Henry Sobel March 31, 2007
Postado por tordesilhas em : Brasil , 15comentários
Deixei o comentário abaixo sobre o caso Henry Sobel no Síndrome de Estocolmo, e estou reproduzindo-o abaixo para deixar registrado o que penso sobre o tema.
O que me deixa puto mesmo é como certos setores da mídia estão aproveitando este fato para tentar destruir (ou “desconstruir”) a reputação de Henry Sobel. Acho do fundo do coração que qualquer que tenha sido a motivação para ele furtar as tais gravatas (e eu particularmente acredito na tese de algum problema psicológico/neurológico), isso é insignificante perto do que ele fez na sua vida em defesa do diálogo entre religiões e dos direitos humanos, sobretudo nos anos mais negros da ditadura militar.
Quando o jornalista Vladimir Herzog morreu na prisão, “por suicídio” segundo os milicos que o custodiavam, ele por ser judeu teria, em tese, segundo a lei judia, de ser enterrado fora dos muros do cemitério. Em uma atitude extremamente corajosa e sem precedentes, Henry Sobel decidiu enterrá-lo em uma área nobre do cemitério desafiando abertamente não apenas parte da comunidade judia como principalmente a ditadura militar, que defendia a tese do “suicídio”.
Uma semana depois, Henry Sobel, o pastor James Wright e o Cardeal Paulo Arns celebraram juntos a cerimônia ecumênica de 7 Dias da morte de Herzog na Catedral da Sé, em outro ato de desafio aberto aos militares.
Foram eventos que ajudaram a botar a pá de cal na Ditadura. Ou seja, honestamente é possível comparar a trajetória de toda uma vida com eventos bisonhos como este das gravatas?
E o pior é que já tivemos de ouvir amigos nossos dizendo barbaridades do tipo: “eu sempre desconfiei desse judeuzinho arrogante que se recusava a aprender a falar português corretamente…”. Fuck off… Fuck off…
Perdão pelo uso do palavrão, mas é que realmente fico indignado quando a mídia arma o seu circo romano e muita gente boa, como estes amigos, vai atrás.
Enfim, espero que seja lá o que esteja passando com Henry Sobel seja superado e que a sua biografia registre este fato como uma dessas bisonhices inexplicáveis que todos os seres humanos cometemos de vez em quando. Tenho confiança de que não será o suficiente para destruir sua reputação e a memória dos momentos históricos em que ele participou como protagonista corajoso e visionário.
UPDATE: Quase 7 mil pessoas já aderiam até este momento ao abaixo-assinado virtual de solidariedade a Henry Sobel. Está aqui.
Emoções do futebol March 29, 2007
Postado por tordesilhas em : Geral , 6comentáriosO que é o futebol. E o que é um craque como o Zico. Não apenas pelo excelente jogador que foi, mas pelo ser humano que é. Está rolando no YouTube (só poderia ser) um vídeo feito em 1980 no qual está o comediante Costinha visitando o estádio da Gávea junto com seu filho Alexandre, então com 10 anos. O garoto queria conhecer o Zico e quando fica frente a frente com o craque começa a tremer de emoção, a chorar e a repetir “Eu vi o Zico! Eu vi o Zico”. Tanto o Galinho de Quintino como o Costinha parece que ficam meio preocupados com a reção inesperada do garoto. É um vídeo realmente emocionante e nos comentários nenhum marmanjo consegue disfarçar a emoção. O próprio Alexandre, hoje com 38 anos e vivendo em Londres, foi lá e deixou o seu depoimento, dizendo como o vídeo o fez se lembrar o pai e que sua esposa e filha também choraram muito vendo aquele moleque se emocionando na frente do craque. Segundo o Globo Esporte o próprio quer reecontrá-lo. O vídeo está aí embaixo.
