Maradona de verde e amarelo May 30, 2006
Postado por tordesilhas em : Esportes , deixe teu comentárioPois é, a contagem regressiva para a Copa já começou e enquanto a bola não rola de verdade, a Globo segue enchendo lingüiça para justificar a presença de tantos jornalistas e penetras na boca livre da Alemanha. Mas não consigo deixar de lembrar do impagável comercial do Guaraná Antarctica que a troca de “mucha plata” fez o Maradona vestir a camisa brasileira e cantar o hino do Brasil.
Para quem mora fora do Brasil e não viu o comercial ainda ou para quem quer revê-lo, é só dar uma olhada aí embaixo.
Colômbia vota pela segurança May 27, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 4comentáriosUPDATE - E deu o que estava previsto: com cerca de 90% dos votos já apurados, Alvaro Uribe está reeleito presidente da Colômbia com 62,2%, enquanto Carlos Gaviria, do Pólo Democrático, fica em segundo (com 22,1%) e Horacio Serpa, do partido Liberal em terceiro (com 11,84%).
Tudo parece indicar que o atual presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, vai levar de goleada a reeleição neste domingo já no primeiro turno. As pesquisas de opinião indicam uma intenção de voto que beira os 60%, enquanto o principal candidato da oposição, Carlos Gaviria, receberia algo em torno de 20%.
Aparentemente a reeleição de Uribe já no primeiro turno representa uma aprovação por parte da população colombiana da sua política de “segurança democrática”. Sem dúvida, este é um aspecto importante que emerge destas eleições, mas também há outros pontos interessantes que tomar em conta.
Por exemplo, estas eleições vão consolidar a recomposição eleitoral da Colômbia. A coalizão de forças conservadoras agrupadas ao redor do que se convenciona chamar de “uribismo”, por um lado, e o surgimento de uma esquerda unida ao redor do Pólo Democrático Alternativo (PDA), novo partido que dá sustentação à candidatura de Gaviria, significa aparentemente o fim do domínio histórico de partidos tradicionais, como o Liberal, que até há poucos anos dominava o panorama político colombiano.
Campanha se polariza
Já na reta final da campanha começou a desenhar-se uma polarização muito clara do eleitorado, entre os que apóiam a Uribe e os que querem uma mudança radical nas soluções sendo empregadas para resolver a grave crise de segurança que paralisa a Colômbia por décadas. Esta polarização foi crescendo e se aprofundando ao longo das últimas semanas, o que resultou na subida de 20 pontos nas intenções de voto do candidato Carlos Gaviria.
Mas isto parece que não será suficiente para provocar um segundo turno. Uribe demonstra mais uma vez na prática o que significa o apelido de “presidente teflon” que lhe deram pela sua aparente imunidade as várias denúncias de corrupção e envolvimento de seu entorno de governo com os paramilitares.
O interessante é que segundo uma pesquisa de opinião publicada recentemente pelo jornal El Tiempo, a maioria (62,9%) da população quer que o novo presidente negocie com a guerrilha em vez de insistir em combatê-la e mais da metade dos entrevistados (57,4%) não acreditam que a desmobilização dos paramilitares signifique o fim do paramilitarismo. Ou seja, questionam a base da política de “segurança democrática” de Uribe, mas ainda assim vão reconduzi-lo a um segundo mandato na presidência da Colômbia.
Qual é o segredo do sucesso de Uribe? Uma análise publicada pela revista Semana indica os principais elementos simbólicos que estariam ajudando-o a manter-se no ápice da popularidade entre os colombianos: seu estilo austero, sua ética de trabalho e suas constantes manifestações de compromisso com a comunidade, além do sentido de autoridade que ele conferiu à Presidência.
