Salvem a Babel May 12, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , deixe teu comentárioA partir de hoje estou colaborando no blog coletivo Bombordo. Escrevi um artigo sobre a importância de se preservar as línguas faladas no planeta e como a Unesco está desenvolvendo uma importantíssima iniciativa para para pesquisar e preservar as línguas ameaçadas (estima-se que 40% das 6.000 línguas faladas atualmente vão desaparecer nos próximos 50 a 100 anos).
Para ler mais é só teclar aqui.
O bicho-papão venezuelano May 9, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentáriosHugo Chavez está em todas. O padrinho do “Eixo do Mal” vai bem além das tertúlias com Evo Morales e Fidel Castro e sua influencia, direta ou indireta, se sente em toda América Latina. Chavez virou, por artes próprias ou de seus opositores, no bicho-papão das frágeis democracias do continente e sua influência se faz sentir com força nas campanhas presidenciais de três importantes países da América Latina: México, Peru e Nicarágua.
No México, os candidatos conservadores à presidência da república fazem uma campanha cerrada procurando associar a imagem de Andres Manuel Lopez Obrador, candidato de esquerda até há pouco tempo franco favorito nas pesquisas, com Hugo Chavez. O temor que se tenta vender é que votar em Obrador significaria botar uma espécie de “neo-chavez” na presidência, afetando a estabilidade econômica do México. A campanha parece estar dando certo, porque pela primeira vez em três anos, Lopez Obrador aparece em segundo lugar nas pesquisas de opinião.
No Peru, já ouve até bate-boca entre Chavez e o candidato Alan Garcia, que foi chamado pelo primeiro de “escroque, ladrão e vendido para os americanos”. Como resultado, o Peru retirou seu embaixador na Venezuela, que respondeu na mesma moeda, retirando seu diplomata de Lima. Hugo Chavez apóia abertamente o candidato ultra-nacionalista Ollanta Humala. A temperatura está tão quente que no fim de semana o atual presidente Alejandro Toledo disse que o segundo turno peruano será uma disputa entre a democracia e o autoritarismo. Por conta disso levou um puxão de orelhas da justiça eleitoral e deverá ser processado.
Finalmente, outro país em que a influência de Chavez, desta vez mais real, é peça chave na campanha presidencial é a Nicarágua. O ex-presidente Daniel Ortega, apoiado abertamente pelo presidente venezuelano, é favorito pelo partido sandinista para as eleições deste ano. Em função disso, os americanos deixaram de lado as sutilezas. O embaixador ianque Paul Trivelli “convocou” os dois principais partidos de oposição (os conservadores Liberal Constitucionalista – PLC e a Aliança Liberal Nacional - ALN) a se unir para apresentar um candidato único, capaz de bater Daniel Ortega. Trivelli também “aconselhou” ao PLC a distanciar-se de seu principal dirigente, o ex-presidente Arnaldo Alemán, condenado a 20 anos de prisão por lavagem de dinheiro.
Obviamente este espetáculo de intervencionismo gerou reações pesadas, inclusive por parte dos dirigentes do PLC. Mas o solícito ministro das relações exteriores nicaragüense, Norman Caldera, tratou logo de explicar que o “exabrupto” (ou seja, o fora) do embaixador americano não foi uma ingerência porque, afinal, esta apenas se dá “quando existe uma intervenção armada”. Em sua opinião se trataria apenas do direito de Trivelli de exercer sua liberdade de expressão. E para deixar claro sua posição, arrematou dizendo que o diplomata americano pode dizer o que vier a sua cabeça porque, afinal, os Estados Unidos doam para a Nicarágua mais de US$ 500 milhões por ano. Então, tá, agora entendi.
