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Tem de aturar! June 29, 2006

Postado por tordesilhas em : Esportes , 7comentários

Pois é, e segundo a VIP online vamos ter de aturar o Galvão Bueno até 2014. Ele acabou de renovar o contrato com a Globo. Hoje me fizeram uma pergunta que não soube responder: se ninguém gosta do Galvão, como ele continua sendo o principal narrador da TV brasileira? Mistérios… Aí do lado uma foto que a Globo nunca vai mostrar.

Cidades June 26, 2006

Postado por tordesilhas em : Viagens , 5comentários

Pois é, já estou de volta a Lima, “La Horrible” nas palavras do ensaísta Salazar Bondy. A viagem de regresso já foi por si só uma aventura, porque até o último momento não sabia se o vôo da Varig do Rio para Lima iria realmente sair do solo. Saiu, e pontual, mas com um elemento surpresa: depois da parada em São Paulo, em vez de seguir direto para capital peruana, me dou com a surpresa de pousar em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. O pit stop inesperado e não avisado deve ter sido feito para atender às necessidades de remanejamento de vôos da empresa. Mas tudo bem, a essa altura do campeonato o importante era chegar em casa.

E lá chegando, os primeiros contatos com alguns dos aspectos mais desagradáveis de Lima: o clima horrível nesta época do ano, quando o sol desaparece por meses e o céu fica permanentemente cinza, coberto por uma capa de neblina que envolve toda a cidade, e com a tradicional “viveza” limenha, como chamam aqui o hábito de se tentar dar uma de esperto e levar vantagem até nas pequenas coisas do cotidiano, ou seja, a nossa “Lei de Gérson”. Desta vez já na fila do passaporte um peruano (tenho certeza de que era limenho) pulou espertamente do seu lugar na fila para entrar na minha frente e ser atendido de imediato pelo oficial de migração. O lance foi rápido e eu até poderia ter armado um barraco reclamando da atitude, mas estava cansado e achei que simplesmente não valia à pena.

Para quem não mora há tanto tempo como eu em Lima pode parecer uma reclamação chauvinista e preconceituosa, mas é só conversar com qualquer limenho e tenho certeza de que 10 entre 10 deles vão falar a mesma coisa. A “viveza” é disseminada e fica particularmente visível no trânsito de Lima, talvez um dos mais caóticos da América do Sul.

Mas imediatamente lembrei-me, já saindo do aeroporto em direção a minha casa, da sensação que tive quando, vindo de Brasília, cheguei ao Rio para visitar a minha mãe e irmãos. Eu realmente sou um carioca meio sui-generis porque a cada vez que regresso ao Rio de Janeiro mais aumenta meu estranhamento. Ë a cidade mais linda do mundo, onde vivem meus parentes mais próximos e os meus amigos de infância, e ainda assim não penso em voltar a morar lá. Hoje em dia até os provincianismos típicos de quem vive em uma cidade abençoada pela natureza me deixam irritado. Sem contar o clima quase irrespirável de violência a consome.

Por exemplo, entrei em um ônibus que estava cheio de lugares vazios. De repente entra um passageiro, um moleque de uns 20 anos com uma bolsa de plástico no colo, e vem se sentar justamente ao meu lado. O alarme começou a soar alto e a paranóia chegou a tal ponto que me levantei duas paradas depois, apertei a campainha e desci do ônibus. Exagero? Preconceito puro e simples? Pode ser, mas não posso negar que na “Horrível” Lima nunca tive esta sensação, e olha que já andei muito de ”micro” (as vãs ou peruas do transporte público que ajudam a aumentar o caos do transito limenho) por aqui.

Enfim, em definitivo nossa cidade é onde está nossa família. E estou muito feliz de estar de volta a casa.

O triste recorde da Colômbia no Dia Mundial dos Refugiados June 20, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 4comentários

Hoje, 20 de junho, é comemorado do Dia Mundial dos Refugiados. No Brasil não tem muito impacto. Mas para milhões de pessoas em todo o mundo, ter uma data que lembre seus dramas faz muitas vezes a diferença entre a vida e morte. O problema dos refugiados, no entanto, não está tão distante de nós.