Jogo perigoso March 21, 2007
Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentáriosQuando eu era moleque não cheguei a participar de muitos “jogos perigosos”, do tipo saltar de uma ponte de 20 metros sobre um rio, ou coisa assim. A molecada era mais tranquila. Claro, tive minhas aventuras, como mergulhar em uma lagoa mais ou menos perto da minha casa usada para treinamento pelo exército e cujo acesso era proibido. A lagoa era um risco e volta e meio havia acidentes sérios, incluindo afogamentos de crianças. Na outra vez minha mãe me encontrou nadando com os amigos em uma lagoa de pura lama que estava infestada por caramujos negros, desses que transmitem a esquistossomose. Que eu saiba, não me contaminei. Mas levei uma bela surra em compensação. Nada disso se compara à brincadeira que virou moda entre crianças e adolescentes na França, outros países da Europa e Estados Unidos. É o tal do “Jogo do Lenço”, no qual se provoca um enforcamento momentâneo que deixa a pessoa experimentando alucinações causadas pela falta de oxigenação e de irrigação sangüínea no cérebro.
Na França a Associação de Pais de Crianças Acidentadas por Estrangulamento (Apeas, na sigla em francês) lançou uma campanha para conscientizar crianças e adolescentes, pais e professores sobre os riscos da brincadeira aparentemente inocente. O jogo está tão diseminado que até crianças de 6 anos já o praticam desde o maternal, quando é chamado “jogo do tomate” (se prende a respiração para ver quem fica com o rosto mais vermelho). O passo seguinte é usar cintos, lenços, cordas ou as mãos para provocar a asfixia. Muitos jovens tentam o jogo sozinhos e quando começam a perder a consciência não são capazes de parar a asfixia e morrem. Todos os anos umas 10 crianças e adolescentes morrem por causa do jogo na França.
A Apeas tem um site sobre a campanha onde se pode obter mais informações. Também tem um vídeo no qual aparece o rosto de 25 crianças e adolescentes que morreram brincando de jogo do lenço. O mais chocante é que são absolutamente normais e em todas as fotos estão sorrindo. Imagino a dor para os pais e parentes saber a forma estúpida e gratuita como morreram. Não sei se no Brasil este jogo já é conhecido, mas não duvido nada que pelos canais virtuais da internet já deve ter gente até compartilhando formas e truques para fazer o “jogo do lenço” sem morrer.
Testemunho emocionante
Um depoimento que li (e não consegui ler outros porque fiquei emocionado) no site da Apeas foi de Catherine, mãe de Gaspar, de 8 anos, que morreu no dia 5 de junho de 2005. Ela começa dizendo que já tinha ouvido falar do tal “jogo do lenço” mas que nunca havia prestado muita atenção porque achava que era coisa de adolescentes “um pouco perturbados” e nada tinha a ver com seus filhos, todos normais. Ela segue descrevendo como Gaspar era uma criança adorável, amada por todos, brincalhona, gentil, radiante, curioso, sensível, ligado na natureza, poesia, gibis etc. Ou seja, uma criança normal, o que parece se corroborado pelas fotos do menino.
Ela descreve como uma noite estava lendo uma história de dormir para a irmã menor de Gaspar quando ele chegou e lhe perguntou se iria ler um livro para ele também. Ela pediu que ele esperasse um pouco e no intervalo de 10 minutos que se seguiu seu irmão mais velho o encontrou balançando no ar a poucos centímetros do solo. Estava morto por estrangulação. Parece que ele já conhecia o “jodo do lenço”, porque a mãe descobriu depois, por um de seus amiguinhos, que eles já haviam tentado a brincadeira antes, mas não tinham sido “bem sucedidos”.
Ao lado do corpo sem vida de Gaspar foi encontrado um livro infantil aberto em uma passagem que fazia referência a uma planta que era enforcada até sufocar. Sua mãe acredita que isto o estimulou a tentar a brincadeira de novo. Ele pegou um cinto, amarrou no alto de uma estante, subiu num tamborete, botou a cabeça no laço para brincar, caiu do tamborete em que se equilibrava e foi encontrado pendurado pelo irmão.
