Viagem pela Bolívia – Capítulo I April 20, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , trackbackAo sair do avião no aeroporto de El Alto a primeira sensação é de frio – 4 graus – seguida por um leve mareio. Afinal, estamos a cerca de 4.000 metros sobre o nível do mar, o que explica de maneira flagrante o nome dado à cidade de El Alto. O caminho de descida até La Paz, que está uns 300 metros abaixo, é impressionante, principalmente se feito à noite, como foi o meu caso. Um mar de luzes cobre as encostas das montanhas em todo o recorrido da serpenteante estrada que liga as duas cidades.
A rigor é bem difícil determinar os limites entre as duas cidades. El Alto começou como um ajuntamento urbano nos limites externos da La Paz onde viviam os migrantes principalmente das regiões andinas de origem aymara. Este ajuntamento reconheceu um crescimento extraordinário no espaço de menos de 50 anos a tal ponto que seus 760 mil habitantes tornam El Alto uma cidade com população equivalente à da capital, La Paz.
El Alto é uma cidade singular também por ter uma população extremamente aguerrida e organizada. Nas grandes mobilizações ao redor da chamada “Guerra do Gás”, que resultaram na renúncia do ex-presidente Gonzalo Sanchez de Lozada, em outubro de 2003, El Alto teve um papel fundamental. A cidade literalmente parou e com isso deixou La Paz isolada. O aeroporto internacional ficou fechado, assim como as rotas que trazem alimentos e combustíveis a capital desde a região andina.
O saldo das mobilizações, além de um presidente “renunciado”, deixou 58 mortos entre a população local. Quem testemunhou os acontecimentos de outubro de 2003 fala de imagens impressionantes do povo armado apenas de paus e pedras investindo contra as fortemente armadas tropas do exército que não hesitoram em atirar contra a multidão de maneira indiscriminada.
Tudo isto me vem à cabeça enquanto sigo no táxi para o hotel em La Paz e vejo as ruas da capital ainda com grande movimento apesar de já ser mais de meia noite. Pergunto ao motorista como estão as coisas e ele estoicamente responde que estão tranqüilas, como sempre. Ou seja, com manifestações convocadas por diferentes federações e associações. Lutar por seus direitos é definitivamente uma marca do povo boliviano.
Já no hotel sou recebido com um sorriso amigável e o providencial mate de coca para ajudar a acostumar-me com a altura. O mareio já passou, espero agora conseguir dormir.

Comments»
Maravilha!
Ontem assisti ao Evo Morales no Roda Viva, e estava mesmo ansioso por relatos sobre o cotidiano da Bolíivia!
Aguardo o capítulo 2!
Abraços