Jogo perigoso March 21, 2007
Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentáriosQuando eu era moleque não cheguei a participar de muitos “jogos perigosos”, do tipo saltar de uma ponte de 20 metros sobre um rio, ou coisa assim. A molecada era mais tranquila. Claro, tive minhas aventuras, como mergulhar em uma lagoa mais ou menos perto da minha casa usada para treinamento pelo exército e cujo acesso era proibido. A lagoa era um risco e volta e meio havia acidentes sérios, incluindo afogamentos de crianças. Na outra vez minha mãe me encontrou nadando com os amigos em uma lagoa de pura lama que estava infestada por caramujos negros, desses que transmitem a esquistossomose. Que eu saiba, não me contaminei. Mas levei uma bela surra em compensação. Nada disso se compara à brincadeira que virou moda entre crianças e adolescentes na França, outros países da Europa e Estados Unidos. É o tal do “Jogo do Lenço”, no qual se provoca um enforcamento momentâneo que deixa a pessoa experimentando alucinações causadas pela falta de oxigenação e de irrigação sangüínea no cérebro.
Na França a Associação de Pais de Crianças Acidentadas por Estrangulamento (Apeas, na sigla em francês) lançou uma campanha para conscientizar crianças e adolescentes, pais e professores sobre os riscos da brincadeira aparentemente inocente. O jogo está tão diseminado que até crianças de 6 anos já o praticam desde o maternal, quando é chamado “jogo do tomate” (se prende a respiração para ver quem fica com o rosto mais vermelho). O passo seguinte é usar cintos, lenços, cordas ou as mãos para provocar a asfixia. Muitos jovens tentam o jogo sozinhos e quando começam a perder a consciência não são capazes de parar a asfixia e morrem. Todos os anos umas 10 crianças e adolescentes morrem por causa do jogo na França.
A Apeas tem um site sobre a campanha onde se pode obter mais informações. Também tem um vídeo no qual aparece o rosto de 25 crianças e adolescentes que morreram brincando de jogo do lenço. O mais chocante é que são absolutamente normais e em todas as fotos estão sorrindo. Imagino a dor para os pais e parentes saber a forma estúpida e gratuita como morreram. Não sei se no Brasil este jogo já é conhecido, mas não duvido nada que pelos canais virtuais da internet já deve ter gente até compartilhando formas e truques para fazer o “jogo do lenço” sem morrer.
Testemunho emocionante
Um depoimento que li (e não consegui ler outros porque fiquei emocionado) no site da Apeas foi de Catherine, mãe de Gaspar, de 8 anos, que morreu no dia 5 de junho de 2005. Ela começa dizendo que já tinha ouvido falar do tal “jogo do lenço” mas que nunca havia prestado muita atenção porque achava que era coisa de adolescentes “um pouco perturbados” e nada tinha a ver com seus filhos, todos normais. Ela segue descrevendo como Gaspar era uma criança adorável, amada por todos, brincalhona, gentil, radiante, curioso, sensível, ligado na natureza, poesia, gibis etc. Ou seja, uma criança normal, o que parece se corroborado pelas fotos do menino.
Ela descreve como uma noite estava lendo uma história de dormir para a irmã menor de Gaspar quando ele chegou e lhe perguntou se iria ler um livro para ele também. Ela pediu que ele esperasse um pouco e no intervalo de 10 minutos que se seguiu seu irmão mais velho o encontrou balançando no ar a poucos centímetros do solo. Estava morto por estrangulação. Parece que ele já conhecia o “jodo do lenço”, porque a mãe descobriu depois, por um de seus amiguinhos, que eles já haviam tentado a brincadeira antes, mas não tinham sido “bem sucedidos”.
Ao lado do corpo sem vida de Gaspar foi encontrado um livro infantil aberto em uma passagem que fazia referência a uma planta que era enforcada até sufocar. Sua mãe acredita que isto o estimulou a tentar a brincadeira de novo. Ele pegou um cinto, amarrou no alto de uma estante, subiu num tamborete, botou a cabeça no laço para brincar, caiu do tamborete em que se equilibrava e foi encontrado pendurado pelo irmão.
A mãe termina o texto dizendo que espera que a história sirva de alerta para outros pais, para que não pensem que o “jogo do lenço” é apenas para “adolescentes problemáticos”. Que se o filho dela morreu, qualquer criança corre o risco.
Como ela diz: Falamos de tudo com nossas crianças. Sobre os riscos dos desconhecidos na rua, do tabaco, álcool, pedofilia, drogas, de se afogar, mas certamente não muito freqüentemente dos jogos do lenço. Este silêncio deve ser quebrado porque mesmo que o número de vítimas (na França) não chegue a 10 por ano, é ainda demasiado. Mal controlamos a relação de nossas crianças com os universos fantásticos, sua capacidade de se identificar com heróis, sua falta de consciência frente os riscos mortais. Estas gerações foram criadas no conceito de “que me sobram ainda 3, 6 ou 10 vidas”. Uma maior vigilância se impõe a nós, pais, para guiá-los nos meandros do que é real e virtual. Nós já sabíamos disso. A história de Gaspar nos mostra isto de novo.
O testemunho completo está aqui..
Leia mais sobre o “jogo do lenço” aqui.
Abaixo o vídeo da Apeas.
jeu du foulard
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