Liberdade por segurança
Sem dúvida o tema da segurança é chave para entender o êxito de Uribe junto aos eleitores. Pesquisas de opinião indicam que algo em torno de 65% dos colombianos sentem que o país está mais seguro que no passado. Quase 80% apóia a política de negociar com os grupos paramilitares e 66% acredita que o governo é respeitoso com os direitos humanos. Uribe é visto como o candidato mais preparado para enfrentar os diversos problemas de segurança. Este é um ponto tão importante que a maioria dos entrevistados diz ser a favor de perder algumas liberdades desde que o resultado seja um país mais seguro.
E os números que Álvaro Uribe mostra parecem corroborar esta impressão apresentada por uma parcela significativa da população. As taxas de homicídios estão diminuindo continuamente desde 2002. O mesmo acontece com o número de seqüestros. O governo investiu bastante em melhorar as forças armadas, a polícia e o poder judicial, graças em grande medida aos recursos americanos dirigidos ao país pelo Plano Colômbia. O próprio Estado, por meio da polícia, está presente agora em todos os municípios do país. Até há pouco tempo havia cidades que estavam há anos entregues à própria sorte, sem nenhuma presença policial permanente.
A oposição, tanto a de esquerda como a de centro, encabeçada pelo Partido Liberal, no entanto, questiona estes números e a própria política de “segurança democrática” de Uribe. Carlos Gaviaria tem tentado desviar o foco da discussão para o que considera sejam os verdadeiros problemas colombianos, centralizados em uma enorme desigualdade social e uma pobreza crescente. Para ele, os problemas de segurança seriam “efeitos colaterais” da pobreza e da desigualdade. Assim, ao se investir recursos humanos e econômicos de maneira tão maciça no tema da “segurança democrática”, na verdade se estaria tentando evitar soluções de mais longo prazo que contrariariam os interesses dos grupos de poder econômico.
Carlos Gaviria já disse em diversas ocasiões que o presidente Álvaro Uribe havia criado uma espécie de “mundo virtual” para os colombianos, uma espécie de simulacro mediático que estaria na verdade ocultando a falta de segurança e a crescente deterioração dos direitos humanos no país. Até três meses atrás Gaviria parecia estar cantando para o vento. Mas o seu crescimento nos últimos meses, ao ponto de sair de um distante terceiro lugar para quase atrapalhar a eleição de Uribe já no primeiro turno, mostra que existe uma parcela do eleitorado colombiano insatisfeita com os rumos que o país está tomando.
Álvaro Uribe parece ter sentido um pouco o baque porque em um discurso neste sábado atacou fortemente a Gaviria dizendo que o país vai escolher neste domingo “se quer seguir com a Segurança Democrática como caminho para a paz ou retroceder para que o comunismo disfarçado entregue o país às FARC”. Uma apelação desnecessária que mereceu críticas de todos os lados.
Seja como for, a quase certa reeleição de Álvaro Uribe vai continuar posicionando a Colômbia em uma direção muito diferente de seus vizinhos da região, quase todos com governos de centro-esquerda ou de esquerda. Os Estados Unidos agradecem, é claro
Mais informações:
Do Tordesilhas: Na Colômbia, paramilitares estão no centro do jogo político
Do Columbian Journal: The rise of Colombian left
Da BBC em espanhol: ¿Por qué Uribe esl favorito?
O anti-viagra musical May 25, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 4comentáriosUma das coisas mais chatas e constrangedoras para o adolescente do sexo masculino (além das espinhas e dos “nãos” das meninas) é ficar excitado na hora errada. Sério, os caras que estão lendo este post sabem do que eu falo. Quando você é adolescente os hormônios sempre cismam de atuar nas horas mais inapropriadas.
Tipo você está num ônibus, na sua, pensando em nada, e de repente percebe que está “com tudo em cima”. E o ponto geralmente já está quase chegando. Como é que você se levanta, passa pelo corredor cheio e salta sem dar pinta do seu estado de excitação involuntária? Mico certo. E não adianta tentar acomodar o “dito-cujo” ou botar a mão no bolso para disfarçar. Só chama mais a atenção.