Em todo caso, a desconfiança sobre o protagonismo de Chavez na Nicarágua no caso de um governo sandinista faz sentido. Além de já ter declarado formalmente seu apoio a Daniel Ortega, ele foi mais além: ofereceu petróleo a baixo custo para os prefeitos ligados ao Partido Sandinista. Na verdade, será criada uma empresa chamada Alba Petróleos de Nicarágua com capital misto de uma filial da empresa petroleira estatal venezuelana (PDVSA) e da Associação de Municípios nicaragüense para garantir o negócio.
É o poder dos petrodólares pavimentando a liderança continental de Chavez. E ele está gostando tanto da coisa que no fim de semana prometeu impor um referendo que lhe dê condições de permanecer no poder até 2031, caso a oposição venezuelana insista em não apresentar um candidato à presidência nas eleições deste ano.
E a m… não para de voar na direção do governo May 6, 2006
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A força da calúnia May 5, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 4comentários“Os ataques que sofremos Eliane, Helena e eu talvez sejam os mais graves, mas não são os primeiros que o sr. Mainardi lançou recentemente contra jornalistas. Nos últimos meses, semana sim, semana não, pelo menos duas dúzias deles, foram vítimas de investidas absolutamente desrespeitosas, carregadas de insinuações capciosas contra suas atividades e carreiras. Mas como ninguém deu pelota para os arreganhos do rapaz – nem os jornalistas, que simplesmente não o levam a sério, nem os leitores da “Veja”, que já se cansaram de ver um anão de jardim querendo passar-se por um gigante da crônica política –, o sr. Mainardi decidiu aumentar o calibre de seus ataques. E partiu para a difamação pura e simples.”
Este é um trecho do post que o jornalista e comentarista político Franklyn Martins escreveu em seu blog respondendo às difamações publicadas pelo colunista Diogo Mainardi na Veja de 19 de abril. Mainiardi havia acusado a Franklin e também as jornalistas Helena Chagas, do Globo, e Eliane Cantanhede, da Folha, de terem relações espúrias com o poder. Evidentemente Mainairdi não prova nada do que diz e usa de calúnia pura e simples para jogar a m… no ventilador e ver para onde se espalha. O texto completo da resposta de Franklin Martins está aqui.
Hoje foi anunciado que a Globo resolveu não renovar o contrato com Franklin Martins.
Uma palavra vale mais… May 5, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 4comentáriosA foto abaixo está, com grande destaque, na capa do Globo de hoje. É inegável o senso de oportunidade do editor. Nao pude deixar de rir e pensar que se eu fosse o editor também nao teria deixado passar esta chance. A assessoria do Lula deve estar arracando os cabelos….

A Mulher Loura e as lendas urbanas… May 5, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 12comentáriosEu tenho fascinação por lendas urbanas. A mais famosa da minha infância era a da “mulher-loura”. Diziam que uma tal “mulher-loura” vivia zanzando pelos banheiros das escolas. Quando alguma criança precisava sair da sala de aula sozinha para ir ao banheiro corria o risco de se deparar com a tal mulher e desaparecer para sempre. Era o horror psicológico a serviço da pedagogia: “não atrapalhe a aula saindo para ir ao banheiro, senão…”
Uma variante da lenda dizia que a tal mulher-loura tinha algodões no nariz e nas orelhas e que quando alguém tentava retirá-los saia sangue pelos respectivos orifícios. Supostamente ela morrera por falta de socorro após ter sido atropelada. Ela tinha um filho que também havia morrido no banheiro de uma escola após ter sido trancado por um dia inteiro. Agora voltava para vingar-se e só poderia descansar após ter matado sete crianças. O site Recife Assombrado traz, inclusive, a reprodução de uma reportagem publicada no Diário de Pernambuco, em 1978, dando conta do pânico causado em escolas do Rio de Janeiro pela aparição da tal “mulher do algodão”.
Eu me lembro de que o jornal O Dia, do Rio, tinha uma coluna chamada “Incrível, Fantástico, Extraordinário” que eu devorava. Era um repositório de lendas urbanas e histórias sobrenaturais que faria a delícia dos roteiristas de Além da Imaginação, outro programa, alías, do qual sou fã até hoje.