Nosso vizinho, a Colômbia, detém o triste – e pouco conhecido - recorde de ser o país do hemisfério ocidental com o maior número de “deslocados internos”, como são chamados aqueles obrigados a deixar as regiões onde viviam originalmente por diversas razões, mas que não chegam a cruzar a fronteira com outro país. São entre dois e três milhões de pessoas, aproximadamente 5% da população total, que vivem em uma espécie de limbo, sem casas, sem direitos, sem futuro.
 
Este é um dos principais subprodutos da guerra interna que por 40 anos vem dividindo a sociedade colombiana e afetando principalmente a vida dos mais pobres. Desde 1990, aproximadamente, 40 mil pessoas foram mortas, como resultado do conflito interno. Esta realidade aparentemente sem solução está causando um êxodo de colombianos para o estrangeiro. São 100 mil pessoas que deixaram o país desde 2000 para as nações vizinhas ou para os Estados Unidos e Europa. Esta é uma alternativa para os que podem arcar com os custos de uma viagem ao exterior. Para a grande maioria dos afetados pelo conflito, entretanto, a solução é buscar um lugar mais seguro para viver dentro do próprio país.
 
Os números oficiais do governo colombiano indicam a existência formal de 1,5 milhão de deslocados internos. Mas a verdade é que muitos dos que são obrigados a deixar seus lugares de origem não se registram nos órgãos oficiais por medo de ser perseguidos e atacados pelas partes em conflito. Números extra-oficias de ONGs e agências internacionais indicam que a quantidade de deslocados facilmente chega aos 3 milhões. Algo em torno de 75% dos deslocados são mulheres e crianças e estão dispersos por todo o país, principalmente nas periferias das grandes cidades, em vez de viverem em campos especiais.
 
Como na maioria das vezes não possuem documentos oficiais de identificação, estes deslocados vivem em uma espécie de limbo, sem acesso aos programas básicos de assistência do governo colombiano. Não conseguem emprego e não têm acesso à saúde pública e à educação. Neste contexto, é claro que as mulheres e principalmente as meninas são facilmente vítimas de violências e abusos sexuais.
 
Um drama sem fim
O drama dos deslocados colombianos é que sua sina na verdade não é simplesmente um subproduto do conflito. O fato é que as partes em guerra – pára-militares, guerrilhas, forcas da ordem e até narco-traficantes – usam o deslocamento forçado de populações inteiras como estratégias de luta. As áreas desocupadas são usadas como moeda de barganha política ou até mesmo para implantação de projetos agropecuários controlados pelos invasores. Outra razão para as populações locais fugirem é que uma tendo vez tendo suas áreas ocupadas, elas passam a ser o alvo imediato de perseguições e morte. Basta que o invasor desconfie que uma pessoa está de alguma maneira cooperando com o inimigo para que seja morta. A neutralidade é vista com suspeita por todos os atores armados.
 
O interessante é que a legislação colombiana sobre deslocamento interno, aprovada em 1997, é considerada uma das mais avançadas do mundo. A Lei obriga o governo a adotar políticas e ações para evitar o deslocamento e dar atenção aos deslocados, tratando de encaminhá-los de volta às suas terras. Claro que, como é comum na América Latina, o ponto fraco é na hora de implementar a lei. Por exemplo, Álvaro Uribe tem sido muito criticado pelas organizações de direitos humanos por levar adiante uma das bandeiras de seu governo, o retorno dos dos locados às suas terras originais, mesmo que as condições de causaram o deslocamento não tenham mudado. Assim, as pessoas voltam para regiões onde o conflito continua e, por terem saído antes, são imediatamente tratadas pelas partes em luta com absoluta desconfiança.
 
