Eleições no Peru - Update 2: Alan Garcia é o novo presidente June 4, 2006
Postado por tordesilhas em : Política , 4comentáriosNota 1: A ONPE, organismo que controla o processo eleitoral peruano, acaba de divulgar (às 21:30 - hora do Peru) números oficiais de apuração segundo os quais, com 77% de votos apurados, Alan Garcia tem 55% e Ollanta Humala, 45%. Isto confirma os resultados da boca de urna, mencionados a seguir.
Um país literalmente dividido ao meio. Esta pode ser uma primeira interpretação dos resultados do segundo turno das eleições presidenciais no Peru. Segunda as pesquisas de boca de urna Alan Garcia, do Partido Aprista Peruano, é o novo presidente do país com algo ao redor de 53% dos votos válidos. Seu oponente, Ollanta Humala, ainda de acordo com as pesquisas, receberia cerca de 43% dos votos.
A ONPE, órgão que administra o processo eleitoral peruano, já disse que se deve tomar muito cuidado com estas pesquisas. Mas segundo o “avanço da contagem” do Instituto Apoyo, baseado em uma amostra dos resultados da apuração das mesas eleitorais, os números das pesquisas de boca de urna estariam sendo confirmados em todo o país.
Baseado neste avanço de contagem eu preparei um mapa do Peru de acordo com a vitória que deve obter Alan Garcia e Ollanta Humala em cada região (equivalentes aos nossos estados). A imagem mostra muito graficamente, do ponto de vista político-eleitoral, o país que está emergindo destas eleições. A parte costeira e mais privilegiada deu seus votos a Garcia, enquanto que o interior (Andes e parte amazônica), claramente respaldou as propostas humalistas.
Em algumas regiões como Cusco, Puno e Apurimac, Ollanta Humala deve receber até 75% dos votos, se se confirmam as pesquisas de boca de urna. Em Ayacucho, uma das regiões mais pobres do país e duramente atingida pela guerra interna promovida pela guerrilha do Sendero Luminoso, Ollanta pode chegar a receber 85% dos votos. Outro dado interessante, que mostra o avanço dos humalistas, é que em Piúra, no norte do país, tradicional bastião do APRA, Ollanta pode chegar a receber entre 45% e 47% dos votos.
Portanto, se os números se confirmam, Alan Garcia deverá sua vitória fundamentalmente aos votos da parte do país que historicamente foi mais privilegiada do ponto de vista econômico, social e político. É a região mais densamente povoada e a que está de frente para o mar, com todas as implicações do ponto de vista de exportações, acesso a infraestrutura e investimentos financeiros. O Peru é um país extremamente centralizado em Lima e não há dúvidas que os cerca de 63% dos votos que Alan Garcia receberá na capital farão toda a diferença para ele.
O desafio, como já disse em meu post anterior, é que uma parte significativa destes votos não lhe pertence e lhe foram dados para evitar que a “besta do apocalipse” Ollanta Humala chegasse ao poder. Qual será o preço que o candidato aprista terá de pagar para que estes votos se transformem em apoio consistente no Congresso é o que veremos nas próximas semanas. Por outro lado, daqui a alguns meses haverá eleições regionais e municipais e é de se esperar que a supremacia alcançada pelos humalistas no interior do país se repita, ao menos em parte.
Um chamado de atenção
O que fica são algumas mensagens claras que o “Peru profundo” está mandando para a elite política e econômica que gravita ao redor de Lima: a situação de exclusão não pode continuar mais; já está na hora de repartir do bolo do crescimento econômico que tem dado ao Peru as mais altas taxas de crescimento da América do Sul.
Se Unión por el Peru (UPP), o partido de Humala, consegue se consolidar, fazer bom uso de sua maioria no Congresso e se transformar no porta-voz desta demanda histórica, realmente se pode prever que Alan Garcia vai ter momentos duríssimos pela frente.
O virtual novo presidente já sabe o que o espera. Em um discurso três horas depois de encerrada a votação e anunciados os resultados da boca de urna, ele disse que reconhece a mensagem dada pelos departamentos do sul peruano, que votaram majoritariamente em Humala, e garantiu que seu governo investirá mais para superar a pobreza e exclusão que historicamente tem relegado estas regiões ao segundo plano.
Também tratou de reforçar a imagem de “anti-chavez” dizendo que sua vitória significa um rechaço dos peruanos à intromissão do presidente venezuelano e à “submissão” do Peru ao projeto político chavista. Será interessante ver como ficarão as relações entre os dois paises a partir de agora. Hugo Chavez prometeu há alguns dias romper as relações com o Peru caso Alan Garcia ganhasse a presidência, não sem antes chamar o então candidato peruano de “ladrão”, “desonesto” e “troglodita”. Cumprirá sua promessa?
O certo é que Lula ganha um aliado de primeira hora em seu projeto de liderança regional. Alan Garcia já disse que vai continuar estreitando as relações econômicas e políticas com o Brasil, dando continuidade a algo que já vinha sendo feito por Alejandro Toleto. O time da “esquerda boa”, para usar a controversial dicotomia proposta pelo ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, acaba de ganhar um jogador de peso.
