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Chávin de Huántar, 10 anos depois April 23, 2007

Postado por tordesilhas em : Política , trackback

Semana passada foi lançado aqui em Lima um livro interessantíssimo que muito dificilmente chegará no Brasil ou outros países. Escrito pelo jornalista Umberto Jara, “Secretos del Túnel” prende a atenção do leitor para a narração, em um impecável estilo jornalístico, dos detalhes conhecidos ou secretos da operação “Chavín de Huántar”, que no dia 22 de abril de 1997 libertou os 72 reféns mantidos há 126 dias em cativeiro na casa do embaixador do Japão, em Lima, por 14 guerrilheiros do Movimento Revolucionário Tupac Amaru (RMTA). A operação, que envolveu 142 comandos do exército e marinha peruanos, é considerada como a mais bem sucedida do tipo até hoje. Deixou como saldo um refém e dois soldados mortos, além de todos os 14 guerrilheiros. Eles foram mortos “durante a ação” e por isso sempre houve suspeitas de que na verdade alguns deles foram executados depois de ter se entregado. Umberto Jara corrobora estas suspeitas e revela que, junto com os soldados também entrou na casa uma espécie de pelotão da morte composto por agentes secretos ligados a Vladimiro Montesinos, eminência parda do presidente Alberto Fujimori, com a missão específica de não deixar sobreviventes entre os terrorristas. Esta semana se comemora os 10 anos da operação e o livro de Umberto Jara está botando mais lenha na fogueira deste tema que ainda não cicatriza totalmente.

As guerrilhas
O MRTA e o Sendero Luminoso empreenderam quase ao mesmo tempo uma guerra contra o Estado Peruano. O primeiro tinha um enfoque mais urbano, enquanto o segundo atuava mais nas zonas rurais. Ambos usavam práticas extremamente violentas, mas o Sendero foi quem teve mais alcance, durou mais tempo e matou mais gente inocente.

No caso específico do MRTA, a prática no início foi a de roubar bancos para se capitalizar. Logo passaram para a extorsão e o seqüestro de empresários e membros do governo. No fim dos anos 80, quase toda a cúpula do grupo foi presa e suas ações passaram a se concentrar em cidades do interior do país, principalmente na região amazônica.

Ali, além de cobrar “imposto revolucionários” dos comerciantes e autoridades locais, passaram em algumas cidades a impor uma moral carola, ameaçando e em vários casos assassinando a prostitutas e homossexuais.

Em 1996, o grupo já era considerado uma carta fora do baralho. Apenas um de seus líderes históricos, Néstor Cerpa Cartolini, seguia solto.

A cúpula do Sendero Luminoso também havia sido presa. O país começava a voltar a normalidade, passando a botar um olho mais atento às crescentes denúncias de corrupção contra Fujimori e Montesinos.

Sem mencionar os casos cada vez mais freqüentes de desrespeito aos direitos humanos por parte das forças armadas e da polícia, na luta contra o terrorismo.

O ataque surpresa
Por isso mesmo o ataque do MRTA à residência do embaixador japonês no dia 17 de dezembro de 1996 pegou o país de surpresa. 14 guerrilheiros, liderados por Néstor Cerpa, invadiram o casarão onde acontecia uma recepção em homenagem ao aniversário do Imperador do Japão.

A ação, milimetricamente planejada, conseguiu reter a algumas das maiores autoridades do país, incluindo ministros, generais, congressistas, além de empresários, artistas, jornalistas, religiosos etc. Ou seja, grande parte do establishment peruano. Na mesma noite todas as mulheres, crianças, idosos e pessoas doentes foram liberadas.

Mas ainda assim sobraram 381 pessoas vivendo abarrotadas e sem a menor condição de higiene trancadas dentro da residência. Depois de uma semana, os guerrilheiros foram convencidos a soltar mais reféns, até sobrar 106, número que foi se reduzindo até chegar aos 74 que ficaram retidos um total de 126 dias.

Desde o início o governo de Fujimori deixou claro que não iria negociar com os guerrilheiros. Enquanto as negociações se arrastavam, o governo ia preparando a ação de resgate.

