Entrevista com Leleti Khumalo August 12, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , trackback
Leleti Khumalo é dona de um olhar triste, melancólico, reflexivo. Ao menos esta é a primeira impressão quando nos deparamos com esta extraordinária atriz sul-africana que ficou conhecida por sua participação em filmes como Sarafina!, com Whoopy Goldberg, e Hotel Ruanda, com Don Cheadle. Mas esta impressão logo passa quando ela abre seu sorriso franco e conta, com orgulho, a história de sua vida e o prazer de ter feito Yesterday, o filme que retrata o efeito devastador da epidemia de AIDS na vida de uma família pobre da zona rural sul-africana. Ela veio de Joanesburgo para Lima, a convite da Oxfam, para ser apresentar o filme durante o Festival Elcine de Cinema Latino-americano, promovido pela Universidade Católica do Peru. Na entrevista abaixo, ela fala um pouco sobre sua carreira como atriz e o impacto que a epidemia de AIDS está tendo sobre a vida das mulheres pobres da África do Sul.
No (In)confidência Mineira, a Vanessa fala mais sobre o filme.
Fale um pouco da sua história pessoal.
Na África do Sul se você é negro e vive na zona rural é certamente pobre. Venho de uma família pobre, meu pai morreu quando tinha 3 anos. Em casa éramos quatro, dois meninos e duas meninas. Eu era a terceira. Quando meu pai morreu, minha mãe, que era dona de casa, teve de repente de cuidar sozinha da família. Simplesmente não suportou e acabou colapsando. Tornou-se alcoólatra. Então tivemos de encontrar maneiras de sobreviver. Nosso irmão mais velho teve de se responsabilizar pela família. Esse é o tipo de família na qual cresci.
Minha mãe conseguiu um trabalho como doméstica e tinha de se ausentar por um mês. Ficávamos sozinhos em casa. Nesse tipo de situação ou você sobrevive ou se afunda de vez, não tem opção.
A virada foi quando comecei a participar na escola de um grupo de teatro, dança e canto que reunia crianças e adolescentes para tirá-los das ruas. Mbongeni Ngema’s, criador e diretor do musical Sarafina! nos visitou para fazer testes. Fomos escolhidos cinco. Fiz justamente o papel principal da obra, que alguns anos depois foi levada ao cinema por Darrell James Roodt, que dirigiu Yesterday. Hoje em dia todos os atores que passaram junto comigo naquele primeiro teste estão trabalhando na área. Alguns, por exemplo, estão trabalhando na Broadway, fazendo a versão teatral de O Rei Leão.
Sempre volto ao lugar onde vivi, pelo menos três vezes ao ano. Atualmente vivo em Joanesburgo. Tenho uma vida confortável, comparado com a vida que tinha antes e que ainda tem a grande maioria da população negra na África do Sul. Posso dizer que tive muita sorte. Sempre digo que é moralmente incorreto viver se queixando da vida quando há tanta gente que não tem dinheiro para comer, vive em condições de vida inumanas, está na rua, não tem futuro.
Sempre quis ser uma atriz?
Quando era pequena queria ser assistente social, para ajudar as pessoas. Quando fui escolhida no teste para o musical Sarafina! minha mãe ficou preocupada, porque eu era muito jovem, mas ao mesmo tempo estava feliz porque iria ganhar meu próprio dinheiro.
Tive muita sorte ao ser introduzida ao mundo do cinema com o filme Sarafina!. Naquela época não havia escolhido o filme porque transmitia uma mensagem. Foi uma coincidência feliz. Depois disso, decidi que este seria um critério para escolher os meus trabalhos. Ou seja, fazer filmes que dissessem algo para o público. Na maioria das vezes meus trabalhos procuram trazer algo mais além de entreter, como Yesterday
Yesteday fala muito da difícil situação em que vivem particularmente as mulheres pobres na África do Sul e de como a epidemia de AIDS está afetando sobretudo os mais pobres…
Acho que a África do Sul está melhor hoje do que ha 20 anos. Mas os pobres continuam muito pobres e os ricos seguem ficando mais ricos. E os pobres têm poucas chances de cuidar de suas vidas de forma adequada. Se ficam doentes não podem se cuidar.
