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“Querido, cheguei!” June 16, 2007

Postado por tordesilhas em : Geral , trackback

As inundações no centro e norte da Inglaterra trouxeram para o noticiário inglês imagens de desespero de gente que perdeu todos os seus pertences e que me lembraram reportagens parecidas que estamos acostumados a ver no Brasil todos os anos. Mas o que me chamou mesmo a atenção na edição de sábado do Guardian, entre várias outras reportagens neste que na minha opinião é o melhor jornal da Inglaterra e um dos melhores do mundo, foi um artigo sobre o crescente número de homens que se dedicam a “cuidar da casa e dos filhos”, enquanto suas companheiras São as que trabalham em empregos remunerados e sustentam financeiramente o lar. Não é mais um fenômeno isolado, já que pelas estatísticas há pelo menos 200 mil homens na Inglaterra nesta situação, o dobro do que havia em 1993, quando começam as contagens. Neste mesmo período o número de “donas-de-casa” caiu de 2,7 milhões para 2,1 milhões, o que comprovaria a tendência.

A reportagem conversou com vários destes novos “donos-de-casa” para entender suas motivacoes, dificuldades e alegrias. Em primeiro lugar algo que fica claro é o que não se trata de homens que decidiram “dedicar mais tempo” à casa, dividindo responsabilidades com suas esposas. Na verdade, eles abandonaram suas carreiras e qualquer trabalho remunerado fora de casa para se dedicar 100% do tempo à casa e aos filhos em um acordo conjugal no qual fica claramente estabelecido que a responsabilidade por sustentar financeiramente o lar passa para o lado feminino do casal.

As razões dadas são várias. Para alguns a carreira da mulher tinha muito mais possibilidades que a do homem e portanto era lógico que fosse ele a estar em casa. Para outros, foi por uma questão de “temperamento”, quando estava claro que o homem tinha mais paciência para as tarefas de criação de filhos e manutenção da casa do que a mulher. Há em alguns casos uma decisão ideológica – ou idealista – ou uma decisão pensada de que entre ter um emprego estressante e estar em casa para acompanhar o crescimento dos filhos a segunda opção era melhor. Em todos os casos havia uma unanimidade que era fundamental dar às crianças a possibilidade de crescer tendo um dos pais perto, em vez de ser criadas por babby-sitters ou pulando de um jardim de infância para outro.

Novos paradigmas, novas questões
Evidentemente uma mudança de paradigmas como esta não acontece sem complicações, mas todos os entrevistados dizem que não sofrem um preconceito específico de seus amigos ou parentes. Claro que têm de escutar piadas e até olhares um pouco suspeitos quando têm de participar de clubes de mães (do tipo: estão atrás de mulheres ou são meio “esquisitos). Para estes novos pais/donos-de-casa o tema de divórcio se torna um complicador a mais.

Na Inglaterra, como em muitos países ocidentais, a mulheres têm a preferência para ficar com a guarda das crianças, mas até mesmo este paradigma começa a ser desafiado porque obviamente os homens que se dedicaram 24 horas de seus dias a cuidar dos filhos do casal exigem para si o direito de continuar cuidando deles quando o casal se separa - e a respectiva pensão, é claro.

Nick Cavender, um dos entrevistados, fica puto quando lhe perguntam se quando sua filha de 4 anos começar a ir para escola ele vai “voltar a trabalhar”. Primeiro porque a pergunta implica que o que ele tem feito nos últimos oito anos, quando deixou de ter um emprego remunerado para cuidar da primeira filha do casal, não conta como um “trabalho”. Segundo porque desconsidera que as crianças saem da escola às 15:30, existem os feriados escolares e os momentos em que as crianças estão doentes. Tudo isso implica ter um dos pais em casa para cuidar delas e dificilmente ele conseguiria um emprego que lhe desse oportunidade para cobrir estes períodos. Bem vindos à difícil vida das “donas-de-casa” e “mães de família”!

Compartilhando experiências
Os homens entrevistados são muito claros ao dizer que não se vêem como “desbravadores”, “pioneiros” ou algo pelo estilo. Eles tomaram decisões muito conscientes e nenhum se mostra arrependido. Ao contrário, ressaltam que a decisão tem muito de auto-satisfação e interesse próprio. Isto fica claro em declaracões como: “Cada sorriso, todos os maneirismos e cada palavra é uma recompensa” ou “Conheci pessoas com quem nunca socializaria normalmente”.

A autora da reportagem se lembra, então, de um poema de Philipp Larkin quando o poeta olha para um grupo de jovens mães e diz para si mesmo: “Something is pushing them / to the sides of their own lives”. Ou seja, uma visão profundamente negativa e pessimista da maternidade como uma exclusão do lado produtivo e dinâmico da vida. A autora mostra como em vez de se sentir marginalizados os “homedads” têm palavras positivas para descrever suas experiências de vida.