A mãe termina o texto dizendo que espera que a história sirva de alerta para outros pais, para que não pensem que o “jogo do lenço” é apenas para “adolescentes problemáticos”. Que se o filho dela morreu, qualquer criança corre o risco.
Como ela diz: Falamos de tudo com nossas crianças. Sobre os riscos dos desconhecidos na rua, do tabaco, álcool, pedofilia, drogas, de se afogar, mas certamente não muito freqüentemente dos jogos do lenço. Este silêncio deve ser quebrado porque mesmo que o número de vítimas (na França) não chegue a 10 por ano, é ainda demasiado. Mal controlamos a relação de nossas crianças com os universos fantásticos, sua capacidade de se identificar com heróis, sua falta de consciência frente os riscos mortais. Estas gerações foram criadas no conceito de “que me sobram ainda 3, 6 ou 10 vidas”. Uma maior vigilância se impõe a nós, pais, para guiá-los nos meandros do que é real e virtual. Nós já sabíamos disso. A história de Gaspar nos mostra isto de novo.
O testemunho completo está aqui..
Leia mais sobre o “jogo do lenço” aqui.
Abaixo o vídeo da Apeas.
jeu du foulard
Uploaded by marzinp
Baila Comigo March 17, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 4comentáriosChico & Caetano, programa exibido pela Globo em 1986, portanto há mais de 20 anos, foi um dos que eu mais curti na TV até hoje. Eu me lembro que não perdia uma única edição, pela qualidade dos músicos que se apresentavam e pelas duplas musicais às vezes inusitadas que se formavam. Tinha a sensação de que eram apresentações históricas, que não se repetiriam. Para comprovar a minha impressão, me lembro particularmente de quando Maria Bethânia e Rita Lee cantaram juntas “Baila Comigo”. A recordação que eu tinha era de que havia sido um dueto fantástico, apesar de que o tempo havia apagado os detalhes da minha memória. Aí vem o oráculo YouTube e traz um vídeo exatamente dessa apresentação, para me levar em um flash numa viagem 20 anos no passado. Maria Bethânia e Rita Lee no auge das suas carreiras e formas físicas, curtindo juntas a música, meio que enamoradas uma da outra. Enfim, tem de ver para crer. Está o vídeo aí abaixo.
Coca da boa! March 11, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 3comentários
A combinação de música eletrônica com ritmos clássicos, como o tango, já resultou em criações artísticas muito interessantes como o Bajofondo Tango Club e o Gotan Project. No Peru, o mais conhecido representante deste tipo de combinação é Miki Gonzáles, com suas fantásticas misturas de ritmos clássicos andinos e afro-peruanos com a batida eletrônica. Mas recentemente descobri um trabalho simplesmente fascinante feito pelo casal de músicos Mino Mele e Gisela Perez-Ruibal. Eles retomaram clássicos da música tradicional andina e fizeram uma releitura em ritmo de jazz, blues e até rap, mas sem perder nada da essência original das músicas retratadas. O trabalho resultante, fruto de mais de quatro anos de investigação, criação e recriação está plasmado no CD “Coca Kintucha” (algo como “um pouquinho de coca” – a folha, é claro), com suas 10 brilhantes faixas. Para dar um gostinho do CD deixei abaixo a quinta faixa, justamente a que dá título ao disco, que começa com uma batida bem jazzista para logo incorporar o elemento tradicional andino com sua letra tradicional sendo cantada parte em quéchua, parte em espanhol, pela cantora Sila Illanes. Aproveitem!