Também adorava quando eu e a molecada da rua nos juntávamos à noite e sempre tinha um adulto para contar histórias sobrenaturais e lendas urbanas. O jogo ali era ver quem ficava o tempo todo ouvindo as histórias sem sair correndo apavorado para a barra da saia da mãe. Era melhor ter pesadelo à noite do que ficar tachado de “mulherzinha, filhinho da mamãe.” Depois de um tempo eu já conhecia todo o estoque de histórias inexplicáveis.
Abaixo reproduzo uma que é um clássico. Fala da “Mulher na Estrada”. Quem nunca ouviu essa ou não conhece alguém que conhece alguém que conhece a pessoa que estava envolvida no incidente? Um site que cuida do tema é o Urban legends Archive. Não deixem de visitar também o Recife Assombrado, que traz uma coleção de histórias inexplicáveis, algumas passadas especificamente no nordeste.
Mulher da Estrada
O que dizer dessa história? Atire a primeira pedra aquele que nunca ouviu essa lenda! É clássica.
“A lenda conta que, em uma noite de nevoeiro em uma estrada de serras e curvas muito fechadas, um carro que passava pelo local deu socorro a uma mulher muito bonita que se encontrava à beira da estrada.
Pararam o carro e perguntaram á mulher o que estava acontecendo, e ela respondeu que o seu carro, onde estava ela o marido e seu filhinho, caiu na ribanceira e precisava de socorro.
Imediatamente as pessoas que estavam no carro que deu socorro desceram a ribanceira e chegando ao carro, o que eles viram? Adivinharam, era um homem e uma mulher mortos e um bebê ferido precisando urgentemente de socorro. Lógico que o corpo da mulher morta no carro era o mesmo da mulher que pedira socorro na estrada.
O espírito da mulher tinha ido à estrada pedir socorro para o seu filhinho que estava para morrer.”
Artigo sobre Bolívia - Nacionalização: “Ahora es cuando” May 3, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 7comentáriosO artigo abaixo sobre a nacionalização dos hidrocarbonetos na Bolívia está longo, mas espero que tenham paciência para lê-lo e comentá-lo.
A decisão da Bolívia de nacionalizar os hidrocarbonetos está gerando toda sorte de reações alarmistas e análises xenófobas, principalmente na imprensa brasileira. O interessante é que um artigo sobre o tema publicado nesta terça pelo jornal The Wall Street Journal, bastião da imprensa liberal pró-mercado, conseguiu ser muito mais equilibrado do que se poderia esperar, o que prova que ao menos o mercado internacional está acompanhando os fatos sem muita histeria.
É claro que o Brasil tem interesses muito maiores do que outros países, já que os investimentos da Petrobrás a tornam a maior empresa da Bolívia e responsável por 15% do PIB daquele país. Por isso mesmo, seria bom que as análises se aprofundassem um pouco mais sobre a realidade boliviana.
Um pouco de história
O processo de nacionalização dos hidrocarbonetos teve seu ponto de ignição em 2000, quando a cidade de Cochabamba se rebelou contra a decisão do governo de então de privatizar o sistema de abastecimento de água e esgoto. A concessão fora dada em condições mais do que camaradas à multinacional americana Bechtel, por meio da filial local Aguas de Tarucani. Da noite para o dia as tarifas subiram mais de 300%, sem que os moradores vissem uma melhora do serviço ou a ampliação da área de cobertura para as zonas mais pobres. Mas a parte pior ficou para os camponeses que viram seus sistemas seculares de irrigação ser expropriados e passaram a ter de pagar por um sistema de abastecimento que eles mesmos haviam construído.