Desde as casas vizinhas à residência começaram a ser construídos túneis que levariam os comandos por baixo da terra até pontos estratégicos embaixo da residência. Mineiros das minas do Cerro del Pasco foram trazidos especialmente para construir os túneis.

Esquadrão da morte
Às 3:23 da tarde do dia 22 de abril de 1997, uma forte explosão sacudiu a residência do embaixador japonês.

Imediatamente dezenas de soldados fortemente armados, usando suas máscaras ninja, começaram a sair dos buracos ocultos embaixo do piso e do terreno e correram para tomar suas posições e no caminho eliminar os terroristas. A operação não durou nem 10 minutos.

Fujimori e Montesinos rapidamente tomaram para si a glória pela ação bem sucedida. Ficou marcada na memória a imagem do Fujimori subindo as escadas da residência e passando ao lado do corpo sem vida de Néstor Cerpa.

Logo depois da operação, começaram a surgir suspeitas de que havia ocorrido uma ação de extermínio contra os guerrilheiros que haviam se rendido. Várias testemunhas juraram ter visto guerrilheiros vivos depois da operação e com as mãos para o alto.

As autópsias mostraram que alguns deles haviam sido mortos com tiros vindos de cima para baixo, a curta distância e na parte de trás da cabeça, o que caracteriza execução a queima roupa. 

Umberto Jara revela em seu livro que isto aconteceu por uma ordem expressa do governo e que para garantir as execuções foi enviado um grupo secreto, junto com os comandos, composto por agentes do então temido Serviço Nacional de Informação, controlado por Vladimiro Montesinos, para assassinar todos os guerrilheiros que porventura sobrevivessem à ação dos comandos. Assim foi feito.

Ferida aberta
O livro de Umberto Jara procura jogar um pouco de luzes sobre como foi a rotina dos reféns. Para isso entrevista a muitos dos que estiveram retidos todo aquele tempo, além de seus familiares. Também destaca o papel jogado por pessoas chave, como os representantes da Cruz Vermelha e o então monsenhor (e hoje cardeal) Juan Luis Cipriani, que atuaram como intermediários entre os guerrilheiros e o governo.

Cipriani, muito ligado a Fujimori e líder maior dos conservadores católicos, foi fundamental para facilitar informações à inteligência do governo sobre a rotina dos guerrilheiros, já que tinha livre acesso à casa.

A descrição de Jara da rotina que se criou nos 126 dias de cativeiro é impressionante e prende a atenção a da cada página. A relação neurótica e quase simbiótica entre reféns e captores fica exposta de maneira bastante crua.

Depois de 10 anos ainda há muito por esclarecer sobre a operação Chavín de Huántar. A acusação de que houve ordem do governo para liquidar os guerrilheiros é uma das que está sendo usada para pedir a extradição de Fujimori do Chile para o Peru.

Vários personagens ligados ao fujimorismo e ao aprismo (que dão sustentação ao governo de Alan Garcia) se aproveitam das denúncias de abuso contra os direitos humanos para manipular sentimentos patrióticos e acusar as ONGs, partidos de oposição e setores liberais da imprensa de “desrespeitar” a memória dos heróis que salvaram o país das garras do terrorismo e da guerrilha.

Evidentemente pouco se fala no preço que foi pago por isso (cerca de 60 mil mortes em 20 anos de luta interna – a maioria de civis inocentes – perpretadas em sua maioria pelo Sendero Luminoso, mas com uma alta participação das forças armadas).

O livro Secretos do Túnel pode ser comprado no site da editora, aqui.

Mais sobre a operação Chavín de Huántar aqui.

Sobre o MRTA, aqui.

Comments»

1. Serbão Buñuel - 26 April, 2007

rapaz, o fato dos reféns ficarem um tempão amontoados me remete ao “Anjo Exterminador”, do Buñuel.
mas não tenho opinião formada em relação ao contra-ataque do governo Fujimori; era uma guerra. E o Sendero era cruel.