Eleições no Peru - Update 1: Partido de Humala tem maioria no Congresso June 3, 2006
Postado por tordesilhas em : Política , trackbackSegue a expectativa para o segundo turno nas eleições presidenciais peruanas e enquanto isso o órgão responsável por administrar o processo eleitoral finalmente divulgou o resultado final das eleições para o Congresso, que no Peru é unicameral. Foram 57 dias de apuração cujo resultado mostra que o presidente, qualquer que seja eleito, vai ter uma vida muito difícil.
O partido de Ollanta Humala, Unión por el Peru (UPP), elegeu a maioria dos congressistas (45 de um total de 120). Em segundo lugar ficou o APRA de Alan Garcia, com 36, e em terceiro o conservador Unión Nacional (UN), da ex-candidata Lurdes Flores, com 17. O partido fujimorista Alianza por el Futuro elegeu 13 congressistas e o centrista Frente de Centro, do ex-presidente Valentin Paniagua, fez 5 parlamentares. Peru Posible, o partido que dá sustentação ao atual presidente Alejandro Toledo, elegeu apenas 2 congressistas, mesmo número de outro partido conservador, Restauração Nacional.
Com esta configuração se pode prever que se Alan Garcia for eleito presidente do Peru, ele terá muitas dificuldades para governar, talvez maiores do que teria Ollanta Humala. Não é sem razão que ele já soltou em um discurso há alguns dias que convocaria novas eleições parlamentares para poder ter condições de ”governabilidade”. Esta proposta aparentemente não prosperou até agora, mas não seria de se admirar se ele a retomasse, caso seja eleito, apesar de seu conteúdo claramente golpista.
O fato é que uma boa parte dos votos que potencialmente levará Alan Garcia ao poder não lhe pertence. Estes votos vêm dos eleitores que sem nenhuma opção frente à alternativa de Humala chegar à presidência decidiram votar em Garcia como a alternativa “menos pior”. Aí se incluem grande parte dos que votaram em Lurdes Flores, que por muito pouco deixou de chegar ao segundo turno. Como disse um jornalista peruano muito conhecido, Jaime Beyly, estes eleitores tomarão um remédio para o estômago, vestirão suas melhores luvas e com seus lenços de seda empapados de perfume francês irão às urnas neste domingo tratar de evitar que a besta do apocalipse, representada pelos humalistas, chegue ao poder. Nem que para isso tenham que votar em Alan Garcia, que até outro dia representava este papel.
Vida difícil para um governo de Alan Garcia
Evidentemente este apoio conjuntural a Alan Garcia não representa uma adesão imediata ao seu governo, caso seja eleito. Ou seja, no dia seguinte à sua posse, ele terá de negociar muito com os partidos mais conservadores, especialmente a Unión Nacional, para ter um pingo de governabilidade. Apesar de que está parece ser uma aliança lógica, uma vez que ambos – APRA e UN – defenderam durante todo a campanha de segundo turno a manutenção do atual modelo econômico com alguns ajustes para torná-lo mais “humano” e voltado para os pobres, as distintas visões ideológicas serão muito difíceis de conciliar a longo prazo.
É fácil prever, também, que os humalistas do UPP vão fazer a vida de um governo aprista muito difícil. Especialmente porque é inegável que o UPP, apesar de ser um partido frágil e quase de aluguel (algo assim como o PRN do Collor) emerge como uma força política poderosa, não apenas pelo número de congressistas que elegeu, mas também pela sua aparentemente consolidação no interior do país. Isto é um ponto importante se levarmos em conta que daqui a apenas quatro meses haverá novas eleições no Peru, desta vez para as regiões (mais ou menos equivalentes aos nossos estados) e municípios.
Ou seja, outra dificuldade para um governo liderado pelo APRA será desenvolver uma política de alianças ao mesmo tempo em que o novo governo dá seus primeiros passos e a oposição, representada pela UPP, tenta usar do novo capital político para se consolidar, ganhando o máximo possível de governos municipais e regionais. Um governo de Ollanta Humala não encontraria um cenário muito melhor, mas muitos analistas crêem que teria mais facilidade de negociar com setores do APRA (especialmente os mais radicais) do que vice-versa. Na verdade, há que esse ter em conta que uma boa parte dos planos de governo de apristas e humalistas são coincidentes.

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