A revolta não demorou a se fazer sentir. Inicialmente foi liderada pelos camponeses, mas logo se juntaram a população urbana, intelectuais, associações de bairros, estudantes, sindicatos e cocaleiros, que emprestaram ao movimento as técnicas para enfrentar a polícia. Toda esta diversidade foi liderada pela Coordenadora de Águas, dirigida pelo líder sindical Oscar Olivera.
Depois de dias de batalhas a chamada Guerra da Água foi vencida pela população e o processo de privatização foi revertido. A Bechtel teve de sair do país. Mas algo havia mudado. Conversei com Oscar Oliveira faz uns dias e ele lembrou de um momento que abriu seus olhos para o novo momento pelo qual passava o país. Logo depois do fim da Guerra da Água ele estava passando pela periferia de Cochabamba e viu que uma família ainda seguia bloqueando uma rua. Ele perguntou por quê seguiam ali e a mulher que liderava o grupo respondeu que embora a guerra tivesse sido ganha pelo povo, o seu marido seguia desempregado, ela tinha de trabalhar 12 horas para ajudar a sustentar a família, seus filhos não tinham acesso à água e à saúde. Era hora de dar um basta, o presidente tinha de sair, o país tinha de mudar.
Oscar imediatamente percebeu que o jogo agora era outro. Não se tratava simplesmente de acesso à água, mas de mudanças políticas estruturais. Estava claro que a população majoritariamente indígena da Bolívia estava chegando ao seu limite de tolerância com uma plutocracia que vinha dominando o país a ferro e fogo e usufruindo das riquezas geradas pelos abundantes recursos naturais sem tomar em conta as necessidades do povo. Não se pode esquecer que a Bolívia nunca conseguiu deixar de ser o país mais pobre da América do Sul, apesar de todas as promessas de sucessivos governos e de seus abundantes recursos naturais.
A mobilização não para
Nos anos seguintes a sociedade boliviana praticamente esteve mobilizada de maneira permanente. Os cocaleiros liderados por Evo Morales se transformaram em uma forca indiscutível e influente. Os indígenas, tanto da região andina, como da amazônica, conseguiram unificar seus discursos e criar um movimento comum inédito na história do continente. Diversos movimentos sociais ligados às juntas de vizinhos passaram a se organizar em todas as cidades do país, especialmente em El Alto, La Paz, Cochabamba e Santa Cruz. Ao mesmo tempo, os partidos políticos tradicionais perderam sua forca e representatividade. A tal ponto que uma reforma na lei eleitoral permitiu que movimentos sociais, desde que devidamente registrados, pudessem apresentar candidatos nas eleições.
Com esta conjuntura de fundo, Gonzalo Sánchez de Lozada, conhecido como “Goni”, ganhou as eleições de agosto de 2002 sobre Evo Morales por uma estreita margem de votos. Seu espanhol carregado com um forte sotaque americano e as medidas impopulares de aprofundamento do modelo neo-liberal aumentaram o fosso entre a vontade popular e o governo. Em fevereiro de 2003 uma tentativa de aplicar uma taxa sobre os salários resultou em uma nova revolta popular que deixou enfrentados a polícia e o exército e um saldo de 13 mortos.
Alguns meses depois, o país explodiu de novo. O governo de Sanchez de Lozada aparentemente foi incapaz de perceber o novo momento pelo qual estava passando a Bolívia e anunciou um projeto multimilionário de venda de gás boliviano ao Chile para processamento e posterior venda aos Estados Unidos. Esta foi a gota d´água que faltava. Misturaram-se sentimentos anti-chilenos que remontam à época da Guerra do Pacífico com a sensação de que o governo definitivamente governava para as transnacionais e não para o povo.
A cidade de El Alto foi a ponta de lança para a insatisfação popular. O motim, com cores de guerra civil, isolou La Paz e incendiou – literalmente - o país. O aeroporto internacional foi fechado assim como as principais vias de acesso à La Paz, que ficou sem distribuição de gás residencial, gasolina e alimentos. O governo mandou o exército para desbloquear os caminhos e escoltar comboios de caminhões-tanque que traziam gasolina e gás para a capital.
