Colômbia vota pela segurança May 27, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , trackbackUPDATE - E deu o que estava previsto: com cerca de 90% dos votos já apurados, Alvaro Uribe está reeleito presidente da Colômbia com 62,2%, enquanto Carlos Gaviria, do Pólo Democrático, fica em segundo (com 22,1%) e Horacio Serpa, do partido Liberal em terceiro (com 11,84%).
Tudo parece indicar que o atual presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, vai levar de goleada a reeleição neste domingo já no primeiro turno. As pesquisas de opinião indicam uma intenção de voto que beira os 60%, enquanto o principal candidato da oposição, Carlos Gaviria, receberia algo em torno de 20%.
Aparentemente a reeleição de Uribe já no primeiro turno representa uma aprovação por parte da população colombiana da sua política de “segurança democrática”. Sem dúvida, este é um aspecto importante que emerge destas eleições, mas também há outros pontos interessantes que tomar em conta.
Por exemplo, estas eleições vão consolidar a recomposição eleitoral da Colômbia. A coalizão de forças conservadoras agrupadas ao redor do que se convenciona chamar de “uribismo”, por um lado, e o surgimento de uma esquerda unida ao redor do Pólo Democrático Alternativo (PDA), novo partido que dá sustentação à candidatura de Gaviria, significa aparentemente o fim do domínio histórico de partidos tradicionais, como o Liberal, que até há poucos anos dominava o panorama político colombiano.
Campanha se polariza
Já na reta final da campanha começou a desenhar-se uma polarização muito clara do eleitorado, entre os que apóiam a Uribe e os que querem uma mudança radical nas soluções sendo empregadas para resolver a grave crise de segurança que paralisa a Colômbia por décadas. Esta polarização foi crescendo e se aprofundando ao longo das últimas semanas, o que resultou na subida de 20 pontos nas intenções de voto do candidato Carlos Gaviria.
Mas isto parece que não será suficiente para provocar um segundo turno. Uribe demonstra mais uma vez na prática o que significa o apelido de “presidente teflon” que lhe deram pela sua aparente imunidade as várias denúncias de corrupção e envolvimento de seu entorno de governo com os paramilitares.
O interessante é que segundo uma pesquisa de opinião publicada recentemente pelo jornal El Tiempo, a maioria (62,9%) da população quer que o novo presidente negocie com a guerrilha em vez de insistir em combatê-la e mais da metade dos entrevistados (57,4%) não acreditam que a desmobilização dos paramilitares signifique o fim do paramilitarismo. Ou seja, questionam a base da política de “segurança democrática” de Uribe, mas ainda assim vão reconduzi-lo a um segundo mandato na presidência da Colômbia.
Qual é o segredo do sucesso de Uribe? Uma análise publicada pela revista Semana indica os principais elementos simbólicos que estariam ajudando-o a manter-se no ápice da popularidade entre os colombianos: seu estilo austero, sua ética de trabalho e suas constantes manifestações de compromisso com a comunidade, além do sentido de autoridade que ele conferiu à Presidência.
Liberdade por segurança
Sem dúvida o tema da segurança é chave para entender o êxito de Uribe junto aos eleitores. Pesquisas de opinião indicam que algo em torno de 65% dos colombianos sentem que o país está mais seguro que no passado. Quase 80% apóia a política de negociar com os grupos paramilitares e 66% acredita que o governo é respeitoso com os direitos humanos. Uribe é visto como o candidato mais preparado para enfrentar os diversos problemas de segurança. Este é um ponto tão importante que a maioria dos entrevistados diz ser a favor de perder algumas liberdades desde que o resultado seja um país mais seguro.