Às vezes ficava até com medo de pegar ônibus porque sabia que era certo que, com o movimento do veículo, eu ficaria “ligado”. Ou então, em plena aula chata, não havendo nada de melhor para fazer, é claro que o “moleque” aproveitava para se manifestar. E o pior é que normalmente era justo antes de o professor mandar levantar-se para escrever algo no quadro. Mico à raiz quadrada.
Mas finalmente desenvolvi uma técnica que era infalível para me salvar desses momentos de arroubo hormonal adolescente. Sempre que o “amigo de baixo” cismava de manifestar-se em momentos inapropriados eu começava a cantar mentalmente a música “Casinha branca”. Lembram dessa? “Eu tenho andado tão sozinho ultimamente, que não vejo à minha frente, nada que me dê prazer…”
Não sei o que tinha nessa letra, mas posso garantir que funcionava. Antes de chegar à terceira estrofe o “moleque” já estava de volta quietinho ao seu estado de repouso e eu podia levantar-me do ônibus sem despertar olhares curiosos. Não me perguntem como descobri essa técnica, só sei que funcionava. O Gilson, autor da música, nem deve imaginar as propriedades broxantes da sua obra. Um verdadeiro anti-viagra musical!
O pior é que até hoje não posso ouvir esta música sem ter vontade de rir. Evidentemente ela está proibida no repertório de qualquer noite romântica. Lembrei-me dessa história porque estava um dia desses lendo um livro em que um dos personagens dizia que para salvá-lo em momentos como esse ele pensava em gatos mortos. No meu caso, uma letra que diz que queria ter “um lugar de mato verde pra plantar e pra colher” só podia broxar mesmo.
Da seção “Coisas que eu queria ter escrito…” May 23, 2006
Postado por tordesilhas em : Cultura , deixe teu comentárioWells virou-se para os outros meninos e disse:
- Ei, olhem aqui alguém que diz que beija a mãe todas as noites antes de dormir.
Os outros meninos pararam para brincar e viraram-se, rindo. Stephen corou sob o olhar deles e disse:
- Eu não.
Wells revidou:
- Ei, olhem aqui alguém que diz que não beija a mãe antes de dormir.
Todos riram de novo. Stephen tentou rir com eles. Sentiu todo o corpo quente e confuso naquele instante. Qual seria a resposta certa para o caso? Tinha dado duas e Wells continuava rindo. Mas Wells devia saber a resposta certa, pois estava no terceiro estágio em gramática. Não gostava da cara de Wells. Fora ele quem o empurrara para dentro do fosso na véspera, só porque não quis trocar a sua caixinha de rapé pelo velho bastão de críquete dele, que já ganhara quarenta jogos. Foi uma coisa cruel, todos os meninos disseram isso. E como a água estava fria e gosmenta! E um dos meninos um dia tinha visto um grande rato pular lá dentro!
O limo frio do fosso cobriu todo o seu corpo e, quando tocou o sinal para a aula e as filas foram deixando o pátio, ele sentiu o ar frio do corredor através das suas roupas. Ainda tentava pensar em qual seria a resposta certa. Seria certo ou errado beijar a mãe? O que significaria isso, beijar? Sua mãe colocava os lábios no seu rosto; os lábios dela eram macios e molhavam-lhe o rosto; e eles faziam um pequeno barulhinho: um beijo. Por que as pessoas faziam isso com as duas faces?
Sentado na sala de estudos, ele levantou a tampa da carteira e mudou o número colado dentro, de 77 para 76. Mas as férias de Natal ainda estavam muito longe; um dia, porém, elas chegariam, porque a terra jamais parava de girar.
James Joyce (1882-1941) – Retrato do artista quando jovem.
