Eleições na Bolívia e no México: a hora da verdade July 2, 2006
Postado por tordesilhas em : Política , 2comentáriosApesar da Copa (e da eliminação do Brasil) a vida continua e a lusitana segue rodando na América Latina. Este domingo foi um dia importante para dois de nossos “hermanos” de língua espanhola. Na Bolívia foram eleitos os membros da Assembléia Constituinte, que têm a missão de “refundar” o país, como é o sonho de Evo Morales. No México, houve eleições presidenciais, cujo resultado pode levar pela primeira vez um candidato de esquerda ao poder.
A Constituinte e a refundação do país
Segundo as pesquisas de boca de urna o MAS (Movimiento Al Socialismo, do presidente Evo Morales) obteve o maior número de cadeiras na Assembléia Constituinte (algo em torno de 125 das 255 que estavam em jogo). Isto significa que o partido será a maior forca, mas não terá o controle como se esperava porque dificilmente chegará a eleger os dois terços necessários para ganhar as votações na Assembléia sem precisar negociar com as bancadas dos outros partidos.
Ao mesmo tempo que escolhiam seus candidatos para a Assembléia, os bolivianos também participaram de um referendo para decidir se estavam ou não a favor da descentralização do país com a autonomia dos departamentos (equivalentes aos nossos estados). Este referendo foi empurrado principalmente pelos departamentos da região chamada de “meia lua”, na região oriental da Bolívia (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija), que questionam o centralismo político e econômico do país e querem liberdade para gerenciar seus imensos recursos naturais. É nesta região onde estão concentradas as reservas de hidrocarbonetos fundamentais para o desenvolvimento econômico do país.
Segundo os resultados projetados pelas pesquisas de boca de urna, os departamentos da “meia lua” votaram majoritariamente pelo sim à descentralização, enquanto que o restante do país se opôs. Em números globais, o Não deverá ganhar, mas o país sairá mais dividido do que nunca. Esta divisão terá eco principalmente na Assembléia Constituinte. Se se confirma que o Mas não conseguirá a maioria de dois terços com a qual sonhava, ficará claro que Evo Morales e seu grupo político terão muito mais dificuldades do que imaginavam para implantar seu projeto de “refundacao” do país. Pode-se prever mais situações de instabilidade política e de uma forte oposição imposta pelos grupos políticos conservadores que controlam a “Meia Lua” boliviana.
Mexicanos indecisos entre continuísmo ou virada à esquerda
Enquanto isso no México ninguém arrisca até o momento um palpite sobre quem sairá vencedor nas eleições presidenciais. Como lá não existe a figura do segundo turno, o vencedor chegará ao poder com algo em torno de um terço dos votos válidos dos 71 milhões de mexicanos habilitados para votar. Até o momento – e apesar dos ataques pesados que sofreu durante a campanha – o candidato de esquerda e ex-prefeito da cidade do México Andrés Manuel López Obrador, segue favorito para chegar à presidência, mas sua diferença com relação ao candidato oficial Felipe Calderón é muito pequena. O problema é que uma quantidade muito grande de eleitores chegou ao dia das eleições indecisos e eles é que vão decidir o resultado final.
Até marco passado Andrés Obrador tinha uma liderança indiscutível, com 48% das intenções de votos. Os empresários, capitaneados pelo poderoso Consejo Coordinador Empresarial (CCE, a FIESP de lá), lançaram uma campanha maciça nos meios de comunicação dizendo que se Obrador ganhasse os mexicanos iam perder “suas casas, patrimônio, tudo”, devido às mudanças econômicas que o candidato propõe. Também se procurou a todo custo associar a imagem do candidato de esquerda à de Hugo Chavez na tentativa de inculcar o medo de um governo populista e autoritário no estilo venezuelano.
Apesar da reação de López Obrador, os ataques surtiram efeito e ele perdeu a liderança absoluta que tinha, ao ponto de que a sua vitória, antes certa, agora é uma incógnita. Esta divisão do eleitorado também se refletirá nas eleições para o Congresso, que aconteceram hoje junto com as presidenciais. A expectativa é que no importa qual seja o novo presidente, ele terá de negociar muito com o novo Congresso, que terá o poder de bloquear qualquer tentativa de reforma.
Uma vitória para López Obrador, porém, parece certa:seu grupo político, liderado pelo Partido de la Revolución Democrática (PRD) continuará controlando a capital do país, a Cidade de México, onde está no poder desde 1997, segundo as primeiras projeções de boca de urna.
