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Eleições peruanas esquentam na reta final June 2, 2006

Postado por tordesilhas em : Política , 6comentários

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais no Peru, o cenário está indefinido. Segundo diferentes pesquisas de opinião divulgadas hoje para a imprensa estrangeira baseada em Lima (já que segundo a lei eleitoral não se podem mais publicar resultados de pesquisas na mídia peruana) o candidato Alan Garcia teria uma vantagem sobre Ollanta Humala que varia de 6 a 11%, em um universo de indecisos que chega até a 15%. Ou seja, a verdade é que a eleição só será definida mesmo na boca da urna. Para pôr mais óleo na fogueira, uma pesquisa divulgada pelo North American Opinion Research destoou de todas as outras e apuntou para uma vitória de Ollanta, com 55% dos votos contra 37% para Alan Garcia.

A reta final da campanha no Peru está sendo pródiga em acusações e xingamentos de ambas partes. Há de tudo, menos um debate real sobre as propostas de governo para fazer com que o Peru supere de maneira consistente a pobreza e iniquidade atávicas em que vive 55% da população.

Alan Garcia concentrou suas propostas na manutenção do modelo econômico, com a revisão pontual de contratos e mais investimentos na área social. Ele tratou de pedir desculpas pelos “erros” cometidos durante seu governo anterior, que terminou com taxas inflacionárias mais altas que as da Alemanha pré-Hitler. Também tentou construir uma imagem de líder “anti-Chavez”, tratando de aproveitar-se do repúdio da mídia local às contantes intervenções do presidente venezuelano no ambiente político do Peru.

Ollanta Humala, por sua vez, reforçou sua retórica castranse e beligerante, apresentando-se como o candidato anti-sistema. Já deixou claro que vai rever os contratos assinados com empresas transnacionais, especialmente nas áreas de petróleo, gás e mineração. Acena para uma aproximação com os governos da Venezuela e Bolívia e já disse que vai convocar uma Assembléia Constituinte. Usa uma linguagem facilmente compreensível pelo povo e manipula de maneira muito hábil o imaginário popular, sobretudo das classes mais pobres e de origem indígena e campesina, do lider de formação militar capaz de botar ordem na casa.

Aumenta a polarização
Se acontece de no segundo turno a diferença entre os dois candidatos terminar muito pequena, estará consolidada uma divisão do país que já pode ser observada quando se analisa as intenções de voto para cada um. Segundo a pesquisa do Instituto Apoyo, Alan Garcia domina em Lima e no norte do Peru. Na região central (Arequipa e Costa Sul) ambos estão virtualmente empatados. E nas zonas andinas Central e Sul e região amazônica o domínio de Ollanta Humala é incontestável. Em termos de classe social, Garcia tem a preferência das classes A, B e C, enquanto Humala domina na classe D e há um empate na E. 

Esta divisão do país mostra que a escessiva concentração de poder e recursos financeiros em Lima já está chegando ao limite do tolerável pelo restante do país, sobretudo as regiões andina e amazônica. A consolidação do projeto nacionalista nestas regiões vai tornar a vida de Alan Garcia, caso ele seja eleito, muito difícil. Ainda mais se tomarmos em conta que o partido de Humala, o UPP, será o que terá o maior número de parlamentares (45 de 120) no novo Congresso que será empossado em 28 de julho. O partido de Garcia, o APRA, elegeu 36 parlamentares e o conservador Unión Nacional, da ex-candidata Lourdes Flores, elegeu 17 congressistas. Apesar de que o UPP não terá maioria no Congresso, terá poder suficiente para ditar a agenda parlamentar.

Alan Garcia já prevê este fato e começou a advogar a idéia de que, caso seja eleito, convocará novas eleições parlamentares para conseguir mudar o equilíbrio de poder no Congresso e assim obter uma situação de “governabilidade”. Como ele pretende fazer isso, não deixou claro. O fortalecimento dos nacionalistas é um fato incontestável, assim como o clima de polarização social e ideológica que aumentou nestas semanas anteriores ao segundo turno. Esta polarização pode facilmente terminar em enfrentamentos sérios entre “apristas” e “humalistas”, tanto no dia da votação do segundo turno como nos dias seguintes. E piorar mais ainda se Alan Garcia leva adiante a idéia de convocar novas eleições parlamentares.

Ollanta Humala já disse várias vezes que tem informações de que se estaria preparando uma fraude nas eleições para impedi-lo de chegar à presidência. Deixa entrever que estaria disposto a mobilizar seus milhares de simpatizantes caso houvesse indicações de que esta fraude estivesse acontecendo de verdade. Alan Garcia e seus aliados, por sua vez, tentam usar o “fator Chávez” a seu favor dizendo ter informações de que desde a Venezuela estariam chegando agitadores profissionais para causar tumultos e assim influenciar o cenário político a favor de Humala.

Os votos envergonhados
No meio disso tudo, o presidente Aledandro Toledo desconheceu a legislação eleitoral e tomou partido de maneira clara de Alan Garcia. Chegou a o ponto de em seus discursos dizer que os peruanos estão diante da escolha entre a democracia e a ditadura. Foi admoestado pelo órgão regulador das eleições, mas seguiu nesta linha. A mídia peruana, sim, é que deu um impresisonante espetáculo de partidarismo. Ollanta Humala foi submetido a um verdadeiro massacre tanto no primeiro turno como no segundo. Praticamente nenhum jornal ou programa jornalísitco de rádio e TV, sobretudo em Lima, adotou uma postura um pouco mais equilibrada.

Evidentemente os jornais mais tradicionais, como El Comercio, La República e Peru 21 ainda procuraram manter um pouco das aparências, mas o tom dos artigos e reportagens publicados sobre Humala invariavelmente o pintavam como pouco menos do que a besta do apocalipse. O candidato nacionalista tem investido contra a mídia, dizendo-se vítima de uma campanha difamatória.