Um número incerto entre 58 e 100 civis morreram fuzilados quando os soldados atiraram contra a multidão armada de paus e pedras. Quando os mineiros saíram em marcha desde as cidades de Oruro e Potosi até La Paz viu-se que a situação iria chegar a extremos. Eles vinham trazendo o corpo de um companheiro morto durante os enfrentamentos contra o exército e – temia-se – dezenas de quilos de cabeças de dinamite.
Gonzalo Sanchez de Lozada não teve outro remédio que renunciar e escapar para os Estados Unidos. Seu vice-presidente, o jornalista e historiador Carlos Mesa, assumiu o governo prometendo cumprir as principais demandas dos movimentos sociais: nacionalização dos hidrocarbonetos e instalação da Assembléia Constituinte. A demora em levar adiante estas promessas resultou em nova crise, em junho de 2005, cuja solução foi a sua renúncia e a assunção ao poder de Eduardo Rodríguez, presidente da Corte Suprema (já que a população não aceitava que os substitutos imediatos, os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, assumissem a presidência). Eduardo Rodríguez assumiu o poder convocando eleições gerais, que afinal resultaram na vitória de Evo Morales.
Um indígena no poder
Evo assumiu a presidência com a promessa de cumprir as demandas dos movimentos sociais e com o objetivo de “refundar” a Bolívia. Sua promessa foi a de construir um país mais inclusivo e equilibrado, um país para “todos os bolivianos”, sem revanche ou perseguições. Isto por si só já foi algo revolucionário, se considerarmos que até pouco tempo (não mais do que 15 anos) os indígenas não podiam sequer ter acesso livre às zonas centrais de La Paz.
Agora, por que o tema de hidrocarbonetos é tão importante para os bolivianos? Basicamente porque não são idiotas e sabem que esta é uma das maiores riquezas que o país tem e que se bem administrada poder gerar recursos para um país ainda relativamente administrável, com seus cerca de 8,5 milhões de habitantes.
E por que nacionalizar? Porque a experiência histórica demonstra que a conjunção de governos corruptos com transnacionais ávidas por lucro rápido e certo resultou em muito poucos recursos realmente sendo investidos em favor da população.
Com todo este contexto em mente, arrisco algumas opiniões sobre o processo de nacionalização dos hidrocarbonetos:
1. Evo foi eleito com esta plataforma e nunca disse concretamente que não a cumpriria. A discussão era sobre seu alcance, mas dadas as suas vinculações com os movimentos sociais que o levaram ao poder, realmente não se poderia esperar menos do que ele fez.
2. Ele foi muito inteligente porque por um lado deu um sinal claro a tantos quantos o apóiam de que estava cumprindo com a sua promessa. Ao mesmo tempo abriu um prazo de 180 dias que lhe permite negociar os termos concretos desta nacionalização com as empresas interessadas.
3. Seu timing foi perfeito: O anúncio foi feito em uma data simbólica (o Dia do Trabalhador), quando completava 100 dias de seu governo, em um momento em que os hidrocarbonetos estão valorizados pelo mercado internacional e finalmente no dia em que começava a campanha eleitoral para a Assembléia Constituinte.
4. Aliás, a Constituinte é uma prioridade para o governo de Evo Morales, que aposta todas as suas fichas em refundar o país por meio de uma nova Carta Magna que mude a correlação de poder e os sistemas burocráticos feitos para proteger os interesses da elite até então dominante.
5. O assim chamado “radicalismo” da nacionalização não quer dizer muito para os bolivianos. Na verdade, grande parte da população não esperava menos do que isso. Simplesmente eles não têm nada a perder, já que nunca tiveram nada. As pressões econômicas e políticas que governos ou empresas possam fazer contra a Bolívia somente vão resultar em mais apoio popular a Evo Morales e a seu governo.
