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Viagem à Bolívia - Capítulo III - Em Monte Verde April 28, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentários

Outro dia de despertar bem cedo, às 7 da manhã. José Bailaba chega logo em seguida para compartilhar o café da manhã conosco e ver no laptop cenas gravadas por Peter Murphy, videasta da Oxfam, em 1999, quando ele visitou pela primeira vez Concepción. Queríamos que ele reconhecesse uma das comunidades que havia visitado naquela época com o Peter. Uma olhada rápida e seu rosto se ilumina: “El Regreso!” Este era o nome daquele que seria um dos nossos destinos do dia.

Tomamos um café da manhã reforçado porque nos esperava um longo percorrido dentro do território indígena de Monte Verde, onde visitaríamos além da já mencionada El Regreso também a comunidade de Makanaté (que significa “O Triunfo”). Uma parada estratégica para comprar folhas de coca, água e biscoitos e pronto seguimos viagem. O sol dos últimos dias garantiu que ao menos o caminho até as comunidades, cruzando um bom pedaço do território de Monte Verde, estivesse em condições razoáveis de trânsito.

Entre as paradas para que Peter pudesse entrevistar a José Bailaba ou captar imagens para o vídeo, uma primeira surpresa: exploradores ilegais de madeira tinham aberto um desvio na estrada usando tratores para derrubar as árvores. Descemos do carro e seguimos a pé pelo desvio enquanto José nos explicava o processo de saqueio permanente que os piratas de madeira impõem ao território de Monte Verde.

As comunidades indígenas estão muito melhor organizadas que no passado e está cada vez mais difícil invadir seu território, mas ainda assim o acosso persiste, como nossos olhos e câmeras podiam testemunhar. Desta vez os piratas tiveram pouco tempo para atuar, de acordo com José. Aparentemente tiveram de sair rápido do local, possivelmente porque os indígenas chegaram e os expulsaram.

A tensão entre os chiquitanos, que lutam pelo titulo de propriedade do território de Monte Verde, e os piratas de madeira, criados de gado e mineiros é permanente. Mas a situação tem melhorado bastante na medida em que os indígenas têm logrado, depois de muitos anos de luta, praticamente finalizar o processo de titulação da sua terra e território. Ainda assim é possível ver por todo o trajeto que fizemos a presença ostensiva de grandes fazendas de criação de gado, inclusive dentro do território indígena de Monte Verde.

Um povo determinado
A primeira comunidade que visitamos foi a de El Regreso. Chegamos de surpresa à humilde casa de Jerónima Quiviquivi e seu esposo Felix Ribera, que nos receberam da maneira hospitaleira tão própria dos chiquitanos. Visitamos a escola recém terminada que serve à comunidade, conversamos bastante sobre a luta que tiveram para instalar e consolidar a comunidade e sobre seus planos para o futuro.

Eles nos convidaram para almoçar em sua casa e prepararam um delicioso “locro criollo”, feito à base de galinha caipira (escolhida, morta e preparada ali mesmo), arroz e mandioca (tudo plantado e colhido na mesma comunidade). A comida caiu muito bem, porque na verdade estávamos esfomeados.

A outra comunidade que visitamos foi a de Makanaté, uma das mais antigas de Monte Verde. Uma comitiva de mais de 20 crianças nos esperava com sua algazarra típica potencializada pela novidade de forasteiros naquela tarde ensolarada. Uma conversa com o professor e com os lideres comunitários revelou uma história de muita luta para consolidar a comunidade. Luta que a princípio quase foi perdida por causa da quantidade fora do normal de insetos e abelhas que atacavam sem piedade os primeiros moradores, que tinham dificuldade até para fazer suas refeições. A consolidação e o crescimento da comunidade são um testemunho de que a união, a organização e a força de vontade som um repelente muito eficaz.

A visita à comunidade de Makanaté trouxe uma lembrança especial para José Bailaba. Ele nos contou que para apoiar de maneira consistente a implantação da comunidade decidiu viver junto com os primeiros moradores. José era dirigente da Central de Povos Étnicos de Santa Cruz (CPESC) e precisava mostrar como a organização esta comprometida com o sucesso da comunidade.

A quem esta idéia desagradou de maneira especial foi a seu filho, que na época tinha 2 anos e era muito apegado ao pai. A solução  foi  leva-lo para viver com ele em Makanaté. Até hoje em dia seu filho, que é agora um adolescente, se lembra e se emociona quando escuta falar da comunidade onde compartilhou, embora não de todo consciente, do sonho de seu papai e de outros indígenas.

História de escravidão
Mas nem todas as recordações de José Bailaba foram tão cálidas. Durante o longo regresso a Concepción ele nos contou algumas histórias do passado muito recente dos indígenas chiquitanos, de como foram escravizados até outro dia e tratados como se fossem nada.

Ele se lembra de como os criadores de gado quando fechavam entre si acordos de compra e venda de gado davam famílias indígenas como brinde. Algo assim: “você me compra 50 cabeças de gado e pode levar três famílias grátis”. Ou de como os donos de seringais exerciam seu direito medieval de tomar para si as mulheres indígenas prestes a casar-se. Ou ainda dos duríssimos castigos impostos aos indígenas que tentavam escapar da situação de exploração nas fazendas. Até não mais que dez anos atrás o único lugar onde os indígenas podiam entrar numa boa em Concepción era na igreja.

Ou seja, é realmente impressionante ver as mudanças que estão acontecendo na Bolívia em um espaço relativamente curto de tempo. Concepción agora tem um prefeito indígena pela primeira vez na sua história. Evo Moralez ocupa a presidência. Seguramente há ainda muito por fazer e um longo processo por consolidar-se, mas é difícil crer que as coisas voltem a ser como eram antes. Como diz José Bailaba, os indígenas podem agora ir aonde querem, têm consciência plena de seus direitos e estão firmemente decididos a não permitir que o passado de escravidão e sub-cidadania volte.