Ser um deslocado interno é muito mais do que perder as terras onde se viveu toda a vida e onde estão os cultivos, casas e outras propriedades. Os deslocados são muitas vezes obrigados a caminhar por dias em situações de extrema precariedade. Deixam tudo para trás sem garantias de que um dia voltarão e, em caso de voltarem, se recuperarão sua propriedades e artigos pessoais. Quando chegam aos seus destinos, são muitas vezes recebidos com desconfiança e até animozidade pelas populações locais. Por isto, muitos deslocados escondes sua verdadeira situação e não falam nunca sobre seu passado. O impacto psicológico sobre os deslocados é tão ou mais severo do que o causado pelas perdas materiais.

A pior crise humanitária fora da África
A situação na Colômbia é tão grave que o Alto Comissionado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) abriu um escritório no país especialmente para tratar do tema dos deslocados. De acordo com um relatório da agência  chamado “Tendência Mundiais sobre Refugiados 2005”, o número global de refugiados em todo o mundo chegou ao seu nível mais baixo em 26 anos. Por outro lado, as cifras de deslocados internos aumentou, passando de 5,3 milhões de pessoas em 2004 para 6,6 milhões em 2005. Aí estão incluídos os números da Colômbia.
 
Justamente para lembrar ao mundo a situação de desespero em que vivem os refugiados, a Acnur lança hoje uma campanha mundial chamada “Nine Million” estrelada pelo Ronaldo “Fenômeno”. A Nike e estras empresas estão apoiando e a idéia é garantir que crianças refugiadas possam ter uma chance de “aprender e brincar” e para isso vão ganhar bolas de futebol. O site da campanha está aqui e nele se pode assistir ao comercial estrelado pelo Ronaldo (o comercial está abaixo).
 
Seja como for, esta campanha dificilmente mudará o fato de que o desastre humanitário que vive a Colômbia seja quase um segredo aos olhos do mundo e da região. É uma das “emergências esquecidas”, assim chamadas pelas agências humanitárias porque não chamam a atenção da mídia. Recentemente o porta-voz da Acnur, William Spindler, qualificou a situação colombiana como “a pior crise humanitária do mundo fora da África”. Para as pessoas que têm suas vidas destruídas e viradas de cabeça para baixo sobram apenas as promessas do governo colombiano e a esperança de ter seus dramas lembrados pelo menos uma vez por ano, no Dia Mundial dos Refugiados.

Para saber mais
Página da Acnur

Campanha Nine Million

Página do Comitê Internacional da Cruz Vermelha sobre Deslocados Internos

Vídeo da campanha Nine Million com o Ronaldo


Tem de engolir! June 16, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 4comentários

Pronto com a acachapante vitória de 6 x 0 da Argentina sobre a Sérvia-Montenegro vai começar a empulhação na imprensa dizendo que na verdade eles é que estão com a bola toda, que estão jogando o melhor futebol da Copa, que o Brasil tem de tomar cuidado, que o verdadeiro futebol arte este ano está com eles, que sei lá, que não sei mais o quê, e por aí vai.

Vai ser duro aturar as análises da Globo repetidas ad nauseum pelas notícias produzidas pelo trem da alegria de mais de 400 profissionais que a emissora enviou para a Alemanha. Isso sem falar de toda a imprensa internacional. Acho que vou tirar o som da TV quando começarem a pipocar as “análises”.

Mas uma coisa há que se reconhecer: tudo bem que a Sérvia-Montenegro era um adversário de amistoso, mas a Argentina realmente jogou bem. Vamos ver se isto põe um pouco de raça na nossa equipe para o domingo.

 

Gerundiando e andando… June 15, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentários

Estou em Brasília por duas semanas a trabalho e já na chegada senti o impacto que tem um jogo do Brasil no cotidiano. Nem lembrava mais como era porque na copa anterior já estávamos vivendo em Lima. Primeiro entrei na roda viva da moribunda Varig e peguei um vôo atrasado de Lima para São Paulo e outro vôo ainda mais atrasado (cinco horas) de Sampa para Brasília. Tive até sorte de que os vôos não foram simplesmente cancelados. Mas pensei que ia acabar voando justamente na hora do jogo do Brasil. Mas o verdadeiro impacto de regressar ao Brasil tive quando recomecei a escutar em todo lugar essa praga do gerúndio telemarketeiro, que agora é usado até por motorista de táxi.