Ferrez é orbigado a fugir de São Paulo May 22, 2006
Postado por tordesilhas em : Brasil , deixe teu comentárioDeu no Globo de hoje:
SÃO PAULO - O rapper e escritor Ferréz foi obrigado a deixar o estado na noite deste domingo com a família devido às ameaças de morte que recebeu na semana passada. Ele acredita que elas tenham partido de policiais, depois que denunciou em seu blog que a polícia está promovendo um massacre.
“Estão fazendo da nossa periferia um estado para lá de nazista”, escreveu ele.
Ao longo da semana, Ferréz, líder comunitário do Capão Redondo, na zona sul, um dos bairros mais violentos da capital, começou a ser procurado por familiares de jovens. Eles relatavam que os parentes foram mortos por policiais.
Só no Capão Redondo teriam sido mortas 24 pessoas. Segundo o escritor, nenhuma delas tinha envolvimento com o crime organizado. Em todos os casos, os assassinos eram três homens que usavam toucas-ninja e saíam de um Palio ou de um Corsa atirando.
E o lixo continua… May 20, 2006
Postado por tordesilhas em : Mídia , deixe teu comentário“A edição nº 1956 de Veja (17/5/2006) transformou-se instantaneamente num clássico da impostura jornalística. A justificativa posterior, assinada pelo diretor de Redação Eurípedes Alcântara, não ficou atrás: é um clássico de cinismo. Juntas, convertem-se na bíblia do parajornalismo – combinação de chantagem, espionagem e paranóia.”
Este é um trecho do excelente artigo publicado por Alberto Dines no Observatório da Imprensa. Uma semana depois do atentado à credibilidade da imprensa no Brasil provocado pela Veja, a revista segue na sua campanha difamatória na edição desta semana. Ajudada, é claro, pelo silêncio conivente de grande parte da mídia. Até os bandidões do PCC e a polícia paulista, com a rebelião e a posterior repressão claramente criminosa, ajudaram a desviar a atenção da opinião pública para este tema.
Fico com o Dines quando diz que:
“Sem a ajuda de arapongas, espiões e malfeitores de alto ou baixo coturno Veja não consegue dar um passo [na direção da investigação jornalística]. Melhor seria que continuasse na esfera da celulite, impotência, incesto, longevidade, botox, infidelidade e espiritualismo – onde, aparentemente, lidera inconteste.”
Cruel May 19, 2006
Postado por tordesilhas em : Brasil , 2comentáriosPara variar, diante da ousadia e covardia da ação do PCC, não está faltando gente que dê o seu apoio à atuação indiscrimidada, incompetente e potencialmente criminosa da polícia paulista nestes últimos dias. Os últimos números indicam que 107 “suspeitos” foram mortos em supostos “confrontos” com a polícia. Nas ruas poeirentas da periferia paulista impera a lei do cão. Não é de se admirar que as pessoas tenham tanto medo da polícia, como dos bandidos.
De imediato me lembrei de um sambinha fantástico do Sérgio Sampaio, chamado “Polícia, bandido, cachorro, dentista” e que foi lançada no CD póstumo “Cruel”. Abaixo a letra da música:
Eu tenho medo de polícia, de bandido, de cachorro e de dentista
Porque polícia quando chega vai batendo em quem não tem nada com isso
Porque bandido quase sempre quando atira não acerta no que mira
Porque cachorro quando ataca pode às vezes atacar o seu amigo
Porque dentista policia a minha boca como se fosse bandido
Porque bandido age sempre às escuras como se fosse cachorro
Porque cachorro não distingue o inimigo como se fosse polícia
Porque polícia bandideia minha boca como se fosse dentista
Dentista, dentista…
“Polícia, bandido, cachorro, dentista” fica como dica musical para o fim de semana. Está aí embaixo para escutar.
O extermínio continua… May 18, 2006
Postado por tordesilhas em : Brasil , 6comentáriosUPDATE: Segundo o levantamento mais recente já sao 107 os “suspeitos” mortos…
Reproduzo aqui o apelo desesperado publicado no blog do Ferréz.