6. A Petrobrás e a Repsol YPF, as principais atingidas, vão acabar negociando com o governo boliviano. No caso da primeira a razão é que o Brasil não pode prescindir do gás que vem da Bolívia e mesmo que invista mais em obter fontes próprias, isso ainda vai levar alguns anos. No caso da Repsol, as jazidas que explora no país são praticamente as únicas que a empresa maneja em nível mundial e ela simplesmente não pode abrir mão do negócio de uma hora para a outra.
7. Mas o decreto de nacionalização foi inteligente ao não aumentar muito a pressão sobre as empresas de porte médio, cujo aporte ao estado boliviano vai aumentar pouco (dos atuais 50% para 60%). Ou seja, o mais provável é que estas empresas fiquem quietas para não chamar muito a atenção sobre si. Dividir para conquistar.
8. O uso do exército e da polícia pode parecer exagerado, mas se explica pelo contexto histórico boliviano. Ambas forças sempre foram usadas pelos governos de turno para reprimir as manifestações populares. Lembremos que foi o exército o responsável pelo massacre de El Alto em 2003. Dar-lhes a importante missão de garantir a ocupação territorial das jazidas de gás e petróleo significou envolver-lhes neste momento histórico. Evo destacou este fato diversas vezes em seus discursos, quando dizia que pela primeira vez na história da Bolívia ambas forcas estavam mobilizadas para proteger os interesses do povo boliviano e não das transnacionais.
9. A nacionalização tem de ser vista como um processo mais amplo e não como o capricho de um presidente “índio” de esquerda de um país de bananas, como alguns analistas e parte da mídia vêm tentando pintar. É parte de um processo histórico muito mais amplo do qual Evo Morales é líder e refém. Ele simplesmente não pode trair a vontade da imensa população que o pôs no poder. E eu ouvi de muita gente comum, em diversas partes do país a mesma coisa: que confiam em que Evo cumprirá sua promessa de construir um novo país, mas que se ele falhar não pensarão duas vezes em ir para as ruas fazer valer suas vontades. E na minha opinião Evo Morales está usando este imenso capital político de maneira muito mais inteligente e estratégico do que, por exemplo, o fez Lula quando podia.
Bolívia - Update 2 May 2, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentáriosUm post rápido respondendo aos comentários sobre a nacionalização dos hidrocarbonetos:
Pois é, pessoal, fiquei ontem na praça Murillo até o Evo chegar do périplo que estava fazendo pelos departamentos bolivianos mais importantes para explicar sua decisão de nacionalizar os hidrocarbonetos. Ele chegou umas 7:15 da noite e apareceu na bancada do Palácio Presidencial com todo o seu gabinete aí pelas 7:30 da noite. O frio estava de matar (uns 8 graus), mas ninguém arredou o pé. Ele parceria estar bem cansado, e fez um discurso relativamente rápido (uns 20 minutos), dada a importância do momento.
A notícia que temos é que todo o gabinete esteve reunido na noite anterior até as 3 da manha, parou para descansar um pouco e voltou a reunir-se de novo as 5 da manha. Com tudo isso conseguiram manter até o ultimo momento o segredo sobre as medidas que seriam anunciadas dentro de poucas horas. O clima foi tal que a própria TV estatal chegou a começar a armar um palco em El Alto, no local onde ele presumivelmente iria discursar pela manhà. O diretor operacional da TV (em que m eu tinha colado para saber noticias mais quentes) só ficou sabendo da mudança de planos quando eram umas 8:30 da manhã.
A notícia ainda era de que Evo iria para El Alto, mas para outro lugar, de onde partiria a marcha das organizações locais até La Paz. Fomos todos correndo para lá, onde estava reunida toda a imprensa, incluindo correspondentes internacionais, como o da Reuters. Quando deu 10:30 ficamos sabendo todos que Evo tinha viajado para o sul do país, de onde faria um importante pronunciamento (nesta altura o diretor operacional da TV estatal já tinha sumido, presumivelmente para coordenar o envio de uma equipe sua junto com o avião presidencial).
