Cidades June 26, 2006
Postado por tordesilhas em : Viagens , 5comentáriosPois é, já estou de volta a Lima, “La Horrible” nas palavras do ensaísta Salazar Bondy. A viagem de regresso já foi por si só uma aventura, porque até o último momento não sabia se o vôo da Varig do Rio para Lima iria realmente sair do solo. Saiu, e pontual, mas com um elemento surpresa: depois da parada em São Paulo, em vez de seguir direto para capital peruana, me dou com a surpresa de pousar em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. O pit stop inesperado e não avisado deve ter sido feito para atender às necessidades de remanejamento de vôos da empresa. Mas tudo bem, a essa altura do campeonato o importante era chegar em casa.
E lá chegando, os primeiros contatos com alguns dos aspectos mais desagradáveis de Lima: o clima horrível nesta época do ano, quando o sol desaparece por meses e o céu fica permanentemente cinza, coberto por uma capa de neblina que envolve toda a cidade, e com a tradicional “viveza” limenha, como chamam aqui o hábito de se tentar dar uma de esperto e levar vantagem até nas pequenas coisas do cotidiano, ou seja, a nossa “Lei de Gérson”. Desta vez já na fila do passaporte um peruano (tenho certeza de que era limenho) pulou espertamente do seu lugar na fila para entrar na minha frente e ser atendido de imediato pelo oficial de migração. O lance foi rápido e eu até poderia ter armado um barraco reclamando da atitude, mas estava cansado e achei que simplesmente não valia à pena.
Para quem não mora há tanto tempo como eu em Lima pode parecer uma reclamação chauvinista e preconceituosa, mas é só conversar com qualquer limenho e tenho certeza de que 10 entre 10 deles vão falar a mesma coisa. A “viveza” é disseminada e fica particularmente visível no trânsito de Lima, talvez um dos mais caóticos da América do Sul.
Mas imediatamente lembrei-me, já saindo do aeroporto em direção a minha casa, da sensação que tive quando, vindo de Brasília, cheguei ao Rio para visitar a minha mãe e irmãos. Eu realmente sou um carioca meio sui-generis porque a cada vez que regresso ao Rio de Janeiro mais aumenta meu estranhamento. Ë a cidade mais linda do mundo, onde vivem meus parentes mais próximos e os meus amigos de infância, e ainda assim não penso em voltar a morar lá. Hoje em dia até os provincianismos típicos de quem vive em uma cidade abençoada pela natureza me deixam irritado. Sem contar o clima quase irrespirável de violência a consome.
Por exemplo, entrei em um ônibus que estava cheio de lugares vazios. De repente entra um passageiro, um moleque de uns 20 anos com uma bolsa de plástico no colo, e vem se sentar justamente ao meu lado. O alarme começou a soar alto e a paranóia chegou a tal ponto que me levantei duas paradas depois, apertei a campainha e desci do ônibus. Exagero? Preconceito puro e simples? Pode ser, mas não posso negar que na “Horrível” Lima nunca tive esta sensação, e olha que já andei muito de ”micro” (as vãs ou peruas do transporte público que ajudam a aumentar o caos do transito limenho) por aqui.
Enfim, em definitivo nossa cidade é onde está nossa família. E estou muito feliz de estar de volta a casa.