Dicas de leitura March 7, 2007
Postado por tordesilhas em : Cultura , 3comentáriosEstive no Brasil por duas semanas e descuidei da manutenção do Tordesilhas. Mas agora que estou de volta tentarei tomar vergonha na cara e cuidar mais do blog. Para marcar o retorno queria dar uma dica de leitura. Na verdade, três dicas. Na viagem comprei três livros que estou lendo agora ao mesmo tempo: O Volume 1 da “Antologia do Pasquim”, “Rondon”, de Todd A. Diacon, e “Morte”, de Neil Gaiman e ilustrado por uma equipe de craques incluindo o brilhante Dave McKean.
A Antologia do Pasquim quase nem precisa ser apresentada. Cobre uma seleção do melhor que foi publicado entre os anos de 1969 a 1971 em 351 páginas. Tem textos e entrevistas de gente como Jaguar, Tarso de Castro, Henfil, Paulo Francis, Ruben Fonseca, Ibrahim Sued, Fernanda Montenegro, Marques Rabelo, Dorival Caymmi, Otto Maria Carpaux, Flávio Rangel e muitos outros e outras… Ufa! A nata da inteligentsia brasileira da época. Tudo isso cozinhado e ilustrado com os Fradinhos do Henfil, o ratinho sem-verginha Sigmund do Jaguar e cartoons do Miguel Paiva, Millor Fernandes e Ziraldo. Uma publicação do tipo que não pode faltar na estante, ou na mesa de centro, de ninguém. A Antologia foi lançada pela Editora Desiderata.
O segundo livro, sobre o Marechal Rondon, alimenta uma curiosidade antiga que tenho sobre este personagem que é quase onipresente durante uma fase da vida escolar, aí pela 5a. ou 6a. séries, e depois meio que desaparece. A imagem que ficou foi a de um velho magrinho e meio maluquete que se internava pela floresta amazônica para “pacificar” os índios e implantar telégrafos. É claro que Rondon foi muito mais do que isso para o bem e para o mal. Como mostra Todd Diacon, em seu livro muito bem escrito e documentado, Rondon tinha fixado em sua mente o ideal positivista de implantar um projeto de nação a partir da inclusão de todos os elementos da nacionalidade, especialmente os mais isolados, como os indígenas, e do uso dos instrumentos da modernidade, como o telégrafo. O livro, lançado pela Companhia das Letras, foi publicado originalmente nos Estados Unidos com o título “Stringing Together a Nation: Candido Mariano da Silva Rondon and the Construction of a Modern Brazil, 1906-193”. Leitura recomendadíssima.
Finalmente, o mais novo lançamento no Brasil de Neil Gaiman, o mestre inglês das histórias em quadrinhos. É a Graphic Novel (ainda se usa este termo?) “Morte”, escrita pelo autor da extraordinária série Sandman, que virou de cabeça para baixo o mundo das histórias em quadrinhos para adultos, quando foi lançada nos Estados Unidos em 1988. Nas 200 páginas do gibizão de luxo, o mestre Gaiman traz três histórias completas com a Morte como personagem principal. Uma explicação para os neófitos: a Morte neste caso assume a forma corpórea de uma bela jovem com look dark e uma personalidade extremamente simpática. Afinal, como ela diz em um dos diálogos, ela gosta de todo mundo, “de todo mundo”.
A Morte é um dos membros da família dos Sete Perpétuos, que na mitologia de Neil Gaiman, acompanham a humanidade desde sempre. Além dela, fazem parte da família: Delírio, Desejo, Destino, Desespero, Destruição e o Sonho (ou Sandman, cuja série própria composta por 75 números é imperdível). O interessante é que originalmente a Morte era um personagem secundário nas histórias de Sandman, mas o seu visual e a sua personalidade cool eram tão fortes que a tornaram um enorme sucesso entre os fãs da sério. Ao ponto em que Nel Gaiman teve de escrever alguns trabalhos dedicados exclusivamente a ela. O livro traz algumas destas histórias. As ilustrações do livro Morte são um capítulo a parte, pela sua altíssima qualidade (para mim, verdadeiras obras de arte). Enfim, vale cada centavo gasto para comprá-lo.