No hotel:
- Estou com problema com a conexão à internet. Poderiam me ajudar?
- Claro, senhor, eu vou estar enviando um técnico agora mesmo…
- Ah, obrigado, então eu vou estar esperando por ele.

E o pior é que acho que a recepcionista não entendeu a piada.

No táxi:
- Por favor, para o hotel tal…
- Sim, senhor, eu vou estar seguindo pelo caminho tal por causa do trânsito, está bem?
- Está bem, eu vou estar torcendo para chegar antes do jogo, então…
- Sim, senhor.

Definitivamente ele não entendeu a piada também.

No restaurante:
- Por favor, pode trazer uma nota?
- Sim, senhor, eu vou estar pedindo ao caixa para fazer a nota.
- Obrigado, eu vou estar aqui esperando…

É melhor eu estar parando aqui de fazer piadas porque corro o risco de acabar incorporando o gerúndio sem querer também… Vou acabar sendo eu o alvo de piadas…

Para finalizar aqui tem uma matéria bem interessante do UOL Online sobre as promoções oferecidas pelos inferninhos paulistas para os amantes do futebol durante os jogos do Brasil. Pensando bem, faz todo o sentido.

Aleluia, São Dida! June 13, 2006

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Está todo mundo sentando o pau na seleção. Nunca estamos satisfeitos. Ganhamos, mas a vitória teve um gosto de derrota porque não jogamos tão maravilhosamente como se esperava. Enfim, o importante é que no final ganhamos, apesar de o “Ronaldao” ter empacado em algum ponto invisível do campo. A tarde foi do Kaká e do “São” Dida, este sim o verdadeiro herói do jogo.
 
Abaixo o flagrante de uma torcedora em Brasília logo depois do fim do jogo (é só teclar na foto para ampliar).

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Peruanos param para ver Ronaldinho June 12, 2006

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O Peru não conseguiu se classificar para a Copa do Mundo, a pesar dos heróicos esforços de Paulo Autuori. Mas nem por isso o país está indiferente ao que passa na Alemanha. Já que não podem torcer pela sua seleção, os peruanos adotaram o time brasileiro como seu preferido. Ou melhor, adotaram a Ronaldinho, como se pode ver na foto abaixo (tecle nela para ampliar) tirada em uma das principais avenidas de San Miguel, importante bairro (ou “municipalidad”, como chamam aqui) de Lima. Dá-lhe Ronaldinho-o-o-o-o!

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Faroeste caboclo na Amazônia June 12, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 5comentários

No Fantástico deste domingo, uma reportagem muito boa sobre o ataque sofrido por ativistas do Greenpeace quando protestavam contra a destruição da Amazônia perpretada pela expansão da fronteira agrícola floresta adentro para o plantio de soja. As cenas mostram a polícia apontando suas pistolas para ativistas desarmados e funcionários da transnacional Cargill atacando outros ativistas que protestavam no porto da empresa em Santarem. As imagens documentam o ponto em que chegou o faroeste caboclo na Amazônia em geral e no estado do Pará, em particular, protagonizado por transnacionais, agroexportadores e autoridades públicas.
 
Uma parte essencial da estratégia usada por esta curriola mancomunada para destruir a floresta em nome do “desenvolvimento” da região amazônica é tentar manipular a opinião pública contra os ativistas do Greenpeace e de outras organizações locais e internacionais. Para isso, são mobilizados sindicatos rurais, estudantes universitários, funcionários públicos, líderes de opinião, militares, associações comunitárias e por aí vai em uma tentativa de mostrar que existe uma unidade da população em favor do “desenvolvimento” e contra as organizações “estrangeiras” que estariam tentando, na verdade, manter a Amazônia em uma situação de pobreza.
 