Evidentemente já imaginávamos que vinha chumbo grosso. Percepção reforçada pelo discurso do Ministro do Trabalho, que substituiu o presidente no evento em El Alto, no qual insistia que aquele seria um dia para entrar na história da Bolívia. Apertado pelos jornalistas ele não abriu a boca. As 12:30 já estávamos todos de volta à Praça Murillo. Não demorou muito fizeram um link com o Evo no momento em que ele lia o decreto supremo de nacionalização dos hidrocarbonetos.
O olhar de surpresa era evidente na cara de todos, até mesmo dos jornalistas. Realmente ninguém esperava este anúncio e com tal radicalidade. Do ponto de vista estratégico o timing foi perfeito, ainda mais porque ontem mesmo teve início a campanha política para as eleições da Assembléia Constituinte. E o governo está apostando todas suas fichas em “refundar” o país a partir de uma nova Constituição. Para isto é fundamental que seu partido, o MAS (Movimiento Al Socialismo), obtenha maioria, o que agora parece estar no papo.
Este aspecto estratégico tem que ser levado em conta para analisar o por quê deste anúncio neste momento e com tal estardalhaço (usando até o exército e a polícia). Enfim, estou escrevendo em texto com uma análise mais profunda.
Bolívia - UPDATE 1 - Evo anuncia nacionalização do gás e petróleo May 1, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 9comentáriosEstou escrevendo este texto desde a Praça Murillo, no centro de La Paz, onde está a sede do governo e do Congresso. A praça está tomada pelo povo que vibrou há pouco mais de uma hora quando os alto-falantes transmitiram o discurso de Evo Morales, desde o campo de gás de San Alberto, localizado a 100 kms da cidade de Tarija, no sul do país, anunciando a nacionalização total dos hidrocarbonetos. Foi um momento de júbilo coletivo. É muito difícil ficar indiferente a um momento como este, que certamente vai entrar para a história da Bolívia.
Logo depois de terminar seu discurso, no qual incitou a todo o povo boliviano a lutar junto para fazer valer os seus direitos, Evo Morales anunciou que estava saindo para liderar a ocupação militar dos campos de San Alberto e Sabalo, ambos controlados pela Petrobrás e responsáveis por 70% do gás exportado pela Bolivia. Ele anunciou que a empresa petroleira estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) vai tomar o controle total das empresas transnacionais que operam no país e pediu seus funcionários colaborem evitando casos de sabotagem.
A partir de agora, o estado boliviano vai ter controle total sobre as jazidas de petróleo e gás, atualmente explorados pelas empresas Repsol (Espanha), Petrobras (Brasil), British Gas e British Petroleum (Reino Unido) e Total (Francia).
Havia durante todo o uma expectativa sobre o conteúdo dos anúncios que faria Evo Morales em sua mensagem de 1º. de Maio. Na verdade, muita gente achava que ele se concentraria em temas trabalhistas, como o aumento do salário mínimo e a revogação de uma lei que dá direito absoluto aos empregadores de demitirem seus empregados a qualquer tempo, sem justificativa.
Por isso, a surpresa e o júbilo na cara das pessoas concentradas na Praça Murilo quando Evo anunciou sua medida más drástica destes 100 dias de governo. Nada mais foi do que o cumprimento de sua promessa de campanha, mas os termos do decreto de nacionalização foram mais radicais do que se esperava. O comentário é que as empresas terão de recorrer à arbitragem internacional ou simplesmente sair do país. Minha aposta pessoal é que vão acabar chegando a um acordo.
Enquanto escreve este texto rápido, escuto as músicas tradicionais tocadas para animar a multidão que está embaixo do sol inclemente de La Paz esperando a chegada de Evo Morales. Aí deverá ser um momento de catarse coletiva. Tento escrever algo mais tarde.
