Crônica de um massacre sem fim April 25, 2007
Postado por tordesilhas em : Geral , 7comentários
O jornal colombiano El Tiempo, pertencente à família do vice-presidente da república Francisco Santos, publicou ontem uma reportagem especial de várias páginas que está estremecendo o país. Trata do processo de busca dos desaparecidos no conflito interno que há mais 40 anos opõe narcotraficantes, guerrilheiros, paramilitares e forças armadas. Os números variam entre 10 mil e 30 mil pessoas, a maioria pobres e moradores das zonas rurais, portanto distantes da relativamente segura Bogotá. As histórias levantadas pela equipe de repórteres do jornal, que esquadrinharam praticamente todo o país, são arrepiantes, inacreditáveis. Deixa no chinelo o que aconteceu nos Bálcãs e só tem paralelo nos massacres sistemáticos perpetrados por grupos como Khmer Vermelho ou pelas tropas de assassinos da SS que acompanhavam o exército alemão e aplicavam imediatamente a “solução final”. Os depoimentos são tocantes e muitos realmente surpreendentes, como a revelação de que grupos de paramilitares mantinham “escolas de assassinos” nas quais seus membros aprendiam a esquartejar suas vítimas treinando in loco em campesinos que eram seqüestrados com o único propósito de servirem de cobaias nas “aulas práticas”. Eram esquartejados vivos, peça a peça, como uma forma de fazer com que o algoz se acostumasse com o sofrimento e a morte. Parece absurdo? Pois é, e isso acontece logo ali, na Colômbia, no meio da América do Sul.
Um conflito esquecido
O problema é que o conflito colombiano virou uma espécie de “emergência esquecida”, apesar de a Colômbia deter o triste – e pouco conhecido - recorde de ser o país do hemisfério ocidental com o maior número de “deslocados internos”, como são chamados aqueles obrigados a deixar as regiões onde viviam originalmente por diversas razões, mas que não chegam a cruzar a fronteira com outro país. São entre dois e três milhões de pessoas, aproximadamente 5% da população total, que vivem em uma espécie de limbo, sem casas, sem direitos, sem futuro.
Os deslocamentos geralmente são forçados, já que a população civil é usada como bucha de canhão pelas partes em conflito. Vários dos depoimentos recolhidos pelo El Tiempo mostram como os paramilitares usavam o assassinato brutal de civis como arma para obrigar a toda a família a abandonar suas casas, terra etc. imediatamente e deixando tudo para trás. Depois estes grupos manipulavam os papéis e se apoderavam das propriedades.
A verdade vem à tona
Os repórteres entrevistaram antropólogos e sociólogos para tentar entender o que motiva tal nível de brutalidade contra a população civil desprotegida. Uma pergunta sem uma resposta clara, como vários deles admitiram. Os paramilitares têm especial gosto por esquartejar os corpos de suas vitimas. Existe uma razão psicológica, porque isto infunde um terror sem limites, e prática, porque facilita na hora de enterrar os corpos nas milhares de fossas clandestinas espalhadas pelo país. Encontrar os corpos nestas condições é virtualmente impossível. Por isso até agora apenas foram localizados 533 e só 13 foram totalmente identificados pelo DNA e 173 pelas roupas que vestiam. Os parentes vagam de uma fossa clandestina para outra tentando achar uma pista de seus maridos, pais, esposas, filhos e filhas assassinados.
Com o plano de desmobilização dos paramilitares, vários deles estão recorrendo ao processo de “arrependimento premiado”, no qual vêem suas penas reduzidas se denunciam companheiros ativos ou apontam os lugares onde estão os corpos das vítimas. A conseqüência é que agora se sabe cada vez com mais detalhes a extensão e profundidade da cultura da morte imposta pelos grupos armados. Também aparecem histórias loucas como a dos chefes paramilitares que antes de depor suas armas mandaram construir criadouros de peixe em cima das fossas onde estavam enterrados os mortos esquartejados, para fazer desaparecer com qualquer evidencia física dos assassinatos.
Pouco deve mudar
A reportagem de El Tiempo representa um momento histórico porque foi a primeira vez que um veículo tão importante foi tão fundo em contar as atrocidades cometidas pelos paramilitares. Muita gente espera que também tenha servido para tirar a população de Bogotá, sobretudo as classes média e alta, da sua letargia e “sono eterno” com relação ao que passa no resto do país. El Tiempo perguntou à antropóloga María Victoria Uribe, uma das principais investigadoras sobre a violência na Colômbia, se o achado dos corpos ajudaria a mudar alguma coisa. Sua resposta:
“Nada distinto a dar um certo sossego às famílias das vítimas. A sociedade bogotana está pouco se lixando se encontram 15 cadáveres em Sucre… Bogotá é uma ilha. Os problemas de Bogotá não têm nada que ver com o país rural. Eu garantiria que em 20 anos seguiremos vendo esquartejamentos se não nos atrevemos a socializar o que passou”.
E o pior é que o fenômeno do paramilitarismo já está começando a deitar raízes no Rio de Janeiro, como uma solução desesperada contra a violência produzida pelos traficantes. Se a experiência da Colômbia é um bom indicador do que pode acontecer quando os paramilitares tomam o poder de fato de áreas inteiras, eu diria que o futuro do Rio de Janeiro é mais do que sombrio.
Veja a reportagem especial do jornal El Tiempo aqui.
Neste link é possível ver uma animação feita pelo jornal El Tiempo que mostra as técnicas de assassinato e ocultamento de cadáveres usadas pelos paramilitares. De perder o sono.
Há um tempo eu tinha publicado um texto sobre o fenômeno dos paramilitares na Colômbia e suas relações mais do que espúrias com o poder político. É só dar uma olhada aqui.