Tudo isso movido a muito, muito dinheiro. A expansão da fronteira agrícola para o plantio de soja é, sem dúvidas, um negócio muito lucrativo. O problema é que seus benefícios não chegam a quem mais necessita, justamente as populações locais. Mas elas no fim são as que sofrem as conseqüências da desflorestacao e da concentração de terras.
 
Para saber mais vale a pena visitar o blog do Greenpeace sobre a Amazônia aqui.
 
Neste link dá pra ver a sequencia filmada do policial apontando uma pistola para o ativista do Greenpeace.

A chicha boliviana e seu ingrediente secreto June 8, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 6comentários

Tenho um tio que sempre dizia, quando eu era criança, que se eu soubesse como era feita a sardinha em lata nunca mais iria comer o peixe industrializado. Desde então procuro não perguntar muito como é o processo de fabricação das comidas e bebidas que fazem o nosso dia-a-dia. Aliás, tenho o espírito bastante aberto e gosto de experimentar paladares diferentes e exóticos. Por isso tirei de letra uma das experiências mais interessantes que tive em uma viagem à Bolívia.

Havia ido visitar uma comunidade indígena distante umas 10 horas de carro de Santa Cruz de la Sierra. Fica bem no meio de uma área de litígio entre os indígenas chiquitanos e invasores de todo tipo, desde mineradores até madeireiras ilegais. A comunidade recebeu a mim a meus companheiros de viagem como sempre de maneira muito hospitaleira na capela local, que serve também de salão de reuniões.

O líder indígena que nos recebeu fez as apresentações devidas e nos convidou a tomar a bebida típica da comunidade, chamada chicha. Na hora pensei: “Está tudo muito bem, mas onde estou amarrando o meu burro”. Só que não havia como escapar, porque e repente uma das senhoras apareceu com um pequeno balde e três copos de aspecto suspeito, um para cada um dos visitantes. Ela calmamente afundava o copo no balde e o entregava para cada um de nós. Nisso, todo mundo olhando. Acho que intimamente estavam duvidando que fôssemos tomar a bebida.

Como eu já havia me convencido de que não havia como escapar, dei logo uma golada e pronto. Não digo que fosse ruim. A bebida tinha o aspecto branco-leitoso e o gosto era estranho, com um sabor distante de amendoim. Não era doce, nem salgada, nem amarga. Não dá para descrever. Enrolei um pouco, tomei metade do copo e comecei a tirar fotografias, para ver se me esqueciam. Deu certo.

No caminho de volta para Santa Cruz, conversa vai, conversa vem e o nosso guia explicou como era feita a chicha. Preparados? Primeiro a bebida é feita puramente de milho, não tem nada de amendoim. Já estranhei porque jurava que tinha um gosto de amendoim e meus companheiros concordaram com esta impressão. Pois bem, as mulheres da comunidade se reúnem para moer o milho, o acondicionam em um recipiente especial e acrescentam água para fermentar. Até aí tudo bem.

O segredo mesmo era a etapa seguinte do processo de fabricação da chicha. Quando a mistura de milho triturado e água está fermentando, todas as mulheres juntas e de maneira ritual começam a pegar bocaditos da mistura, botar na boca, mastigar bem e cuspir em outro recipiente. Ao total desta mistura cuspida se acrescenta mais água e se deixa fermentando por mais tempo. Daí surgiu a chicha com que eu e meus companheiros nos deleitamos naquele dia.

É uma bebida de alto teor energético e que traduz o espírito de unidade da comunidade. Todos plantam e colhem o milho, as mulheres se reúnem para preparar a bebida, que é levada pelos homens e adolescentes quando saem para suas tividades de caça ou plantio. Para mim a mior preocupação não era tanto pelo processo de “fabricação” da chicha, mas sim pela qualidade da água utilizada, que obviamente vinha do poço usado pela comunidade. Mas no fim das contas foi tudo bem, não passamos mal, não afrontamos a hospitalidade da comunidade e ficamos com uma história curiosa para contar.

