicos chegou a contar com alguns milhares de habitantes em seu apogeu, entre os séculos XI e XIV, antes portanto de ser “descoberta” pelos navegantes europeus.

A 480 quilômetros de Mangareva fica a Ilha de Pitcairn, um pedaço de terra de quatro quilômetros quadrados, que ficou famosa por ter sido o lugar escolhido pelos amotinados do navio Bounty na tentativa de escapar do governo inglês. Quando os amotinados chegaram a Pitcairn tiveram a surpresa de que havia rastros de uma antiga civilização a qual, seguindo estudos recentes, chegou a abrigar algumas centenas de habitantes. Hoje em dia a ilha é habitada por 52 descendentes dos marinheiros do Bounty.

Finalmente a terceira ilha, Henderson, é ainda mais inóspita e distante – fica a 650 quilômetros de Mangareva. Na verdade é um grande arrecife de coral com pouquíssimas condições de manter vida humana permanente. Apesar disso, os estudos arqueológicos demonstram também que a ilha contou com população permanente por centenas de anos.

Jared Diamond demonstra como as populações das três ilhas conseguiram vencer os quase impossíveis desafios naturais representados pela travessia do oceano aberto em barcos feitos de troncos de árvores para estabelecer um comércio permanente. Esta troca de víveres e riquezas específicas de cada lugar era o que permitia sobretudo a sobrevivência de seres humanos em Pitcairn e Henderson, já que Mangareva tinha melhores condições naturais para a agricultura, além dos alimentos marinhos.

O colapso e o fim
Mas em algum momento da história os recursos de Mangareva colapsaram. Isto resultou na destruição da estrutura política e social da ilha. Pior ainda, houve uma escassez generalizada de alimentos, já que as áreas disponíveis para agricultura diminuíram acentuadamente. Ainda hoje os remanescentes da população local guardam histórias que passam de geração para geração sobre os casos de canibalismo: os sobreviventes não apenas comiam os recém mortos, mas foram obrigados a desenterrar cadáveres para se alimentar.

O colapso de Mangareva resultou no fim imediato das trocas comerciais com Pitcairn e Henderson. De repente os barcos da ilha maior e mais desenvolvida deixaram de chegar aos diminutos pedaços de terra perdidos no meio o nada. Seus habitantes não contavam com recursos para escapar. Como foi o fim deles ninguém sabe, mas o fato é que suas diminutas populações tiveram de encontrar maneiras de sobreviver ainda por várias décadas até que o último habitante morreu.

Jared Diamond termina este capítulo de seu livro especulando como devem ter sido os últimos anos e dias de vida do ultimo habitante das ilhas. Um exercício que eu também me peguei fazendo. Aliás, que sigo fazendo até agora.

Diamond usa uma imagem dos últimos habitantes olhando dia após dia no horizonte infinitamente azul esperando que algum barco chegasse. Isso nunca aconteceu e quando os primeiros “descobridores” europeus chegaram a Pitcairn e Henderson a única coisa que encontraram foram os vestígios de seus antigos habitantes. Um testemunho eloqüente de como o colapso ambiental resultou no desaparecimento de toda uma pequena civilização. E no fundo um alerta para todos nós.

Comments»

1. Lucia Malla - 12 September, 2007

Sua resenha do livro é simplesmente excelente. Fiquei com muita vontade de ler o livro, principalmente porque usa essas ilhotas do Pacífico como exemplo de colapso. Exercício realmente instigante.

2. Renato - 12 September, 2007

Obrigado, Luca,
nao nego que fiquei com muita curiosidade de viajar até estes pequenos paraísos…
Um abraco,
Renato

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