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Viagem pela Bolívia - Capítulo 2 April 26, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , trackback

Nem tive tempo de descansar e peguei um avião de manha cedo para Santa Cruz de la Sierra e de lá mais 5 horas de carro até a cidade de Concepción, no coração da Chiquitania boliviana. Já escrevi sobre está incrível região no meu blog anterior, o Trovas & Trombos.

Logo depois que decolamos de El Alto rumo a Santa Cruz uma surpresa: o avião passa tão perto do Illimani, nevado que domina o horizonte de La Paz, que quase roça a asa no pico da montanha. O piloto até tem de fazer uma pequena manobra, levantando a asa esquerda. Como eu estava sentado justamente deste lado aproveitei para tirar umas fotos. 

Com os indígenas chiquitanos
Tivemos sorte de chegar a Concepcion em um momento que em os representantes das 12 comunidades indígenas que habitam a chiquitania estavam reunidos para discutir suas estratégias para conseguir eleger seus candidatos para a próxima Assembléia Constituinte que vai redefinir os rumos do país. Foi uma experiência muito interessante ver como funciona o sistema democrático de consulta direta com as bases que é praticado pelos indígenas chiquitanos.

Os três candidatos que eles lançarão para a Assembléia Constituinte foram formalmente apresentados e tiveram de se comprometer publicamente com a plataforma política dos chiquitanos. Ao mesmo tempo havia uma discussão interna sobre a liderança da organização que representa as 12 comunidades chiquitanas.

E ainda tivemos a oportunidade ter a Jose Bailaba como uma espécie de guia neste primeiro dia de visita a Chiquitania. Ele é um dos principais líderes chiquitanos, foi o primeiro a falar na necessidade de uma nova Constituição, há mais de 15 anos, e foi um dos primeiros deputados indígenas eleitos para o Congresso boliviano. Um líder muito respeitado pelos diferentes povos chiquitanos, José tem uma visão muito clara dos desafios do governo encabeçado por Evo Morales na sua tarefa de “refundar” a Bolívia.

“Queremos um país no qual os poucos que têm muito dividam parte do que têm com a grande maioria que nada possui. Não queremos revanche, mas sim construir um país onde todos se sintam cidadãos plenos e se beneficiem de maneira equilibrada das riquezas que a Bolívia produz. No passado nós, indígenas, fomos escravizados. Agora estamos mostrando que somos capazes de participar da construção de um país mais justo.”

Musica Barroca
Para finalizar o dia, Peter Murphy, o videomaker da Oxfam, e eu entramos na Catedral de Concepción, talvez a mais bonita das que formam o complexo das missões jesuítas, e havia um grupo de câmara inglês ensaiando para o Festival Internacional de Música Barroca da Chiquitania, que começa no próximo dia 26.

Foi um belíssimo choque ver e ouvir aqueles estrangeiros tocando pecas de uma missa para voz e instrumentos escrita há mais de 300 anos e cuja partitura foi recentemente descoberta durante as obras de restauração da catedral. Fiquei cerca de uma hora acompanhando, extasiado, o ensaio e pensando sobre o inusitado que era aquela situação.

Apesar da beleza do momento e da composição que estava ouvindo, não pude deixar de fazer uma relação com o que havia escutado mais cedo de Jose Bailaba quando ele contava a história de como os chiquitanos foram escravizados por diferentes senhores, incluindo os jesuítas que os confinaram em suas missões para que fossem evangelizados.

Como nas missões na Argentina e no Paraguai, os jesuítas usavam a música para ensinar o evangelho aos indígenas. O resultado dos séculos de evangelização para os índios foi a perda de suas próprias referencias culturais e religiosas. Mas ao mesmo tempo gerou peças extraordinárias de música barroca que, cantadas e tocadas atualmente pelos descendentes daquelas indígenas originais, deixam os ouvintes encantados no mundo todo. 

PS: Peter Murphy tambem esta escrevendo um diario desta viagem no blog da Oxfam. E so dar uma olhada aqui. Logo algumas fotos que estou tirando nesta viagem estarao por la tambem.

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