Yesterday conta a história real do que está passando na África. Darrell James Roodt, o diretor, passou anos estudando o tema. Esteve vivendo com uma família da zona rural da África do Sul para entender o que está passando. Especialmente nas zonas rurais as mulheres vivem em uma situação muito difícil de submissão frente aos homens. Eles pensam que são donos e senhores absolutos de tudo, incluindo as mulheres. Elas respeitam tanto os homens que eles acabam abusando delas e as maltratando. Eles batem nas mulheres porque sabem que elas não podem bater de volta.
Em Yesterday esta situação é mostrada de maneira muito realista. Uma mulher casada não pode nem imaginar em pedir ao marido que use preservativo. É algo que nem passa pela sua cabeça. Seria um desrespeito ao marido. É claro que a comunicação em uma relação é tudo, mas isto simplesmente não existe entre os casais de zonas rurais na África do Sul. 
Isto é uma das causas da disseminação da AIDS em mulheres casadas. As pessoas simplesmente não sabem nada sobre a doença. Tem gente que pensa que pode se contaminar por exemplo abrindo um pacote de batatas fritas.
Neste sentido foi importante, então, que o filme fosse rodado em zulu?
Claro, o filme traz uma história que é muito realista e comum a todas as comunidades, pode ser entendido pelas populações rurais. As pessoas se identificam e podem aprender um pouco mais sobre a doença, como se propaga e como pode se prevenir.
O zulu é uma das 11 línguas oficiais faladas na África do Sul. Antes era comum que as pessoas dessem nomes em inglês para seus filhos, porque as pessoas brancas no conseguiam pronunciar os nomes. O filme mostra bem este costume. Minha personagem, por exemplo, se chama “yesterday”.
Agora a situação está mudando. Estamos revalorizando nossas tradições e voltando a usar os nomes em zulu. Então, quando me falaram que o filme seria rodado totalmente na língua zulu, disse para mim mesma: Graças a Deus! Este é um filme que eu tinha de fazer. Porque as pessoas nas comunidades rurais poderiam entender o que se dizia no filme em sua própria língua, isto poderia ensiná-los algo sobre a doença.
A maioria das mulheres nas zonas rurais da África do Sul não fala o inglês e com filme sendo rodado em zulu elas poderiam se sentir mais representadas e poderiam contar suas histórias a partir de seus pontos de vista. É o primeiro filme deste tipo que foi feito em idioma zulu. E por isso é um projeto que me apaixonou tanto
Em todo caso, acredito que é muito importante para nós, mulheres, lutar pelos nossos direitos. Temos de seguir nesta luta para ter uma relação mais equilibrada com os homens. Não podemos permitir que sejamos abusadas.
Apesar de tudo você não pode imaginar como as mulheres são fortes nas zonas rurais. Vivem sozinhas com seus filhos na maior parte do tempo, já que os maridos estão longe trabalhando e voltam para casa poucas vezes por ano. Elas têm de cuidar de tudo, da sobrevivência diária. As mulheres são muito fortes e o filme mostra isso.
E você acha que a mensagem do filme pode ser entendida fora da África do Sul?
Tenho a impressão de que depois de assistir ao filme você acaba vendo a vida de maneira diferente. Você pensa naquelas pessoas vivendo nas zonas rurais, que estão doentes e sem acesso a remédios, se precisam de água têm de andar grandes distâncias, se necessitam comida precisam trabalhar muito duro… Ou seja, depois de assitir ao filme você acaba vendo a vida com outros olhos. Acho que isso acontece não apenas na África do Sul, mas em outros países também.
Pelo que você fala, deve ter sido difícil filmar Yesterday.
Realmente foi um trabalho difícil, já que o filme todo é muito emocional. Todos estávamos esgotados mentalmente, fisicamente, sentimentalmente quando as filmagens terminaram. Foi desafiante em todos os sentidos, mas não me arrependo de ter feito. Eu estava totalmente preparada para fazer este filme, que tem uma história tão real e que eu conheço tão bem.
