jump to navigation

Novelão venezuelano May 24, 2007

Postado por tordesilhas em : Política , trackback

Venezuela372.jpgO que aconteceria se o governo resolvesse não renovar a licença de funcionamento da TV Globo e a “Vênus Platinada” tivesse de sair do ar permanentemente quase que de uma hora para a outra? Sem  Jornal Nacional, Fantástico, novelão das Oito, minisséries, Esporte Espetacular etc e tal. É mais ou menos isso que vai acontecer na Venezuela a partir do dia 27, quando espira a licença de funcionamento da RCTV, a principal rede de televisão venezuelana, com 53 anos de existência e índices médios de ibope que superam os 40%.

A RCTV, como a sua homóloga Globo, é claramente identificada com as elites que dominaram a Venezuela por décadas. Foi uma das quatro redes que apoiaram abertamente o golpe de Estado que em 2002 tentou tirar Hugo Chavez do poder a força. Em um episódio muito parecido com momentos históricos similares no Brasil, elas chegaram a tentar ignorar as massas que foram para as ruas defendendo o presidente.

Esta postura crítica ao governo (que chega a o ponto de manipular as notícias, segundo seus detratores), aliada aos seus altos índices de ibope, puseram a RCTV na linha de tiro de Hugo Chavez. No processo de conseguir a hegemonia do projeto político ”bolivariano”, era fundamental calar a rede. Tanto é assim que, quando a RCTV sair do ar praticamente não sobrará espaço para crítica ao regime, já que as TVs estatais seguem o modelo típico de países autoritários, com imagens do povo feliz nas ruas e discursos intermináveis do “Grande Líder”, vomitando suas diatribes. Das três redes de TV privada que sobram  apenas uma, a Globovision, mantém ma postura crítica, mas alcança somente 10% do ibope.

Certamente do lado da RCTV não existem santos. É uma rede, de novo como a Globo, claramente identificada com um projeto político e econômico que foi dominante durante grande parte da história da Venezuela. Mas o precedente aberto por Chavez é muito perigoso. Mesmo porque sua decisão não tem nada que ver com um movimento para “democratizar” a informação e a cultura, ou algo pelo estilo. Muito pelo contrário, o que ele quer é a supremacia e o controle sobre uma parcela significante do imaginário coletivo venezuelano. Tudo para viabilizar, no longo prazo, seu projeto bolivariano. Nada diferente do que almeja qualquer ditadura digna do nome.

E o pior é que a medida de Chavez é defendida por muitos intelectuais, como Ignacio Ramonet, o diretor francês do Le Monde Diplomatique, e Tariq Ali, o famoso ativista político britânico. Se bem que deles não se poderia esperar uma postura muito diferente. Em entrevista ao The Guardian, Tariq Ali defendeu a decisão de Chaves porque a RCTV é um canal que estava abertamente defendendo a queda de um “governo eleito democraticamente”. Pausa para o vômito.

O interessante é que uma boa parte dos venezuelanos está se lamentando, na verdade, de que a partir de agora vão perder as novelas produzidas pela RCTV, exportadas para todo o continente latino-americano. A Fundação Teves, que vai substituir a rede prestes a ser fechada, promete seguir produzindo suas próprias novelas, com um “conteúdo cultural” apropriado aos novos tempos bolivarianos. Ou seja, em vez de “Mi Prima Célia”, dramalhão que estreou com grande sucesso há duas semanas, deverá entrar algo como “Mi papá Hugo”.

Comments»

1. Marcus - 23 May, 2007

O que eu acho pior nesse episódio é que a não-renovação da concessão é um ato puramente discricionário do presidente da república. Ele não precisa dar nenhuma justificativa, tanto que Chávez e seus ministros vêm tentando minimizar o caráter político da medida.

Se o governo pedisse a abertura um inquérito contra a emissora após a derrota do golpe de estado, ficaria algo mais legítimo. Seria uma decisão fundamentada e juridicamente aceitável, pois eles tiveram sim participação em atos ilegais. Do jeito que está, basta o presidente não gostar de uma emissora para não renovar sua concessão.

Chávez deixa claro que seu modelo é a Cuba castrista. Até agora o dinheiro do petróleo tem bancado seus programas e seu total desprezo pelo capital estrangeiro. Mas eu desconfio que essa conta não fecha.

2. maray - 23 May, 2007

Novela cultural é a pior praga que já vi! Desde Mao. Ou desde as parábolas da bíblia. Esse negócio de “moral da história” ou “conteúdo didático” na cultura já sabemos onde chega.
E estou com esse Chavez até as tampas. Já não me bastava o Lula aqui e o Fidel lá!!
Desculpa o desabafo, mas está frio pra caramba, chove a beça e o salário, ó….:)

3. Mauricio Santoro - 23 May, 2007

A liberdade é sempre a liberdade de quem pensa diferente de nós, já dizia Rosa Luxemburgo. O ato de Chávez não trará nada de bom e não me refiro somente à Venezuela. Seu gesto dificulta o debate sobre a importância de TVs públicas no Brasil, por exemplo.

No domingo uma série de jornais latino-americanos publicaram especiais criticando “a liderança de Chávez no continente”. Os ataques bastante duros foram preparados pelo Grupo Diários de América, que reúne empresas de comunicação da região. Diria que é um movimento sindical: um membro de sua categoria foi atingido e elas agoras querem revidar.

Abraços