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Bolívia - UPDATE 1 - Evo anuncia nacionalização do gás e petróleo May 1, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , trackback

Estou escrevendo este texto desde a Praça Murillo, no centro de La Paz, onde está a sede do governo e do Congresso. A praça está tomada pelo povo que vibrou há pouco mais de uma hora quando os alto-falantes transmitiram o discurso de Evo Morales, desde o campo de gás de San Alberto, localizado a 100 kms da cidade de Tarija, no sul do país, anunciando a nacionalização total dos hidrocarbonetos. Foi um momento de júbilo coletivo. É muito difícil ficar indiferente a um momento como este, que certamente vai entrar para a história da Bolívia.

Logo depois de terminar seu discurso, no qual incitou a todo o povo boliviano a lutar junto para fazer valer os seus direitos, Evo Morales anunciou que estava saindo para liderar a ocupação militar dos campos de San Alberto e Sabalo, ambos controlados pela Petrobrás e responsáveis por 70% do gás exportado pela Bolivia.  Ele anunciou que a empresa petroleira estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) vai tomar o controle total das empresas transnacionais que operam no país e pediu  seus funcionários colaborem evitando casos de sabotagem.

A partir de agora, o estado boliviano vai ter controle total sobre as jazidas de petróleo e gás, atualmente explorados pelas empresas Repsol (Espanha), Petrobras (Brasil), British Gas e British Petroleum (Reino Unido) e Total (Francia).

Havia durante todo o uma expectativa sobre o conteúdo dos anúncios que faria Evo Morales em sua mensagem de 1º. de Maio. Na verdade, muita gente achava que ele se concentraria em temas trabalhistas, como o aumento do salário mínimo e a revogação de uma lei que dá direito absoluto aos empregadores de demitirem seus empregados a qualquer tempo, sem justificativa.

Por isso, a surpresa e o júbilo na cara das pessoas concentradas na Praça Murilo quando Evo anunciou sua medida más drástica destes 100 dias de governo. Nada mais foi do que o cumprimento de sua promessa de campanha, mas os termos do decreto de nacionalização foram mais radicais do que se esperava. O comentário é que as empresas terão de recorrer à arbitragem internacional ou simplesmente sair do país. Minha aposta pessoal é que vão acabar chegando a um acordo.

Enquanto escreve este texto rápido, escuto as músicas tradicionais tocadas para animar a multidão que está embaixo do sol inclemente de La Paz esperando a chegada de Evo Morales. Aí deverá ser um momento de catarse coletiva. Tento escrever algo mais tarde.

Comments»

1. Leila - 1 May, 2006

Uau, Renato, testemunhando um momento histórico! Você tem que mandar isso pros jornais brasileiros!

Estou curiosa para ver como vai se desenrolar isso. As empresas não vão engolir essa nacionalização facilmente, depois de todo o investimento que fizeram.

2. Marcus - 1 May, 2006

Testemunha ocular da história!

Terá sido mesmo necessária a ocupação militar? As empresas chegariam ao ponto de sabotar suas próprias instalações?

3. Renato Guimaraes - 1 May, 2006

Pois é, Leila e Marcus, testemunha ocular da historia! Acho que a ocupacao militar foi também uma jogada politica para mostrar quem está mandando. Ou seja, Evo literalmente matou a cobra e mostrou o pau.

Também estou curioso para ver como vai se desenrolar isso tudo. Certamente as empresas vao jogar pesado, mas o fiel da balanca vai ser mesmo a Petrobrás, que tem os maiores investimentos.

Vou voltar para a praça porque parece que o Evo está finalmente chegando para falar com o povo (ele está fazendo um périplo pelas principais cidades bolivianas explicando a nacionalizacao). Aliás, já está fazendo um frio do cão agora aqui em La Paz e o povo, que chegou as 9 da manha, segue paciente e alegremente esperando o Evo Morales (já sao 18:25).

Mais tarde tem mais update e vou ver se ponho algumas fotos.

Um abracao,

Renato

4. pat - 1 May, 2006

Renato, corri para o seu blog porque sabia que aqui iria encontrar notícia quentinha. Acertei. Deixe a gente informado, tá
abraço
pat

5. Vanessa - 1 May, 2006

É, mas a semana estava prometendo. A Bolívia foi manchete de jornal a semana inteira. Havia algo no ar…

6. Flavio Prada - 2 May, 2006

Ola Renato. Cheguei aqui através da lista blog-left. Acredito que tenha muita gente se perguntando sobre o que fazer agora. Principalmente nos escritórios das multinacionais. Ou já sentiam no ar que tinha algo? Bem, são especulações inúteis. O importante é o fato e voce está fazendo um relato importante como testemunha ocular. Parabéns. Vou acompanhar.

7. Cláudio Costa - 2 May, 2006

Também aqui cheguei via Blogleft. Sua “reportagem” sobre este momento histórico é muito valiosa, pois nos passa a perspectiva de quem está na hora e no local exatos. Agora é esperar para ver como as coisas se encaminharão. Acho que é possível um acordo entre as multinacionais e o governo boliviano. Parece que o Morales ofereceu 18% de rentabilidade sobre o investimento (ou sobre a venda dos hidrocarbonetos?). Aguardo mais e mais notícias.

8. Mauricio Santoro - 2 May, 2006

Renato, me junto aos comentários elogiosos. Receio, no entanto, que minha análise é um pouco mais pessimista. A decisão de Morales explodiu como uma bomba no Brasil. Os jornais são unânimes em acusar Lula e criticar por tabela a política de integração sul-americana. Fotos da ocupação militar das refinarias estão em destaque. Temo que Morales tenha iniciado uma crise internacional que possa fugir rapidamente ao controle.

Abraços

9. Marcus - 2 May, 2006

Eu li sobre o que o Maurício está falando. Só não entendo direito o foco das críticas.

É evidente que a integração latino-americana está por um fio, ainda mais com a decisão do Uruguai de deixar o Mercosul. Mas, a julgar pelo que a imprensa está falando, parece que o Brasil deveria se portar de forma ainda mais “imperialista” do que está fazendo. As pessoas dizem que o Brasil tem que jogar “duro” com a Bolívia, mas não tenho a menor idéia do que isso significa.