O filme também mostra como a educação é importante e a cena final deixa isso claro. É o que dá um pouco de esperança diante de uma situação às vezes tão desesperadora. Na África do Sul mesmo que você tenha acesso à educação já é difícil sobreviver, imagine sem nenhuma educação. Acho que esta é uma situação muito comum em outros países também.
Como está o cinema sul-africano atualmente?
O cinema sul-africano está ficando mais conhecido e a indicação de Yesterday para o Oscar de filme estrangeiro contribuiu bastante, representou uma grande mudança. Abriu novas oportunidades e já há diretores americanos indo filmar na África do Sul. O Oscar ganho por Charlize Theron foi importante, mas não tanto para dizer a verdade, já que ela vive nos Estados Unidos a maior parte do tempo. Ou seja, não teve tanto impacto para o cinema da África do Sul, mas foi importante para o país já que ela é uma atriz sul-africana.
Desde 1994 a situação para os atores negros melhorou bastante. Antes era simplesmente impossível para um negro fazer filmes, por exemplo. Se hoje um ator mal sobrevive na profissão, antes era impossível. Os únicos que eram reconhecidos como atores eram os brancos.
Na África do Sul os atores muitas vezes não ganham o que deveriam ganhar. Algumas vezes trabalho para ser remunerada, outras vezes trabalho não pela remuneração mas sim porque é um projeto que me interessa. Por isto sinto que sou não apenas uma atriz mas também alguém que tem uma história para contar. .
Acho que ser ator tem muito a ver com ser apaixonado. Sou apaixonada por ser atriz. Acho que isto se reflete na maneira como exerço a profissão. Procuro fazer coisas que sirvam para ajudar as outras pessoas, como Yesterday. Estava absolutamente confiante neste projeto. Os produtores ainda tinham medo de que um filme totalmente falado em zulu e tratando de um tema tão difícil como a AIDS fosse ter êxito. Mas eu estava segura disso. E não me enganei.
E seus projetos para o futuro?
Quero investir em produção, em produzir meus próprios filmes. Que contem histórias reais. A África do Sul tem muitas histórias para contar.
Mais sobre Leleti Khumalo, que também é cantora, pode ser lido aqui.

Comments»
não há nada de melancólico na Khumalo. o que vi por este post é que, além de muito inteligente e boa pinta, ela é bem bonita. abraço.
Que bela entrevista, Renato!
Estou organizando um seminário sobre lutas em torno a recursos naturais para ONGs e movimentos sociais da América do Sul e da África. Estamos com a idéia de passar filmes dos dois continentes nas noites do evento, que deve durar uma semana. “Yesterday” certamente entrará na lista!
Abraços
Olá Daniel e Maurício,
Realmente a história de vida de Leleti é muito interessante e sua atuação no filme é impressionante. Acho que as pessoas vão ficar impressionadas com o filme. Boa idéia exibi-lo no seminário.
Um abraço,
Renato
Renato,
Excelente entrevista. Vou ver se encontro o filme para ver por aqui. Achei super legal que o povo zulu esta recuperando as suas tradicoes e espero que o fato do filme ter sido rodado em zulu vai torna-lo mais acessivel a comunidade rural da Africa do Sul.
Abracos,
Regina
BOM O Q TENHO Q FALAR É SOBRE O FILME SARAFINA……..NOSSA UMA OBRA MAGNIFICA Q PUDE TER ACESSO NA FACUL ATRAVÉS DE UM TRABALHO.QUERO PARABENIZA-LA…..E DIZER Q MESMO C/ TODA UMA VIDA VIVIDA DE TRISTEZA ELA SOUBE SUPERAR TD C/ MUITA DEDICAÇÃO E AJUDA DE DEUS PORQ É NELE Q MORA NOSSA FORÇA,,,,,ABRAÇOS…TASSIANNE
hey leleti my name is suzane and I live in America. You are my favorite actress because I am originally from Kenya. I love your movies and I have always wanted to meet you. thanks and bye.