O fato é que este clima de polarização pode estar gerando um aumento nos chamados “votos envergonhados”. Ou seja, na quantidade de pessoas que votarão em Ollanta mas tem vergonha de assumir o voto publicamente. Isto é o que estaria gerando uma espécie de distorção nas pesquisas de opinião que indicam a vitória de Alan Garcia. O diretor da empresa de pesquisa Apoyo Alfredo Torres reconheceu que todas as pesquisas deveriam ser olhadas com um certo cuidado, sobretudo porque ninguém sabe o tamanho exato do chamado “voto oculto” (ou envergonhado) em Ollanta Humala, que poderia fazer a diferença nesta reta final.

Do Tordesilhas:
Quem é Ollanta Humala
Homofobia em eleições peruanas
Entre a cruz e a espada

Blog da University of British Columbia sobre as eleições peruanas

 

Cenários pós-eleitorais na Colômbia June 2, 2006

Postado por tordesilhas em : Política , 2comentários

Participei de uma roda de discussão com alguns analistas sobre o resultado das eleições na Colômbia e há alguns pontos interessantes para ser explorados. O principal foi o alto nível de abstenção nas eleições deste ano. Na Colômbia o voto não é obrigatório e desta vez nada menos que 54,89% dos votantes deixaram de comparecer às urnas. O interessante é que este dado foi muito pouco mencionado nas reportagens publicadas tanto no país, como no exterior.

Evidentemente, isto por si só não tira o mérito da vitória acachapante obtida por Alvaro Uribe, que alcançou 62,2% dos votos válidos. Neste sentido, sua votação de certa forma representa um respaldo à política de “segurança democrática” e uma consolidação da influência do paramilitarismo na vida nacional. Mas este respaldo não parece ser incondicional e não é uniforme por todo o país. Prova disso foi a até certo ponto surpreendente votação obtida pelo candidato da esquerda, Carlos Gaviria, que representou o Pólo Democrático Alternativo, com seus 22,04% de votos.

O surpreendente, neste caso, é que nas eleições anteriores, em 2002, a esquerda foi uma força marginal. O Pólo Democrático, então, conseguiu apenas 6,1% dos votos. Muitos analistas crêem que agora em 2006 houve uma espécie de implosão do Centro, com uma polarização entre as forças conservadoras reunidas ao redor do que se convenciona chamar “uribismo” e a esquerda reorganizada. O Partido Liberal, tradicional representante do centrismo, que em 2002 havia obtido 31,7% dos votos, este ano chegou resfolegando aos 11,8%.

Aparentemente o Partido Liberal não pôs a sua máquina para funcionar com força. Os votos que faltaram este ano ao partido claramente migraram para Uribe e Gaviria. A falta de opções mais ao centro vai ter conseqüências no futuro político da Colômbia. Alvaro Uribe já começou a usar este vácuo a seu favor, quando nas vésperas das eleições, convocou o povo colombiano a fazer uma opção entre a segurança democrática como caminho para a paz ou a esquerda que “entregaria o país às FARC”.

A débâcle do bipartidarismo tradicional entre conservadores e liberais que historicamente dominou a vida política colombiana foi comemorada por alguns líderes do Pólo Democrático como uma possibilidade de abertura de espaço para a esquerda. Esta é considerada uma visão simplista que na verdade poderia resultar na consolidação de um modelo de governo centralizador e desrespeitoso com os direitos humanos, representado pelo “uribismo”. Um indicador desta tendência é que antes mesmo de Uribe haver sido reeleito já havia gente dos partidos que lhe dão sustentação falando em modificar a constituição para permitir uma “re-reeleição”. O candidato descartou oficialmente esta possibilidade, mas a idéia já está posta.

O que vem por aí

Seja como for, Alvaro Uribe estará sob escrutínio de seus votantes na medida em que prometeu se dedicar mais neste segundo mandato aos temas sociais. A pobreza e a iniqüidade seguem muito altas na Colômbia enquanto uma parte substancial do orçamento é dedicada à política de segurança cidadã. Uribe garantiu que uma de suas primeiras medidas será chamar as FARC para uma negociação de paz. Isto soou como uma piada para muitos analistas, simplesmente porque este tipo de processo não se anuncia antes. Ou seja, é claramente um lance de marketing que dará ao presidente o álibi de dizer que convocou as guerrilhas para conversar e elas se recusaram.

Para as FARC na verdade a situação é muito delicada e o passado recente dos processos de paz na Colômbia mostra que é muito difícil confiar na boa vontade governamental. Por exemplo, uma das dificuldades para uma integração das FARC à vida política é a lembrança do ainda recente processo de extermínio sistemático de mais de três mil dirigentes, parlamentares, líderes políticos e membros da União Patriótica, movimento de esquerda que tentou nos anos 80 e 90 dar um novo rumo à vida política colombiana.

No plano regional se considera que a eleição de Uribe sem dúvida é importante para os Estados Unidos do ponto de vista de estratégia geopolítica para manter um enclave conservador na “neo-esquerdista” América do Sul. Mas o fato é que Alvaro Uribe tem muito pouca influência na região e não parece ser o seu projeto tornar-se um líder regional. Ou seja, dificilmente seria ele um “anti-Chavez”.

No final das contas a reeleição de Alvaro Uribe deixou muitos analistas mais ligados à esquerda divididos entre o pessimismo puro e simples e um relutante otimismo com o aparente fortalecimento do Pólo Democrático.

Aqui mais informação sobre o extermínio da Unión Patriótica

Do Tordesilhas:

Colômbia vota pela segurança

Na Colômbia, paramilitares estão no centro do jogo político