Mais uma da FIFA June 3, 2007
Postado por tordesilhas em : Esportes , trackback
A decisão da FIFA de proibir jogos internacionais em estádios localizados a mais de 2.500 metros sobre o nível do mar está causando um furor sem precedentes nos países diretamente afetados pela medida. Os protestos são capitaneados pela Bolívia, cujo presidente Evo Morales tomou a questão como um caso de lesa-pátria e, para chamar atenção do mundo, jogou uma pelada improvisada nas alturas da estação de esqui de Chacaltaya, a quase 5.300 metros de altura. Pelo menos quatro cidades bolivianos serão prejudicadas pela decisão: La Paz (3.577 metros), Cochabamba (2.558), Sucr4e (2.790), Oruro (3.702) e Potosi (3.976). Outras cidades sul-americanas serão diretamente afetadas, entre elas Bogotá (Colômbia), Quito (Equador) e Cuzco (Peru). Por isso, a Comunidade Andina de Nações está apoiando os protestos da Bolívia.
A FIFA alega que quer proteger a saúde dos jogadores ao proibir os jogos em grandes altitudes. O Brasil e a Argentina são dois países que sempre protestaram contra os jogos nestas condições. Recentemente o Flamengo jogou uma partida pela Libertados da América em Potosi (Bolívia) depois de conseguir um empate de 2X2 fez um protesto formal a Conmebol dizendo que seus jogadores tinham sofrido de “problemas físicos” depois do jogo. O problema é que se a decisão da FIFA for levada ao pé da letra isto significará, na prática, que, além das eliminatórias da Copa do Mundo, os times locais não poderão jogar em seus estádios sequer os jogos da Libertadores e do Campeonato Sul-americano.
Estranhei muito quando soube desta medida da FIFA, que me pareceu muito arbitrária e sem sentido. Ninguém me convence que não existe alguma armação política por trás disso. Se for para levar a sério esta história de “proteger a saúde dos jogadores”, também seria preciso proibir partidas em vários países africanos, jogadas sob um sol de mais de 40 graus, ou na Europa, no frio intenso do inverno, ou então sob o risco de tempestades de areia, como em países do Oriente Médio. Outra medida importante seria tratar de diminuir a quantidade abusiva de partidas que os jogadores têm de disputar ao longo do ano, algumas vezes passando dos 100 jogos.
A pelada jogada por Evo Morales em Chacaltaya é o inicio de uma campanha internacional para forçar a FIFA a reverter sua decisão. Na próxima reunião anual da Confederação Sul-americana de Futebol, em junho no Paraguai, a decisão será certamente o prato principal. Na semana passada o ministro boliviano da Presidência, Juan Ramón Quintana, esteve na Suíça para fazer lobby junto ao presidente da FIFA com Joseph Blatter. A argumentação do governo boliviano é que a decisão do órgão máximo do futebol mundial seria incoerente com os mandatos da entidade segundo os quais o futebol “é uma prática esportiva universal, não discriminatória e não excludente, além de saudável”. Em diversas entrevistas Juan Quintana lembrou que a decisão afetaria o “principio da universalidade” no momento que se busca reconhecer os direitos indígenas. E arremata: com a decisão 20 milhões de pessoas “teriam negado um direito universal”.
Ou seja, a FIFA se meteu em um imbróglio político que ainda vai esquentar muito nas próximas semanas. O pato está sobrando para o Brasil, país que, segundo grande da imprensa da região, estaria por trás das pressões sobre a FIFA para que a entidade tomasse a controvertida decisão. Tem analista defendendo que Brasil e Argentina teriam pressionado em favor da interdição depois que o Peru ventilou que nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010 as partidas seriam jogadas em Cuzco e não mais em Lima. Isto representaria uma dificuldade adicional a que representa jogar em La Paz, Quito e Bogotá.
Teorias de conspiração à parte, o fato é que todo mundo sabe que a FIFA funciona movida a dinheiro e interesses políticos. Esta história de proteção à saúde dos jogadores não dá para levar a sério. É como diz o ministro boliviano Juan Quintana:”todos os dias milhões de bolivianos praticam seu futebol acima dos 2.500 metros e não se tem noticia de que alguém tenha morrido por isto”. Vamos ver como a FIFA vai sair desta confusão.

Comments»
Ótimo artigo.
Eu também achei a notícia bem estranha. Embora pareça lógica, é incrivelmente arbitrária.
Renato, o que estranho é a Fifa ter demorado tanto para tomar a “atitude contra a altitude” - DEPOIS DE TANTAS ELIMINATÓRIAS E COMPETIÇÕES - acabou ficando suspeito.
Mas é inegável que jogar nesta altura é uma espécie de ‘doping’ - os jogadores do time local têm uma vantagem muito grande sobre o adversário. Basta comparar os resultados. A Bolívia ganhou algumas vezes do Brasil, mas depois acabou levando goleadas homéricas nos jogos de volta. É desumano botar alguém pra correr em ar rarefeito. Sempre alguém vai ter que correr pro balão de oxigênio. A bola tem um tempo diferente. Enfim, acaba virando outro esporte, não futebol… E a proibição é só pra partidas internacionais. Os campeonatos internos podem continuar sendo feitos sem nenhum problema.
Acho que a medida pode até parecer lógica, mas nao esconde a arbitrariedade. Primeiro simplesmente nao confio neste interesse repentino da FIFA pela “saúde” dos jogadores. Como diz o Serbao, a reclamacao contra jogar nas alturas é antiga, principalmente por parte do Brasil e Argentina. De repente, e na encolha, a FIFA muda as regras do jogo.
De qualquer jeito, a medida é arbitrária, sim, porque vai prejudicar especificamente a países tem uma formacao geográfica específica. Vai ver que depois de morar mais de 5 anos no Peru acabo me solidarizando, mas o fato concreto é que os jogadores sao professionais muito bem pagos e condicionados fisicamente. Podem sofrer para jogar na altura, mas isto é parte do trabalho deles. Os times e seleções têm de lidar com esta realidade da melhor maneira possível e nao tirando o sofá da sala.
Aliás, por que 2.500 metros e nao 1.800, 2.250 ou 3.000? Quem já viajou para regioes altas sabem que há pouca diferenca entre estas altitudes. 2.500 metros foi realmente um número mágico para limar as cidades mais “complicadas” da regiao andina dos jogos internacionais.
Enfim, vamos ver no que isto vai dar.
o que eu queria ver era um jogo inteiro da Bolívia com o Evo Morales jogando de armador.
Na minha opinião, o número mágico é 2.500 porque a Cidade do México está situada em média a 2.250 metros acima do nível do mar e esta a FIFA não limaria.
Agora, sacumé, a Bolívia…