Na medida em que mais e mais casais optam por este novo tipo de acordo conjugal, se poderia esperar que a própria visão sobre “maternidade” e “paternidade” passará a ser cada vez mais questionada e o papel social do ato de “cuidar da casa e das crianças” vai sofrer uma reavaliação profunda no futuro não muito distante. Ao menos na Inglaterra.

A  autora da reportagem chama a atenção para o fato de que embora liberados da realidade de estar em um escritórios a maioria dos novos “pais-de-casa” entrevistados não podem viver sem seus computadores e a possibilidade de interagir com o mundo que a internet abre. Vários mantêm blogs e sites para compartilhar suas experiências. Aí vai um alista que merece a visita:

Acho que ficou faltando escutar mais a opinião das próprias mulheres e das esposas e como elas vêem esta mudança de paradigmas. Ainda assim a reportagem do The Guardian é muito interessante e pode ser lida aqui.

Comments»

1. Ana - 16 June, 2007

Eu sou totalmente adepta do Querido cheguei, mas vejo poucas que fazem isso. O povo aceita melhor homossexualismo, aborto e operaçao pra mudar de sexo do que marido que nao trabalha fora. Até porque pra mim o conceito do “trabalhar” é relativo. Ha milhoes de coisas interessantes pra se fazer em casa, na Internet, sem precisar fazer expediente das 9 h às 17h. Infelizmente no Brasil, a revistinha Época fez uma materiazinha muito ridicula sobre as maes que estao deixando os empregos, sem que fosse nem cogitado a hipótese que o marido largue o emprego pra aproveitar a infância dos rebentos.

2. Marcus - 16 June, 2007

Belíssimo artigo, Renato.

O assunto é muito pertinente, porque não há nada de errado nessa renúncia a uma vida profissional, desde que consciente e sem submissão.

Resta saber se é realmente possível uma relação igualitária entre o casal quando apenas um é que coloca dinheiro na casa. Nessas horas meu sensor “mesquinharia da espécie humana” apita, hehehe. É a força da grana que ergue e destrói, etc, etc.

3. Vanessa - 16 June, 2007

Acho que valeria a pena acompanhar as criancas para ir percebendo o que muda em sua visao de mundo e valores quando a presenca mais forte no dia-a-dia é a do pai e nao a da mae. Pela própria natureza do arranjo, parece ser mais dificil que a crianca cresca machista, por exemplo. Sem falar que dizem ser a mulher a grande responsável pelo machismo do filho, já que ela é a quem cria e blablablá. O quanto disso, e muitas outras coisas, pode mudar quando os filhos desses matrimonios virarem adultos?!

4. Renato - 18 June, 2007

Sao os novos paradigmas do seculo XXI quabrando tabus. Realmente fico pensando como sera a cabeca destas crianasc criadas no cotidiano pelos “dono-de-casa”, em uma inversao da logica que todos conhecemos. Sera que vao ser pessoas mais tolerantes? Ja deve ter alguem fazendo um estudo sobre isto…

5. Leila - 18 June, 2007

Foi dia dos Pais nos EUA este domingo, e a materia do principal telejornal foi sobre um pai dono-de-casa que cuida de 4 filhos enquanto a mulher trabalha fora. E ela esta’ gravida do quinto.

O filho de 8 anos do casal disse que ja’ sabe o que vai ser quando crescer: “stay-at-home Dad”.

6. Adriana - 19 June, 2007

Tremo de raiva cada vez que ouço que “o filho precisa da mãe em casa”, argumento principal das “stay-at-home-mums”, por isso dei pulinhos de alegria ao ler nessa matéria que a criança precisa de UM DOS PAIS. Sou mulher, ainda não tenho filhos, mas acho muita presunção da mulher achar que ela e somente ela é indispensável na criação dos filhos. Claro que essas mães dizem que “o pai também é importante”, mas mesmo que às vezes não diretamente, elas sempre relegam o pai à “segunda posição”. Um abraço, Adriana

7. Cássia - 25 June, 2007

Renato, há anos, uma amiga minha se viu às voltas com uma carreira brilhante deslanchando. O marido, sem opções, assumiu as tarefas domésticas. Nós, as verdadeiras amigas dela, demos a maior força, para ela apoiar o marido e ser apoiada por ele. Venceu a lógica e o amor da família. Estão juntos até hoje!

O Heleno, outro amigo, já me contou que a esposa dele já sustentou a família num periodo crítico da vida profissional dele. Deram a volta por cima. Venceu de novo a família!

Mas, via de regra, se o homem não é o bem sucedido da historinha familiar, a pressão é para que o casamento se acabe. Uma pena!
Ainda bem que dos ares europeus sopram novas brisas!
;)

Seu blog continua uma delícia de se ler.
Não resistiu e fez a listinha dos sete?!
Eu anotei, depois esqueci…
Passou!
:)