Ah, minha teoria é de que o gosto de amendoim se deve à saliva das mulheres chiquitanas. É o componente secreto.

Fantasma de Chávez assombra política peruana June 7, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 1 comentário até agora

O presidente Hugo Chavez continua sendo um personagem de destaque na política peruana, apesar de estar mantendo silêncio sobre o resultadao das eleções no Peru, depois de ter até “rezado” para que Ollanta Humala fosse eleito. Segundo notícias divulgadas hole pela imprensa peruana, Alan Garcia não estaria pensando em convidar Chavez para a cerimônia de posse, no dia 28 de julho. Esta informação é extra-oficial e não foi confirmada pelo presidente eleito.

Na verdade, o próprio Alan Garcia, que foi chamada de “ladrão”, “desonesto” e “corrupto” por Chavez faz menos de um mês, já está ensaiando uma aproximação com o presidente venezuelano. Garcia disse em entrevistas que quer manter com a Venezuela “boas relações com respeito”. Disse até que não está interessado em liderar um movimento continental contra Chávez. As relações diplomáticas entre os dois países estão suspensas faz mais de um mês, mas existe já um intenso trabalho de bastidores para encontrar uma maneira de aproximar os dois países sem que pareça que ambos mandatários estão “recuando” em suas posições.

E até o presidente que está saindo, Alejandro Toledo, autêntico “dead man walking”, está tentando tirar uma casquinha do imbróglio Chavez vs Garcia. Em uma entrevista concedida à Folha de São Paulo disse que após deixar o cargo será um “guerreiro contra o populismo barato dos petrodólares”. Não é uma piada. Mas ele também disse em outra ocasião que às vésperas da posse do novo presidente já está escutando gente pedindo que “não se vá”. Por isso está pensando em candidatar-se de novo em 2011. Dizem que Toledo tem uma queda pelo álcool (de preferência etiqueta azul). Isso explicaria estas “vozes” que ele diz escutar.

Abaixo uma charge publicada hoje pelo diário La República mostrando Alan Garcia cumprindo suas promessas de campanha…

 

Eleições no Peru - O desânimo pós-eleitoral June 6, 2006

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Com 95,6% das mesas de votação já apuradas, Alan Garcia está com 52.5% dos votos e Ollanta Humala com 47.5%. Houve 7.13% de votos anulados e 1.04% em branco. Na manhã seguinte às eleições, Lima acordou cinza e fria, como sempre, e ficou assim durante todo o dia. Isto se refletiu claramente no ânimo das pessoas. À parte os simpatizantes do APRA, não havia sinais de festa pela vitória de Alan Garcia. As pessoas têm consciência de que votaram pelo “mal menor” e estão na expectativa para ver o que vem por aí. No mais, cada um tratou de cuidar da sua vida.

Eleições no Peru - Update 2: Alan Garcia é o novo presidente June 4, 2006

Postado por tordesilhas em : Política , 4comentários

Nota 1: A ONPE, organismo que controla o processo eleitoral peruano, acaba de divulgar (às 21:30 - hora do Peru) números oficiais de apuração segundo os quais, com 77% de votos apurados, Alan Garcia tem 55% e Ollanta Humala, 45%. Isto confirma os resultados da boca de urna, mencionados a seguir. 

Um país literalmente dividido ao meio. Esta pode ser uma primeira interpretação dos resultados do segundo turno das eleições presidenciais no Peru. Segunda as pesquisas de boca de urna Alan Garcia, do Partido Aprista Peruano, é o novo presidente do país com algo ao redor de 53% dos votos válidos. Seu oponente, Ollanta Humala, ainda de acordo com as pesquisas, receberia cerca de 43% dos votos.

A ONPE, órgão que administra o processo eleitoral peruano, já disse que se deve tomar muito cuidado com estas pesquisas. Mas segundo o “avanço da contagem” do Instituto Apoyo, baseado em uma amostra dos resultados da apuração das mesas eleitorais, os números das pesquisas de boca de urna estariam sendo confirmados em todo o país.

