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O bicho-papão venezuelano May 9, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , trackback

Hugo Chavez está em todas. O padrinho do “Eixo do Mal” vai bem além das tertúlias com Evo Morales e Fidel Castro e sua influencia, direta ou indireta, se sente em toda América Latina. Chavez virou, por artes próprias ou de seus opositores, no bicho-papão das frágeis democracias do continente e sua influência se faz sentir com força nas campanhas presidenciais de três importantes países da América Latina: México, Peru e Nicarágua.

No México, os candidatos conservadores à presidência da república fazem uma campanha cerrada procurando associar a imagem de Andres Manuel Lopez Obrador, candidato de esquerda até há pouco tempo franco favorito nas pesquisas, com Hugo Chavez. O temor que se tenta vender é que votar em Obrador significaria botar uma espécie de “neo-chavez” na presidência, afetando a estabilidade econômica do México. A campanha parece estar dando certo, porque pela primeira vez em três anos, Lopez Obrador aparece em segundo lugar nas pesquisas de opinião.

No Peru, já ouve até bate-boca entre Chavez e o candidato Alan Garcia, que foi chamado pelo primeiro de “escroque, ladrão e vendido para os americanos”. Como resultado, o Peru retirou seu embaixador na Venezuela, que respondeu na mesma moeda, retirando seu diplomata de Lima. Hugo Chavez apóia abertamente o candidato ultra-nacionalista Ollanta Humala. A temperatura está tão quente que no fim de semana o atual presidente Alejandro Toledo disse que o segundo turno peruano será uma disputa entre a democracia e o autoritarismo. Por conta disso levou um puxão de orelhas da justiça eleitoral e deverá ser processado.

Finalmente, outro país em que a influência de Chavez, desta vez mais real, é peça chave na campanha presidencial é a Nicarágua. O ex-presidente Daniel Ortega, apoiado abertamente pelo presidente venezuelano, é favorito pelo partido sandinista para as eleições deste ano. Em função disso, os americanos deixaram de lado as sutilezas. O embaixador ianque  Paul Trivelli “convocou” os dois principais partidos de oposição (os conservadores Liberal Constitucionalista – PLC e a Aliança Liberal Nacional - ALN) a se unir para apresentar um candidato único, capaz de bater Daniel Ortega. Trivelli também “aconselhou” ao PLC a distanciar-se de seu principal dirigente, o ex-presidente Arnaldo Alemán, condenado a 20 anos de prisão por lavagem de dinheiro.

Obviamente este espetáculo de intervencionismo gerou reações pesadas, inclusive por parte dos dirigentes do PLC. Mas o solícito ministro das relações exteriores nicaragüense, Norman Caldera, tratou logo de explicar que o “exabrupto” (ou seja, o fora) do embaixador americano não foi uma ingerência porque, afinal, esta apenas se dá “quando existe uma intervenção armada”. Em sua opinião se trataria apenas do direito de Trivelli de exercer sua liberdade de expressão. E para deixar claro sua posição, arrematou dizendo que o diplomata americano pode dizer o que vier a sua cabeça porque, afinal, os Estados Unidos doam para a Nicarágua mais de US$ 500 milhões por ano. Então, tá, agora entendi.

Em todo caso, a desconfiança sobre o protagonismo de Chavez na Nicarágua no caso de um governo sandinista faz sentido. Além de já ter declarado formalmente seu apoio a Daniel Ortega, ele foi mais além: ofereceu petróleo a baixo custo para os prefeitos ligados ao Partido Sandinista. Na verdade, será criada uma empresa chamada Alba Petróleos de Nicarágua com capital misto de uma filial da empresa petroleira estatal venezuelana (PDVSA) e da Associação de Municípios nicaragüense para garantir o negócio.

É o poder dos petrodólares pavimentando a liderança continental de Chavez. E ele está gostando tanto da coisa que no fim de semana prometeu impor um referendo que lhe dê condições de permanecer no poder até 2031, caso a oposição venezuelana insista em não apresentar um candidato à presidência nas eleições deste ano.

Comments»

1. Mauricio Santoro - 9 May, 2006

Salve, Renato.

Pelo que me consta, os preços do petróleo se multiplicaram em 7 vezes desde que Chávez assumiu a presidência, o que por si só o torna um formidável líder regional.

Além disso, a Venezuela também aproveitou com muita habilidade as lacunas da política externa brasileira, oferecendo alternativas ao modelo de integração do Brasil: a cartada da integração cultural (Telesur), a compra de títulos da dívida externa argentina etc.

Abraços

2. Leila - 9 May, 2006

Até 2031????