Chuyo na cabeça July 27, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , trackbackO Peru está assistindo a uma repentina valorização do chuyo, o tradicional gorro andino feito a base de fibras de alpaca ou algodão e que, na sua versão mais comum, tem abas laterais para proteger as orelhas do frio. Normalmente são muito coloridos, bem ao gosto das populações andinas e dos turistas que se encantam com esta peça única. Talvez exatamente por isto, o chuyo sempre foi execrado em Lima, tanto pela classe média branca como pelos descendentes dos moradores do interior do país que vieram viver na capital, como algo exótico. Algo só para os turistas gringos, que se encantam com qualquer coisa, ou para os campesinos andinos e suas estranhas vestimentas típicas.
Mas com a globalização as coisas estão começando a mudar. Parece que o chuyo caiu nas graças das coleções de inverno européias e americanas e, tal como a nossa ex “coisa de pobre” sandália hawaiana, virou peça de vestuário vendida pelas grandes cadeias de roupas. Sua redenção final, ao menos para os moradores de Lima, foi a inclusão nas peças de publicidade da Ripley e da Saga Falabela, as duas cadeias de lojas (tipo Mesbla) que dominam o mercado local. O mais engraçado é que a primeira propaganda que eu vi era de um chuyo “australiano”. Na foto, estava na cabeça de um surfista. De repente este foi o caminho que os gênios da publicidade local encontraram para tornar palatável para a classe média limenha esta peça tão inca e, portanto, tão andina.
Como estou por estes dias em Santiago, no Chile, onde faz um frio de 9 graus, trouxe um chuyo que comprei em Cusco para proteger minha cabeça e as orelhas. Este não tem as abas laterais e se parece um pouco com estes gorros popularizadas pelos jogadores de basquete americanos, mas tem o colorido típico dos andes. Além de quebrar um galhão para proteger as orelhas, acabou chamando a atenção e toda hora vinha alguém perguntar onde eu o havia comprado.
De repente virei promotor desta peça peruana e quase pensei em abrir um canal de exportação de chuyos diretamente de Cusco para Santiago. Mas certamente algum chileno empreendedor e com muito mais bala na agulha do que eu já está tratando disso. Depois tenho certeza de que vai ter muito peruano reclamando que os chilenos, para variar, lhes estão “roubando” um produto típico do país e ganhando dinheiro com algo que não lhes pertence.
Vai acabar repetindo um fenômeno que aconteceu há uns cinco anos com o pisco, bebida típica do Peru feita a base de uva e que, tal como a nossa cachaça muito anos antes, era vista pela elite como “bebida de pobre”. De repente foi “descoberta” e virou um símbolo do país, tendo sua qualidade e preço aumentado bastante em consequência. O caso é que os chilenos foram mais rápidos e desde há muito tempo exportam sua própria variedade de pisco (de menor qualidade e que usa um processo de fabricação um pouco diferente) e hoje em dia dominam o mercado mundial. Até tentaram obter o registro da bebida “pisco” como originária do Chile, o que causou uma revolta geral no Peru, gerando ações concretas para valorizar e divulgar o pisco peruano e também tudo quanto é tipo de “patriotada” hipócrita nos dois países.
Vamos ver se agora que o chuyo está sendo mais valorizado em diversas partes do mundo seus produtores andinos também passam a ser reconhecidos e valorizados em seu próprio país. Seria interessante ver os mauricinhos e patricinhas limenhos (chamados de “pitucos” e “pitucas”) usando um chuyo incrementado com tanto orgulho como luzem seus bonés da nike.

Comments»
É mesmo, eu pensava que o pisco era de origem chilena!
Renato, os chuyos mais ou menos estilizados estão na moda aqui em terras canadenses faz uns bons três ou quatro anos. Tenho até foto com um, é realmente muito prático, esquenta as orelhas e é confortável, não tão apertado quanto os gorros normais
Pois é, Leila, tem uma briga braba entre os peruanos e chilenos pela autoria do pisco. Segundo vários estudos a bebida teria sido mesmo criada na regiao de Pisco, no Peru (daí o nome), que é uma regiao produtora de uvas desde os primeiros tempos da Colonia.
Como sempre, Ana, precisa os gringos usarem para que nós aqui, no “Sul Maravilha”, valorizemos.
Oi Renato
Voltei recentemente de uma viagem de 18 dias ao Peru. Notei esta “redescoberta” do chullo. Vale a pena lembrar os outdoors da Inca Kola - creatividad peruana. Engraçado como as coisas mudam.
Fiquei 4 dias em Cusco e 14 dias em Lima. Os últimos dias foram difíceis, já que a Varig não queria nos trazer de volta… No antepenúltimo dia ainda fomos assaltados no Callao, em frente à Fortaleza Real Felipe. Não levaram dinheiro, mas sim nossos passaportes!
Abraços
Nilton
Muito interessante, Renato. Quem sabe a Giselle Bundchen não estrela um comercial de chuyo e conquista de vez a elite limenha?
Ontem dei uma palestra sobre os movimentos indígenas andinos para um grupo de oficiais militares e um dos debatedores foi o diplomata Ademar Seabra, que trabalhava na embaixada em Lima até poucos dias (ele está a caminho de Montevidéu).
Ele ficou de me enviar alguns textos sobre Humala e seu movimento.
Abraços
Poxa, Nilton, que brabeira. Nestes 5 anos que vivo aqui em Lima só fui roubado uma vez e por desatencao minha. Mas ainda assim nao tem como ocmprara a violencia aqui e no Brasil.
Mauricio, eu conheco o Ademar. Gente finíssima!
Um abraco,
Renato