ATENÇÃO
Atenção a todos os amigos.
apelo a todos que acompanham esse blog, que nos ajude a dizimar o que está acontecendo.
a Policia Militar e a Policia Civil afetados com a onde de matança, estão fazendo da nossa periferia um estado prá lá de nazista, já são mais de 100 “suspeitos”assassinados, e nenhum deles é PCC .
Só de colegas, foram mortos 4, isso pra não contar os que estão no hospital.
nenhum deles tinha passagem, por isso apelo para que divulguem a real de que o acordo não foi feito com o povo, o povo tá morrendo, sendo baleado pelas costas, ao entregar pizza, ao voltar para casa.
a policia covarde, treme perante o olhar do ladrão, mas mata sem dó quem está simplismente voltando para casa.
isso é uma vergonha, e se é o trabalho deles, tá na hora dagente fazer o nosso, reagir com cidadania, mostrando que não queremos essa matança.
LEI MARCIAL PARA POBRES INOCENTES FOI DECRETADA.
Ferréz
A burguesia fede… May 18, 2006
Postado por tordesilhas em : Brasil , 2comentáriosAbaixo um dos melhores trechos da entrevista concedida pelo governador de São Paulo Claudio Lembo à jornalista Mônica Bergamo, da Folha. Está publicada no jornal hoje e pode ser lida aqui (só para assinantes do UOL). Sensacional esta entrevista… Tô quase começando a gostar do tal do Lembo, com sua cara de ator de filme de vampiro dos anos 20…
O Brasil tá de cabeça pra baixo, com os bandidões do PCC distribuindo manifestos políticos, a polícia passando o rodo a torto e a direito e um governador do PFL sentando o pau na burguesia (ou “minoria branca”)…
Folha - O senhor não se assusta com o número de mortos?
Lembo - Eu me assusto com toda a realidade social brasileira. Acho que tudo isso foi um grande alerta para o Brasil. A situação social e o câncer do crime é muito maior do que se imaginava. Este é o grande produto desses dias todos de conflito. Nós temos que começar a refletir sobre como resolver essa situação, que tem um componente social e um componente criminoso, ambos gravíssimos. O crime organizado trabalha com a droga. A droga é um produto caro, consumido por grandes segmentos da sociedade. Enquanto houver consumidor de drogas, haverá crime organizado no tráfico. É assim aqui, na Itália, nos EUA, na Espanha. O crime se alimenta do consumidor de drogas.
Folha - E da miséria…
Lembo - Talvez no Brasil tenha esse componente também. O crime organizado destruiu valores. O Brasil está desintegrado. Temos que recompor a sociedade. A questão social é muito grave.
Folha - O senhor é um homem público há tantos anos, está num partido, o PFL, que está no poder desde que, dizem, Cabral chegou ao Brasil.
Lembo -Essa piada é minha.
Folha - O que o senhor pode dizer para um jovem de 15 a 24 anos, que vive em ambientes violentos da periferia? Que ele vai ter escola? Saúde? Perspectivas de emprego? Como afastá-lo de organizações criminosas como o PCC?
Lembo -Acho que você tem duas situações muito graves: a desintegração familiar que existe no Brasil, e a perda… Eu sou laico, é bom que fique claro para não dizerem que sou da Opus Dei. Mas falta qualquer regramento religioso. O Brasil está desintegrado e perdeu seus valores cívicos. É ridículo falar isso mas o Brasil só acredita na camisa da seleção, que é símbolo de vitória. É um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais…Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa.
Folha - Que ficou assustada nos últimos dia.
Lembo -E que deu entrevistas geniais para o seu jornal. Não há nada mais dramático do que as entrevistas da Folha [com socialites, artistas, empresários e celebridades] desta quarta-feira. Na sua linda casa, dizem que vão sair às ruas fazendo protesto. Vai fazer protesto nada! Vai é para o melhor restaurante cinco estrelas junto com outras figuras da política brasileira fazer o bom jantar.