E os números que Álvaro Uribe mostra parecem corroborar esta impressão apresentada por uma parcela significativa da população. As taxas de homicídios estão diminuindo continuamente desde 2002. O mesmo acontece com o número de seqüestros. O governo investiu bastante em melhorar as forças armadas, a polícia e o poder judicial, graças em grande medida aos recursos americanos dirigidos ao país pelo Plano Colômbia. O próprio Estado, por meio da polícia, está presente agora em todos os municípios do país. Até há pouco tempo havia cidades que estavam há anos entregues à própria sorte, sem nenhuma presença policial permanente.
A oposição, tanto a de esquerda como a de centro, encabeçada pelo Partido Liberal, no entanto, questiona estes números e a própria política de “segurança democrática” de Uribe. Carlos Gaviaria tem tentado desviar o foco da discussão para o que considera sejam os verdadeiros problemas colombianos, centralizados em uma enorme desigualdade social e uma pobreza crescente. Para ele, os problemas de segurança seriam “efeitos colaterais” da pobreza e da desigualdade. Assim, ao se investir recursos humanos e econômicos de maneira tão maciça no tema da “segurança democrática”, na verdade se estaria tentando evitar soluções de mais longo prazo que contrariariam os interesses dos grupos de poder econômico.
Carlos Gaviria já disse em diversas ocasiões que o presidente Álvaro Uribe havia criado uma espécie de “mundo virtual” para os colombianos, uma espécie de simulacro mediático que estaria na verdade ocultando a falta de segurança e a crescente deterioração dos direitos humanos no país. Até três meses atrás Gaviria parecia estar cantando para o vento. Mas o seu crescimento nos últimos meses, ao ponto de sair de um distante terceiro lugar para quase atrapalhar a eleição de Uribe já no primeiro turno, mostra que existe uma parcela do eleitorado colombiano insatisfeita com os rumos que o país está tomando.
Álvaro Uribe parece ter sentido um pouco o baque porque em um discurso neste sábado atacou fortemente a Gaviria dizendo que o país vai escolher neste domingo “se quer seguir com a Segurança Democrática como caminho para a paz ou retroceder para que o comunismo disfarçado entregue o país às FARC”. Uma apelação desnecessária que mereceu críticas de todos os lados.
Seja como for, a quase certa reeleição de Álvaro Uribe vai continuar posicionando a Colômbia em uma direção muito diferente de seus vizinhos da região, quase todos com governos de centro-esquerda ou de esquerda. Os Estados Unidos agradecem, é claro
Mais informações:
Do Tordesilhas: Na Colômbia, paramilitares estão no centro do jogo político
Do Columbian Journal: The rise of Colombian left
Da BBC em espanhol: ¿Por qué Uribe esl favorito?

Comments»
Bom dia, Renato!
pois então, estava preparando post pro domingão qdo recebi tua msg na lista, que tornou-se um incentivo a mais para publicação. Como prezo que cada um seja capaz de formar sua própria opinião, te linkei, já que meu post é plenamente durecionado a uma posição, hehehe. Muchas gracias
Queremos votar pela segurança, também! Parece piegas, Renato, mas, eu mesma vi o que os boatos fazem. Detonam o medo na população. Até aqui na ilha capixaba! Em Sampa foi na segunda. Por aqui foi na quinta. A ilha ficou deserta, e por volta de oito da noite era assustador ver o terror da cidade deserta. Sabe aqueles filmes de faroeste, quando vai acontecer um duelo?! Uma caricatura perfeita! Não só em Sampa, aqui também, nessa ilha querida. Quê fazemos?!
Salve, Renato.
Acabei de postar sobre o mesmo tema, particularmente como a imprensa brasileira tem feito uma leitura simplificada de Uribe na ânsia de mostrá-lo como modelo de política dura contra o terrorismo do crime organizado.
Você conhece o pessoal do Viva la Ciudadania, na Colômbia? Trabalho muito com eles em vários projetos, estão apoiando o Pólo Democrático do Gavíria.
Abraços
Olá Mauricio,
Nao conheco o trabalho do Viva La Ciudadania. Se puder, me passa mais informacao.