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Da seção “Coisas que eu queria ter escrito…” May 23, 2006

Postado por tordesilhas em : Cultura , trackback

Wells virou-se para os outros meninos e disse:

- Ei, olhem aqui alguém que diz que beija a mãe todas as noites antes de dormir.

Os outros meninos pararam para brincar e viraram-se, rindo. Stephen corou sob o olhar deles e disse:

- Eu não.

Wells revidou:

- Ei, olhem aqui alguém que diz que não beija a mãe antes de dormir.

Todos riram de novo. Stephen tentou rir com eles. Sentiu todo o corpo quente e confuso naquele instante. Qual seria a resposta certa para o caso? Tinha dado duas e Wells continuava rindo. Mas Wells devia saber a resposta certa, pois estava no terceiro estágio em gramática. Não gostava da cara de Wells. Fora ele quem o empurrara para dentro do fosso na véspera, só porque não quis trocar a sua caixinha de rapé pelo velho bastão de críquete dele, que já ganhara quarenta jogos. Foi uma coisa cruel, todos os meninos disseram isso. E como a água estava fria e gosmenta! E um dos meninos um dia tinha visto um grande rato pular lá dentro!

O limo frio do fosso cobriu todo o seu corpo e, quando tocou o sinal para a aula e as filas foram deixando o pátio, ele sentiu o ar frio do corredor através das suas roupas. Ainda tentava pensar em qual seria a resposta certa. Seria certo ou errado beijar a mãe? O que significaria isso, beijar? Sua mãe colocava os lábios no seu rosto; os lábios dela eram macios e molhavam-lhe o rosto; e eles faziam um pequeno barulhinho: um beijo. Por que as pessoas faziam isso com as duas faces?

Sentado na sala de estudos, ele levantou a tampa da carteira e mudou o número colado dentro, de 77 para 76. Mas as férias de Natal ainda estavam muito longe; um dia, porém, elas chegariam, porque a terra jamais parava de girar.

James Joyce (1882-1941) – Retrato do artista quando jovem.

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