Folha - Tomar conhaque de R$ 900 [preço de uma única dose do conhaque Henessy no restaurante Fasano].
Lembo -Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país.
Folha - O senhor acha que essas pessoas são responsáveis e não percebem?
Lembo -O Brasil é o país do duplo pensar. Conhecemos a inquisição de 1500 até 1821. Então você tinha um comportamento na rua e um comportamento interior, na sua casa. Isso é o que está na sociedade hoje. Essas pessoas estão falando apenas para o público externo. É um país que é dúbio.
Folha - Onde o senhor responsabiliza essas pessoas?
Lembo -Onde? Na formação histórica do Brasil. A casa grande e a senzala. A casa grande tinha tudo e a senzala não tinha nada. Então é um drama. É um país que quando os escravos foram libertados, quem recebeu indenização foi o senhor, e não os libertos, como aconteceu nos EUA. Então é um país cínico. É disso que nós temos que ter consciência. O cinismo nacional mata o Brasil. Este país tem que deixar de ser cínico. Vou falar a verdade, doa a quem doer, destrua a quem destruir, porque eu acho que só a verdade vai construir este país.
Folha - Mas qual é, objetivamente, a responsabilidade delas nos fatos que ocorreram na cidade?
Lembo -O que eu vi [nas entrevistas para a Folha] foram dondocas de São Paulo dizendo coisinhas lindas. Não podiam dizer tanta tolice. Todos são bonzinhos publicamente. E depois exploram a sociedade, seus serviçais, exploram todos os serviços públicos. Querem estar sempre nos palácios dos governos porque querem ter benesses do governo. Isso não vai ter aqui nesses oito meses [prazo que resta para Lembo deixar o governo]. A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para poder sustentar a miséria social brasileira no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações.
Folha - O senhor diria que elas pensam que aquele rapaz de 15 a 24 anos, que vive perto da selvageria…
Lembo - …pode ser o Bom Selvagem do Rosseau? Não pode.
Folha - O endurecimento na legislação pode resolver o problema?
Lembo -Transitoriamente pode resolver. Mas se nós não mudarmos a mentalidade brasileira, o cerne da minoria branca brasileira, não vamos a lugar algum.
Mientras tanto… Segundo a mesma Folha a polícia de São Paulo já matou nestes seis dias de crise, mais do que em dois meses de “trabalho”. A burguesia deve estar bem mais tranquila…
Bons de retórica May 17, 2006
Postado por tordesilhas em : Brasil , 4comentáriosUPDATE: E para dar uma resposta ao “clamor popular” a PM paulista já revelou que 93 “suspeitos” foram mortos até agora em supostos ocnfrontos com a polícia. Um verdadeiro massacre que não faria feio ao faroeste que domina o Iraque atualmente. Ninguém sabe ainda oficialmente a identidade destes suspeitos e a natureza de suas mortes, mas desconfio, pelo backgroud da PM de Sao Paulo, muito bem documentado pelo jornalista Caco Barcelos em seu livro “Rota 66″, que uma boa parte se trata de assassinatos, pura e simplesmente, tanto de bandidos, como de gente inocente. E obviamente ninguém vai falar nada. A classe média e alta paulistanas certamente não estão nem aí, como sempre, porque afinal os mortos são anônimos da periferia. A imprensa está caladinha, só registrando os números, mas sem botar as autoridades contra a perede como fizeram no auge da rebelião. 93 mortos em “ações de repressão” desde sábado! Isso deveria ser também um escândalo nacional, mas na verdade ninguém está nem aí. O caldo de cultura da violência é engrossado por esta leniência da opinião pública em geral com um modus operandi policial que troca a inteligência pela truculência pura e simples. E, é claro, são sempre os pobres da periferia que pagam o pato. Porque os verdadeiros bandidões seguem muito bem protegidos dentro e fora das prisões por uma poderosa cadeia de corrupção que envolve agentes do Estado, inclusive policiais, e advogados, entre outros.
