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A chicha boliviana e seu ingrediente secreto June 8, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , trackback

Tenho um tio que sempre dizia, quando eu era criança, que se eu soubesse como era feita a sardinha em lata nunca mais iria comer o peixe industrializado. Desde então procuro não perguntar muito como é o processo de fabricação das comidas e bebidas que fazem o nosso dia-a-dia. Aliás, tenho o espírito bastante aberto e gosto de experimentar paladares diferentes e exóticos. Por isso tirei de letra uma das experiências mais interessantes que tive em uma viagem à Bolívia.

Havia ido visitar uma comunidade indígena distante umas 10 horas de carro de Santa Cruz de la Sierra. Fica bem no meio de uma área de litígio entre os indígenas chiquitanos e invasores de todo tipo, desde mineradores até madeireiras ilegais. A comunidade recebeu a mim a meus companheiros de viagem como sempre de maneira muito hospitaleira na capela local, que serve também de salão de reuniões.

O líder indígena que nos recebeu fez as apresentações devidas e nos convidou a tomar a bebida típica da comunidade, chamada chicha. Na hora pensei: “Está tudo muito bem, mas onde estou amarrando o meu burro”. Só que não havia como escapar, porque e repente uma das senhoras apareceu com um pequeno balde e três copos de aspecto suspeito, um para cada um dos visitantes. Ela calmamente afundava o copo no balde e o entregava para cada um de nós. Nisso, todo mundo olhando. Acho que intimamente estavam duvidando que fôssemos tomar a bebida.

Como eu já havia me convencido de que não havia como escapar, dei logo uma golada e pronto. Não digo que fosse ruim. A bebida tinha o aspecto branco-leitoso e o gosto era estranho, com um sabor distante de amendoim. Não era doce, nem salgada, nem amarga. Não dá para descrever. Enrolei um pouco, tomei metade do copo e comecei a tirar fotografias, para ver se me esqueciam. Deu certo.

No caminho de volta para Santa Cruz, conversa vai, conversa vem e o nosso guia explicou como era feita a chicha. Preparados? Primeiro a bebida é feita puramente de milho, não tem nada de amendoim. Já estranhei porque jurava que tinha um gosto de amendoim e meus companheiros concordaram com esta impressão. Pois bem, as mulheres da comunidade se reúnem para moer o milho, o acondicionam em um recipiente especial e acrescentam água para fermentar. Até aí tudo bem.

O segredo mesmo era a etapa seguinte do processo de fabricação da chicha. Quando a mistura de milho triturado e água está fermentando, todas as mulheres juntas e de maneira ritual começam a pegar bocaditos da mistura, botar na boca, mastigar bem e cuspir em outro recipiente. Ao total desta mistura cuspida se acrescenta mais água e se deixa fermentando por mais tempo. Daí surgiu a chicha com que eu e meus companheiros nos deleitamos naquele dia.

É uma bebida de alto teor energético e que traduz o espírito de unidade da comunidade. Todos plantam e colhem o milho, as mulheres se reúnem para preparar a bebida, que é levada pelos homens e adolescentes quando saem para suas tividades de caça ou plantio. Para mim a mior preocupação não era tanto pelo processo de “fabricação” da chicha, mas sim pela qualidade da água utilizada, que obviamente vinha do poço usado pela comunidade. Mas no fim das contas foi tudo bem, não passamos mal, não afrontamos a hospitalidade da comunidade e ficamos com uma história curiosa para contar.

Ah, minha teoria é de que o gosto de amendoim se deve à saliva das mulheres chiquitanas. É o componente secreto.

Comments»

1. Leila - 9 June, 2006

Se é uma tradição milenar que não matou ninguém até hoje (ou pelo menos não matou muita gente)… Tá limpo.

2. Ana Lucia - 9 June, 2006

Me lembrou a experiência com o cauin relatada pelo Jean de Léry. O processo era o mesmo, mas os Tupinambas usavam mais a mandioca. É a saliva que faz fermentar a bebida e reza a lenda que dava um baita porre, felizmente esse não foi o seu caso com a tal chicha :-)

3. Flávia Nogueira - 11 June, 2006

Nossa, que diferente! Achei bem interessante mesmo. E quanto a saber os processos de fabricação das “coisas” que ingerimos, podiam nos poupar né. A gente come fica feliz e pronto. Já não tá bom?
Mas esse processo da chicha não dava para deixar passar batido, não. Muito interessante.

4. Renato Guimaraes - 11 June, 2006

Pois é, realmente que eu saiba ninguém morreu até hoje por beber chicha e era uma situacao na qual a rejeicao à oferta da comunidade poderia ser mal interpretada. A explicacao sobre a saliva foi essa mesmo, de que servia para acelerar o processo de fermentacao. Agora, de porre ninguem falou nada. E definitivamente na maioria das vezes é melhor nao saber como se preparam nossas comidas. Aliás, me lembro de um cozinheiro francês que escreveu um livro falando exatamente disso, ou seja, das barbaridades que se cometem nas cozinhas, inclusive de restaurantes sofisticados.

5. Vanessa - 11 June, 2006

Me lembro que nessa reportagem, o cozinheiro delatou que os chefs costumam dar carne estragada para aqueles que pedem bife bem-passado, pois significam que eles nao sabem comer carne.

Agora, cá pra nós, e a gente fosse se empombar com um pouquinho de cuspe alheio, nao beijava na boca!!! ;-)

6. Ismael - 13 December, 2006

Que eu saiba, ha varios processos de feitio de chicha.
Germina-se o milho, seca e moe, a esta farinha chama-se jora.
1 Kg. de jora para 30 litros de agua a ferver durante varias hora. Coar e repousar por varios dias em pote de barro.
É a chicha pura.
Em comunidades mais antigas se substitui a fervura pela mastigada da farinha.