Lembrança dolorosa April 18, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 6comentáriosO mestre Telê está indo embora aos poucos… Vasculhando os meus alfarrábios, encontrei a crônica abaixo que escrevi faz um tempo resgatando as minhas lembranças adolescentes da Copa do Mundo de 1982. A seleção do Telê fazia bonito na Espanha com um futebol que nunca mais se viu no Brasil. Mas a taça ficou mesmo com a Itália… E depois disso começou o interminável debate entre futebol arte X futebol força. Mas o importa é que as imagens dos jogos daquela Copa ainda estão guardadas na minha memória. E na de muita gente que acompanhou os jogos, gritou, sorriu e sofreu com a seleção canarinho de 1982…
Uma seleção maravilhosa
A lembrança que tenho é de um dia de sol. Não fazia muito calor e o céu estava azul, com algumas nuvens brancas atrapalhando o caminho do sol naquele subúrbio do Rio de Janeiro. Faltavam 15 minutos para o fim do jogo entre Brasil e Itália e Paolo Rossi acabara de marcar o terceiro gol. Lembro-me do silêncio que se seguiu e que ecoa até hoje nos meus ouvidos.
Saí andando pelas ruas e o único som que se ouvia nas casas era o das televisões. A voz dramática dos locutores ultrapassava as janelas e parecia chacoalhar os galhos das amendoeiras e fazer tremer ainda mais o meu coração. Eu andava pelas ruas rezando por um milagre, afinal faltavam ainda 15 minutos… Mas intimamente algo me dizia que o desastre era inevitável.
Aquela era a primeira Copa que eu acompanhava integralmente, com consciência do que fazia. Havia ajudado a desenhar “Naranjitos” em todos os muros possíveis e passara várias madrugadas pintando enormes bandeiras brasileiras no chão de asfalto da minha rua e de outras próximas. O trabalho devia ser feito escondido porque tínhamos medo de ser presos. Havia uma certa sensação de perigo por estarmos fazendo algo “subversivo”. Afinal, ainda vivíamos sob a ditadura naqueles idos de julho de 1982. Era crime, como as autoridades lembravam a todo o momento, vilipendiar o pavilhão nacional.
Lembro-me do “Pacheco”, personagem que também marcou aquele ano e que tem lugar especial na minha adolescência. O “Camisa 12” com seu olhar esbugalhado e fanatismo pelo Brasil éramos todos nós. Todos os torcedores que nos juntávamos frente aos aparelhos de televisão em nossas garagens, cercados pela família e amigos, assando um churrasco e arriscando prognósticos para lá de otimistas ao som do pagode do Júnior.
Mais do que tudo, havia aquela seleção maravilhosa. Uma armada invencível, um Titanic que singrava de jogo em jogo mostrando para os gringos a infinita capacidade de improvisação e o poder dos jogadores brasileiros. Aos meus olhos de adolescente cada partida era um verdadeiro espetáculo. Ver Zico, Junior e Sócrates jogando me dava – e a todos os brasileiros – a certeza de que aquele era o nosso ano. A primeira copa que eu acompanhava integralmente seria também a do tetracampeonato brasileiro. Era bom demais para ser verdade!
Lembro-me que pensava em cada uma destas coisas enquanto andava pelas ruas desertas e poeirentas. À medida que a voz dos locutores ficava mais dramática, eu sabia que o meu sonho teria de aguardar mais um pouco. No meio do caminho havia Paolo Rossi, personagem que não havia sido convidado para a nossa festa, em quem eu sequer prestava atenção, mas que estava decidido a deixar sua marca – e seus pés – nos nossos corações.
No fim do jogo, o silêncio ainda reinava, atrapalhado por murmúrios e até choros em algumas casas. Não havia mais nada a fazer senão enrolar a bandeira, guardar o grito e esperar a próxima copa.