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“No dia 11, apesar de há muito reinar a paz no sistema carcerário, governantes e autoridades ligadas ao sistema realizaram na calada da madrugada a remoção de aproximadamente 800 presos de todas as unidades do Estado para a unidade de Presidente Venceslau 2. Problema algum haveria em realizar as remoções se não tivessem sido feitas sem o conhecimento sequer das direções e de presos, com benefícios montados e que problema algum de disciplina vinham causando nas unidades em que se encontravam. E pior, na véspera do Dia das Mães. Ressaltamos que impedir o sentenciado de conquistar um benefício, sonhar com a liberdade e de receber o amor de seus familiares é o mesmo que arrancar-lhes as pernas e braços”.
policial que troca a inteligência pela truculência pura e simples. E, é claro, são sempre os pobres da periferia que pagam o pato. Porque os verdadeiros bandidões seguem muito bem protegidos dentro e fora das prisões por uma poderosa cadeia de corrupção que envolve agentes do Estado, inclusive policiais, e advogados, entre outros.***************************************Este é o trecho de um manifesto divulgado hoje pelos presos que lideraram a rebelião deste fim de semana. Já tem gente dizendo que estamos vivendo em uma situação de pré-organização mafiosa. Pela maneira como se organizaram e pelo teor deste manifesto, dá para acreditar que esta análise tem muito de verdadeira.
Outro trecho do manifesto:
“Nada justifica o que aconteceu, muito menos o pavor que moradores e vizinhos das unidades prisionais e demais cidadãos sentiram. Porém é importante salientar que nós sentenciados somos seres humanos com anseios, sentimentos e esperanças. Não queremos nos eximir de nossas culpas e atos. Porém desejamos que não nos seja tirado o direito de sonhar, ter esperança de uma vida melhor. E sermos tratados com dignidade e respeito”.
Sinceramente, sem comentários….
A “derrapada” da BBC May 16, 2006
Postado por tordesilhas em : Mídia , 4comentáriosEssa já entrou para os anais do mico televisivo e envolve nada menos do que a BBC. Imagine a cena: você é um imigrante congolês e está esperando na recepção da emissora de TV para uma entrevista de emprego. Chega uma pessoa que o conduz ao estúdio, te coloca um microfone e te faz sentar-se em um banco em frente a uma apresentadora. Você já desconfia que algo está errado, mas pensa que é algum tipo de teste preparado pela emissora de TV.
De repente, os focos e as câmeras se concentram em você, a apresentadora te apresenta ao vivo como um expert em tecnologia e criador de um respeitado website sobre o tema. Enquanto você faz uma cara de pavor dando-se conta do erro, ela dispara a primeira pergunta querendo saber se você havia ficado surpreso com a decisão que havia dado vitória à Apple Computers contra a Apple Corps, o selo discográfico de propriedade dos Beattles, sobre um litígio referente à exclusividade do uso da marca “Apple” no negócio musical.
A cena aconteceu de verdade é já está se espalhando pela internet. A vítima desde mico chama-se Guy Goma e le foi confundido com o expert Guy Kewney, um colaborador antigo da BBC e, portanto, já conhecido pela equipe. Ambos estavam em recepções diferentes da emissora esperando para ser recebidos por diferentes pessoas e por diferentes razões. Provavelmente a pessoa da produção chegou perto de Guy Goma, perguntou-lhe com algum acento inglês difícil de compreender se ele era Guy Kewney, ele não entendeu direito e respendeu que sim. Aí começou toda a confusão.
E o melhor é que Guy Goma, apesar de sua cara de surpresa inicial, até que não se saiu de todo mal em suas respostas. Não se pode negar que ele tem jogo de cintura. Ajuda obviamente o fato de que é formado em “Business Studies” e estava postulando para uma vaga em um cargo importante relacionado à tecnologia da informação.
