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A política como ela é September 29, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentários

Para ser eleito, o candidato deve “procurar que estas eleições resultem um grande espetáculo popular, com a maior visibilidade, exposição e uso de meios que esteja ao seu alcance e, se for possível, que se revele tudo de infamante, ilegal, desonesto ou corrupto que exista na personalidade ou comportamento do oponente”. Esta não é a transcrição de uma conversa entre os membros de um comitê político qualquer no Brasil. É um trecho de  “Commentariolum Petitionis”, traduzido como “Manual do Candidato às Eleições”, escrito em 64 a.C. (portanto há mais de dois mil anos) presumivelmente por Quinto Cícero para orientar seu irmão Marco Tulio Cícero, que estava disputando as eleições para Cônsul de Roma, o mais alto cargo romano. Serão nossos candidatos leitores de Cícero?

Foi uma nota publicada no UOL que me fez lembrar deste maravilhoso texto do qual tinha ouvido falar há muito tempo mas havia esquecido. Trata-se de um pequeno tratado sobre a arte de fazer política que permanece incrivelmente atual. Aliás, se tomamos como referência tudo o que vem passando especialmente nestas eleições parece que o Manual foi escrito no ano passado. É só trocar nomes de lugares, pessoas e cargos, atualizar um pouco a linguagem e, pronto, aperece um retrato claríssimo do modus operandi e idiossincrasias de nossos políticos.

Outros conselhos de Quinto Cícero (eu até fazer uns ocmentários, mas acho que os textos falam por si mesmos):

Sobre os colaboradores
“Assegure-se de que todos os que estejam em dívida contigo tenham clareza de que esta é a hora de devolver seus favores e que os que tenham interesse em te fazer um favor compreendam que não há melhor ocasião para ganhar o seu agradecimiento.”

“A campanha eleitoral demanda dois tipos de atividades: é preciso ganhar primeiro o apoio dos amigos e logo a boa vontade do resto da gente. A colaboração dos amigos é cimentada em fanores mútuos, no trato prolongado e constante e na afabilidade e cortesia.”

“É entre os que sentem que têm uma obrigação contigo devido a algum favor recebido anteriormente, entre os que esperam ganhar algo contigo e também entre os que dão espontaneamente sua ajuda de onde virão os colaboradores para a sua campanha eleitoral e há que saber tirar o máximo proveito dessas pessoas.”

“Seja qual for a origem dos seus seguidores, determine logo o valor particular de cada um e a sua utilidade para saber o quanto antes o grau de atenção que merecem e a ajuda que se pode obter deles.”

Sobre a campanha eleitoral
“Uma campanha eleitoral tem ao menos a vantagem de que permite dizer ou fazer coisas inconcebíveis em uma situação normal e de que, inclusive, é bem visto se misturar com indivíduos cujo trato seria impróprio ou vergonhoso em outra situação.”

“…como se comportar frente às massas. Isto precisa de uma boa memória para os nomes, de amabilidade, de presença pública, de trato liberal, de publicidade correta e de uma boa imagem política.O primeiro requer que você deixe claro que é capaz de conhecer a todos e cada um por seu nome e sobrenome… também necessita urgentemente aprender a lisonjear, uma coisa que se bem pode ser desprezível em outros momentos, resulta essencial para uma campanha política…”

“Deve evitar que exista alguém que diga que não recebeu – de modo claro e convincente – a mensagem da sua candidatura.”

Sobre as promessas
“Se você aceita o que te pedem, deve dar a impressão de que se empenhará em cumprir a promessa com toda sua força… quando tiver de negar algo, deve fazê-lo de maneira muito amável, ou melhor ainda, simplesmente não negar.”

“A insatisfação de quem se sente enganado é o menor dos males possíveis, porque se você ao princípio faz uma promessa afasta o motivo de queixa e será difícil que alguém chegue a ficar insatisfeito. Ao contrário, é seguro que ao se negar a prometer algo acabe causando uma reação negativa imediata, porque o número dos que pedem as boas graças de um político é maior do que aqueles que realmente cheguam a usá-las.” Dito em outras palavras é melhor prometer mesmo sabendo que não vai cumprir porque depois ninguém vai se lembrar disso mesmo.

Últimos conselhos
“Todo o esforço da campanha deve dirigir-se a mostrar que você é a esperança do Estado, mas evitando ao máximo falar de política, seja no Senado ou nos comícios.”

“Se você não se descuida, se mobiliza suficientemente a sua gente, se partilha bem as responsabilidades entre os seus próximos mais influentes, se ameaça os seus oponentes com a possibilidade de investigá-los, se mete medo nos líderes políticos e se espanta os que compram votos poderá conseguir que as eleições sejam limpas ou ao menos que a corrupção não afete o resultado.”

Uma tradução para o espanhol do Manual do Candidato às Eleições pode baixado daqui.

Para quem quiser cobferir o original em latim, é só teclar aqui.