Baseado neste avanço de contagem eu preparei um mapa do Peru de acordo com a vitória que deve obter Alan Garcia e Ollanta Humala em cada região (equivalentes aos nossos estados). A imagem mostra muito graficamente, do ponto de vista político-eleitoral, o país que está emergindo destas eleições. A parte costeira e mais privilegiada deu seus votos a Garcia, enquanto que o interior (Andes e parte amazônica), claramente respaldou as propostas humalistas.

Em algumas regiões como Cusco, Puno e Apurimac, Ollanta Humala deve receber até 75% dos votos, se se confirmam as pesquisas de boca de urna. Em Ayacucho, uma das regiões mais pobres do país e duramente atingida pela guerra interna promovida pela guerrilha do Sendero Luminoso, Ollanta pode chegar a receber 85% dos votos. Outro dado interessante, que mostra o avanço dos humalistas, é que em Piúra, no norte do país, tradicional bastião do APRA, Ollanta pode chegar a receber entre 45% e 47% dos votos.

Portanto, se os números se confirmam, Alan Garcia deverá sua vitória fundamentalmente aos votos da parte do país que historicamente foi mais privilegiada do ponto de vista econômico, social e político. É a região mais densamente povoada e a que está de frente para o mar, com todas as implicações do ponto de vista de exportações, acesso a infraestrutura e investimentos financeiros. O Peru é um país extremamente centralizado em Lima e não há dúvidas que os cerca de 63% dos votos que Alan Garcia receberá na capital farão toda a diferença para ele.

O desafio, como já disse em meu post anterior, é que uma parte significativa destes votos não lhe pertence e lhe foram dados para evitar que a “besta do apocalipse” Ollanta Humala chegasse ao poder. Qual será o preço que o candidato aprista terá de pagar para que estes votos se transformem em apoio consistente no Congresso é o que veremos nas próximas semanas. Por outro lado, daqui a alguns meses haverá eleições regionais e municipais e é de se esperar que a supremacia alcançada pelos humalistas no interior do país se repita, ao menos em parte. 

Um chamado de atenção
O que fica são algumas mensagens claras que o “Peru profundo” está mandando para a elite política e econômica que gravita ao redor de Lima: a situação de exclusão não pode continuar mais; já está na hora de repartir do bolo do crescimento econômico que tem dado ao Peru as mais altas taxas de crescimento da América do Sul.

Se Unión por el Peru (UPP), o partido de Humala, consegue se consolidar, fazer bom uso  de sua maioria no Congresso e se transformar no porta-voz desta demanda histórica, realmente se pode prever que Alan Garcia vai ter momentos duríssimos pela frente.

O virtual novo presidente já sabe o que o espera. Em um discurso três horas depois de encerrada a votação e anunciados os resultados da boca de urna, ele disse que reconhece a mensagem dada pelos departamentos do sul peruano, que votaram majoritariamente em Humala, e garantiu que seu governo investirá mais para superar a pobreza e exclusão que historicamente tem relegado estas regiões ao segundo plano.

Também tratou de reforçar a imagem de “anti-chavez” dizendo que sua vitória significa um rechaço dos peruanos à intromissão do presidente venezuelano e à “submissão” do Peru ao projeto político chavista. Será interessante ver como ficarão as relações entre os dois paises a partir de agora. Hugo Chavez prometeu há alguns dias romper as relações com o Peru caso Alan Garcia ganhasse a presidência, não sem antes chamar o então candidato peruano de “ladrão”, “desonesto” e “troglodita”. Cumprirá sua promessa?

O certo é que Lula ganha um aliado de primeira hora em seu projeto de liderança regional. Alan Garcia já disse que vai continuar estreitando as relações econômicas e políticas com o Brasil, dando continuidade a algo que já vinha sendo feito por Alejandro Toleto. O time da “esquerda boa”, para usar a controversial dicotomia proposta pelo ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, acaba de ganhar um jogador de peso.