Ele já deu entrevistas dizendo que no final a entrevista havia sido muito curta e que agora se sente preparado para falar sobre qualquer tema. E eu estou de acordo. Esta história demonstra que se você tiver suficiente cara de pau e souber usar bem os lugares comuns, pode falar sobre qualquer coisa mesmo. Guy Goma não sabe ainda se a BBC lhe vai oferecer o emprego que ele havia ido buscar.
Tomara que sim. O cara merece.
Abaixo o vídeo com a entrevista.
Que lixo! May 13, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 7comentáriosUPDATE - O Daniel Dantas deu entrevista para a Folha de Sao Paulo dizendo que nao disse o que a Veja disse que disse. Abaixo um trecho da entrevista.
Folha - O sr. acusa o governo de persegui-lo. Por que a divulgação das contas iria prejudicá-lo?
Dantas - A minha sensação é que havia, sim, corrupção no governo, mas os dados das contas não tinham nada a ver com a disputa societária [na Brasil Telecom]. Na verdade não tenho a menor idéia se existem essas contas ou não. “Veja” mente quando diz que tinha um compromisso comigo para preservar meu nome como fonte, caso essas contas fossem verdadeiras. Isso nunca existiu.
Evidentemente estamos lidando com mentirosos de grosso calibre por aqui - de um lado o Daniel Dantas, de outro a Veja. A revista distribuiu uma nota de imprensa respondendo à indignacao do Lula. O texto diz que a reportagem é fruto de uma investigacao de seis meses. Se isto é verdade, entao só aumenta a percepcao que a revista fez realmente um trabalho de porco que produziu um texto que é uma aula de anti-jornalismo. Servirá para ser usado nas faculdades de comunicacao como exemplo típido de imprensa marrom. O Planalto já disse que vai processar a revista. Conta desde já com todo o apoio deste humilde blog.
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Mas eu acho que ela a [a Revista Veja] chegou ao limite, chegou ao limite, chegou limite! Eu não sei se o jornalista que escreve uma matéria daquela tem a dignidade de dizer que é jornalista. Ele poderia dizer que é bandido, mau caráter, malfeitor, mentiroso. Eu não posso e é até constrangedor um presidente da República saber que tem uma mentira dessa grosseria numa revista que deveria respeitar seus leitores. Os leitores pagam a revista, são induzidos a assinar. E não merecem a quantidade de mentiras que ela tem publicado.
Este é um trecho do desabafo do presidente Lula sobre a matéria escrota produzida pela Veja desta semana baseada em documentos supostamente reunidos por Daniel Dantas, cuja ficha já é conhecida de todos. Realmente, seu eu fosse jornalista com um mínimo de seriedade e trabalhasse na Veja estaria envergonhado. Está certo que ninguém espera que os meios de comunicação, qualquer meio, sejam vestais, símbolo da pureza, mas a Veja está chegando perto do fundo do poço da ética jornalista em sua luta insana para derrubar o governo.
E os personagens aos quais a revista dá crédito são: Daniel Dantas (sem comentários), um espião americano chamado Frank Holder (com este sobrenome…) e o argentino Jose Luis Manzano (reconhecidamente um chantagista profissional – uma figura nebulosíssima na Argentina). Ou seja, um triângulo das bermudas que obrigaria qualquer veículo de comunicação de respeito a ser extremamente cuidado ao lidar com as informações.
Aliás, o triângulo vira um quadrilátero mais esquisito ainda se adicionamos o fato de que o Daniel Dantas deu uma entrevista ao colunista Diogo Mainardi, que aproveita para dar um passo mais em sua cruzada moral pseudo-lacerdista.
E a Veja, para limpar sua barra preventivamente, ainda posa de defensora da moralidade republicana e justifica a publicação desta reportagem editorializada como “um serviço prestado ao país”. O cinismo chega a tal ponto que dá engulhos.
