O triste recorde da Colômbia no Dia Mundial dos Refugiados June 20, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , trackbackHoje, 20 de junho, é comemorado do Dia Mundial dos Refugiados. No Brasil não tem muito impacto. Mas para milhões de pessoas em todo o mundo, ter uma data que lembre seus dramas faz muitas vezes a diferença entre a vida e morte. O problema dos refugiados, no entanto, não está tão distante de nós.
Nosso vizinho, a Colômbia, detém o triste – e pouco conhecido - recorde de ser o país do hemisfério ocidental com o maior número de “deslocados internos”, como são chamados aqueles obrigados a deixar as regiões onde viviam originalmente por diversas razões, mas que não chegam a cruzar a fronteira com outro país. São entre dois e três milhões de pessoas, aproximadamente 5% da população total, que vivem em uma espécie de limbo, sem casas, sem direitos, sem futuro.
Este é um dos principais subprodutos da guerra interna que por 40 anos vem dividindo a sociedade colombiana e afetando principalmente a vida dos mais pobres. Desde 1990, aproximadamente, 40 mil pessoas foram mortas, como resultado do conflito interno. Esta realidade aparentemente sem solução está causando um êxodo de colombianos para o estrangeiro.
São 100 mil pessoas que deixaram o país desde 2000 para as nações vizinhas ou para os Estados Unidos e Europa. Esta é uma alternativa para os que podem arcar com os custos de uma viagem ao exterior. Para a grande maioria dos afetados pelo conflito, entretanto, a solução é buscar um lugar mais seguro para viver dentro do próprio país.
Os números oficiais do governo colombiano indicam a existência formal de 1,5 milhão de deslocados internos. Mas a verdade é que muitos dos que são obrigados a deixar seus lugares de origem não se registram nos órgãos oficiais por medo de ser perseguidos e atacados pelas partes em conflito. Números extra-oficias de ONGs e agências internacionais indicam que a quantidade de deslocados facilmente chega aos 3 milhões. Algo em torno de 75% dos deslocados são mulheres e crianças e estão dispersos por todo o país, principalmente nas periferias das grandes cidades, em vez de viverem em campos especiais.
Como na maioria das vezes não possuem documentos oficiais de identificação, estes deslocados vivem em uma espécie de limbo, sem acesso aos programas básicos de assistência do governo colombiano. Não conseguem emprego e não têm acesso à saúde pública e à educação. Neste contexto, é claro que as mulheres e principalmente as meninas são facilmente vítimas de violências e abusos sexuais.
Um drama sem fim
O drama dos deslocados colombianos é que sua sina na verdade não é simplesmente um subproduto do conflito. O fato é que as partes em guerra – pára-militares, guerrilhas, forcas da ordem e até narco-traficantes – usam o deslocamento forçado de populações inteiras como estratégias de luta. As áreas desocupadas são usadas como moeda de barganha política ou até mesmo para implantação de projetos agropecuários controlados pelos invasores. Outra razão para as populações locais fugirem é que uma tendo vez tendo suas áreas ocupadas, elas passam a ser o alvo imediato de perseguições e morte. Basta que o invasor desconfie que uma pessoa está de alguma maneira cooperando com o inimigo para que seja morta. A neutralidade é vista com suspeita por todos os atores armados.
O interessante é que a legislação colombiana sobre deslocamento interno, aprovada em 1997, é considerada uma das mais avançadas do mundo. A Lei obriga o governo a adotar políticas e ações para evitar o deslocamento e dar atenção aos deslocados, tratando de encaminhá-los de volta às suas terras. Claro que, como é comum na América Latina, o ponto fraco é na hora de implementar a lei. Por exemplo, Álvaro Uribe tem sido muito criticado pelas organizações de direitos humanos por levar adiante uma das bandeiras de seu governo, o retorno dos dos locados às suas terras originais, mesmo que as condições de causaram o deslocamento não tenham mudado. Assim, as pessoas voltam para regiões onde o conflito continua e, por terem saído antes, são imediatamente tratadas pelas partes em luta com absoluta desconfiança.
Ser um deslocado interno é muito mais do que perder as terras onde se viveu toda a vida e onde estão os cultivos, casas e outras propriedades. Os deslocados são muitas vezes obrigados a caminhar por dias em situações de extrema precariedade. Deixam tudo para trás sem garantias de que um dia voltarão e, em caso de voltarem, se recuperarão sua propriedades e artigos pessoais. Quando chegam aos seus destinos, são muitas vezes recebidos com desconfiança e até animozidade pelas populações locais. Por isto, muitos deslocados escondes sua verdadeira situação e não falam nunca sobre seu passado. O impacto psicológico sobre os deslocados é tão ou mais severo do que o causado pelas perdas materiais.
A pior crise humanitária fora da África
A situação na Colômbia é tão grave que o Alto Comissionado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) abriu um escritório no país especialmente para tratar do tema dos deslocados. De acordo com um relatório da agência chamado “Tendência Mundiais sobre Refugiados 2005”, o número global de refugiados em todo o mundo chegou ao seu nível mais baixo em 26 anos. Por outro lado, as cifras de deslocados internos aumentou, passando de 5,3 milhões de pessoas em 2004 para 6,6 milhões em 2005. Aí estão incluídos os números da Colômbia.
Justamente para lembrar ao mundo a situação de desespero em que vivem os refugiados, a Acnur lança hoje uma campanha mundial chamada “Nine Million” estrelada pelo Ronaldo “Fenômeno”. A Nike e estras empresas estão apoiando e a idéia é garantir que crianças refugiadas possam ter uma chance de “aprender e brincar” e para isso vão ganhar bolas de futebol. O site da campanha está aqui e nele se pode assistir ao comercial estrelado pelo Ronaldo (o comercial está abaixo).
Seja como for, esta campanha dificilmente mudará o fato de que o desastre humanitário que vive a Colômbia seja quase um segredo aos olhos do mundo e da região. É uma das “emergências esquecidas”, assim chamadas pelas agências humanitárias porque não chamam a atenção da mídia. Recentemente o porta-voz da Acnur, William Spindler, qualificou a situação colombiana como “a pior crise humanitária do mundo fora da África”. Para as pessoas que têm suas vidas destruídas e viradas de cabeça para baixo sobram apenas as promessas do governo colombiano e a esperança de ter seus dramas lembrados pelo menos uma vez por ano, no Dia Mundial dos Refugiados.
Para saber mais
Página da Acnur
Página do Comitê Internacional da Cruz Vermelha sobre Deslocados Internos
Vídeo da campanha Nine Million com o Ronaldo

Comments»
Impressionante, realmente. E como voce disse, em relacao a Colombia, é uma situacao ignorada pela maioria.
Eu nem imaginava, Renato. Excelente post! botei um link pra ele, lá no blog.
Pois é,
A Colombia é um país surpreendente em todos os sentidos.
Um abraco,
Renato
fizemos materia ontem sobre o dia.
aqui no brasil são 3.500 refugiados. metade em sp. e uns 70% vêm de angola.
boa parte ,agora, tá vindo da colômbia, expulsos pela guerra civil - não há outro termo para a situação lá.
ouvimos um refugiado da república democrática do congo. fugiu de kinshasa, porque uma milícia o recrutou para lutar. ele preferiu deixar o páis a bordo do porão de um navio.