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Entre a cruz e a espada April 12, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 8comentários

UPDATE 2: Hoje a correspondente do Globo, Janaina Figueiredo, sentiu na pele o já famoso desequilíbrio emocional, para dizer o mínimo, do Ollanta Humala. Ela estava participando de uma entrevista coletiva do candidato para a imprensa internacional e lhe perguntou sobre sua posição com relação aos destemperos verbais de seu irmão e de sua mãe, que defenderam, respectivamente, o fuzilamento do atual presidente Alejandro Toledo e de homossexuais. Humala perdeu as estribeiras e perguntou agressivamente a Janaina o que diria a avó dela se ele perguntasse à jornalista se ela ainda usava fraldas. Ela até que saiu-se bem… A nota completa está aqui.

UPDATE 1: A disputa pelo segundo lugar e pela chance de lutar contra Ollanta Humala no segundo turno das eleições peruanas segue indefinida. Lourdes Flores foi ultrapassada por Alan Garcia, quem segue na dianteira com uma diferença ínfima de votos. A decisão final pode levar 20 dias, quando forem contados todos os votos, inclusive os do exterior, e forem julgados todos os pedidos de impugnação. Enquanto isso, a iminência de um segundo turno entre Humala e Garcia provocou o seguinte comentário do polêmico jornalista peruano Jaime Beyly: “es como tener de decidir entre cortar el testículo derecho o el izquierdo”. Tem muita gente concordando com ele….

E no Peru as eleições seguem o rumo esperado. Ollanta Humala ganha, mas não leva ainda. O segundo lugar está embolado entre Lourdes Flores e Alan Garcia e as pesquisas indicam que seria ela quem iria para o segundo turno. O resultado quase repete as eleições de 2001, quando o outsider Alejandro Toledo teve de esperar um pouco para saber contra quem disputaria o segundo turno, se Flores ou Garcia, que também naquele ano se embolaram na reta final pelo segundo lugar em votos.

Esta será a terceira eleição em que os peruanos apostam em alguém fora do círculo político tradicional para a presidência. Antes já haviam tentado com Fujimori, quem – vindo do nada - derrotou o candidato do stablishment Mario Vargas Llosa e com o próprio Toledo, que derrotou a Alan Garcia.Em todas estas ocasiões os votos que fizeram a diferença vieram majoritariamente das camadas mais pobres da população. Este fato evidentemente não é perdoado por analistas mais conservadores, pela classe média e pela elite. Todos lavando as mãos, livrando a própria responsabilidade e apontando os dedos para a massa de “ignorantes” que conformariam o “Peru tradicional, atrasado, iletrado” que estaria continuamente se impondo sobre “Peru moderno” e impedindo o país de “entrar en la modernidad”.

Com a possibilidade de Ollanta Humala chegar ao poder a histeria tem chegado a níveis extremos. Já tem até banco aconselhando aos seus maiores clientes a transferirem seus recursos para o exterior. A imprensa em peso, tanto a conservadora como a mais liberal, está fazendo uma campanha cerrada contra o candidato. Diga-se de passagem que Ollanta Humala não é nenhum santo. Sua ideologia confusa e autoritária, seus vínculos com os militares relacionados a Vladimiro Montesinos, ex-eminência parda de Fujimori, além das diversas acusações de violação de direitos humanos que pesam contra o candidato deixam entrever que o temor nutrido com relação a ele têm fundamentos bem concretos.

Não é sem razão que a esquerda tradicional e grande parte dos movimentos sociais e ONGs querem distancia de Humala. Já ouvi muita gente com um perfil mais progressista dizendo que prefere cometer o sacrilégio de votar na conservadora Lourdes Flores a ser cúmplice da chegada ao poder de uma figura tão potencialmente nefasta como Ollanta Humala. E sua insistência em ser chamado por todos que o cercam, até pelos jornalistas, de “Comandante” e de usar um vocabulário típico de milicos em seus discursos não ajuda em nada a mudar a impressão que se tem dele.

Pergunta sem resposta definitiva
Daí fica a pergunta: por que uma parte considerável da população peruana insiste em uma fórmula com resultados desconhecidos e potencialmente desestabilizadores? Eu particularmente arrisco o palpite de que grande parte dos que votaram em Ollanta Humala e vão votar novamente nele no dia 7 de maio, quando será o segundo turno, não têm nada a perder. Vêm desta parcela majoritária da população que nunca foi beneficiada pelas bolhas econômicas que de tempos em tempos fazem avançar a economia peruana. Simplesmente não acreditam que o sistema político tradicional esteja de verdade preocupado com eles e vêem a riqueza surgir e avançar na centralizadora capital, Lima, enquanto o interior do país segue na mesma pobreza que tem vivido nesses 500 anos.

Para esta parcela da população o alerta dado pela mídia e candidatos tradicionais de que Humala, com seu discurso e prática castrense e seu passado de violação de direitos humanos, poderia redundar em uma espécie de ditadura branca como a da Venezuela não significa nada. Isto porque esta parte significativa da população já vive sob uma espécie de ditadura cultural, econômica e social que os faz viver como cidadãos de segunda classe.

Cidadãos para os quais sua língua original, o quéchua ou o aymara, suas roupas, traços fisionômicos, sobrenomes, costumes, enfim tudo que os faz ser o que são já é motivo mais do que suficiente para que sejam condenados a viver em uma espécie de “país paralelo”. Não são respeitados pelo que são e também são impedidos de entrar no “Peru Moderno”. A mobilidade social é quase nula e mesmo aqueles que conseguem concluir a universidade ou juntar dinheiro nunca conseguirão ultrapassar a barreira nem um pouco sutil que separa os brancos de todo o resto. São dois mundos realmente distintos que nesta campanha estão sendo personalizados por Lourdes Flores e Ollanta Humala.

Canalizando a insatisfação
O que está fazendo Humala é espertamente catalisar esta insatisfação e descrença no sistema político formal apresentando-se contra aquele que está contra “tudo isso aí”. Um filme que a gente já viu outras vezes inclusive no Brasil mas que continua atrativo. Claro que é muito fácil culpar a “ignorância dos pobres”, mas a minha visão é diferente. Na verdade acho que os votantes de Humala são muito inteligentes. Sabem que não podem confiar em Lourdes Flores – muito provavelmente com toda razão – e já conhecem muito bem a Alan Garcia. Daí porque não tentar com outro? Se não der certo, se tenta com outro nas próximas eleições. Afinal, já têm vivido na m… por 500 anos, alguns anos mais não farão a menor diferença.

Pode até ser uma análise simplista, mas tenho ouvido este argumento de diversas pessoas do povão, motoristas de táxi, trabalhadores de banca de jornal etc. No fundo não deixa de ser uma estratégia de sobrevivência e quem sabe talvez algum dia a elite deste país se dê conta de que não dá mais para ter uma economia com índices de crescimento como a peruana, com uma das bolsas de valores mais rentáveis do continente, enquanto uma boa parte da população tem um nível de vida comparável ao do período colonial.