Viagem à Bolívia - Capítulo III - Em Monte Verde April 28, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentáriosOutro dia de despertar bem cedo, às 7 da manhã. José Bailaba chega logo em seguida para compartilhar o café da manhã conosco e ver no laptop cenas gravadas por Peter Murphy, videasta da Oxfam, em 1999, quando ele visitou pela primeira vez Concepción. Queríamos que ele reconhecesse uma das comunidades que havia visitado naquela época com o Peter. Uma olhada rápida e seu rosto se ilumina: “El Regreso!” Este era o nome daquele que seria um dos nossos destinos do dia.
Tomamos um café da manhã reforçado porque nos esperava um longo percorrido dentro do território indígena de Monte Verde, onde visitaríamos além da já mencionada El Regreso também a comunidade de Makanaté (que significa “O Triunfo”). Uma parada estratégica para comprar folhas de coca, água e biscoitos e pronto seguimos viagem. O sol dos últimos dias garantiu que ao menos o caminho até as comunidades, cruzando um bom pedaço do território de Monte Verde, estivesse em condições razoáveis de trânsito.
Entre as paradas para que Peter pudesse entrevistar a José Bailaba ou captar imagens para o vídeo, uma primeira surpresa: exploradores ilegais de madeira tinham aberto um desvio na estrada usando tratores para derrubar as árvores. Descemos do carro e seguimos a pé pelo desvio enquanto José nos explicava o processo de saqueio permanente que os piratas de madeira impõem ao território de Monte Verde.
As comunidades indígenas estão muito melhor organizadas que no passado e está cada vez mais difícil invadir seu território, mas ainda assim o acosso persiste, como nossos olhos e câmeras podiam testemunhar. Desta vez os piratas tiveram pouco tempo para atuar, de acordo com José. Aparentemente tiveram de sair rápido do local, possivelmente porque os indígenas chegaram e os expulsaram.
A tensão entre os chiquitanos, que lutam pelo titulo de propriedade do território de Monte Verde, e os piratas de madeira, criados de gado e mineiros é permanente. Mas a situação tem melhorado bastante na medida em que os indígenas têm logrado, depois de muitos anos de luta, praticamente finalizar o processo de titulação da sua terra e território. Ainda assim é possível ver por todo o trajeto que fizemos a presença ostensiva de grandes fazendas de criação de gado, inclusive dentro do território indígena de Monte Verde.
Um povo determinado
A primeira comunidade que visitamos foi a de El Regreso. Chegamos de surpresa à humilde casa de Jerónima Quiviquivi e seu esposo Felix Ribera, que nos receberam da maneira hospitaleira tão própria dos chiquitanos. Visitamos a escola recém terminada que serve à comunidade, conversamos bastante sobre a luta que tiveram para instalar e consolidar a comunidade e sobre seus planos para o futuro.
Eles nos convidaram para almoçar em sua casa e prepararam um delicioso “locro criollo”, feito à base de galinha caipira (escolhida, morta e preparada ali mesmo), arroz e mandioca (tudo plantado e colhido na mesma comunidade). A comida caiu muito bem, porque na verdade estávamos esfomeados.
A outra comunidade que visitamos foi a de Makanaté, uma das mais antigas de Monte Verde. Uma comitiva de mais de 20 crianças nos esperava com sua algazarra típica potencializada pela novidade de forasteiros naquela tarde ensolarada. Uma conversa com o professor e com os lideres comunitários revelou uma história de muita luta para consolidar a comunidade. Luta que a princípio quase foi perdida por causa da quantidade fora do normal de insetos e abelhas que atacavam sem piedade os primeiros moradores, que tinham dificuldade até para fazer suas refeições. A consolidação e o crescimento da comunidade são um testemunho de que a união, a organização e a força de vontade som um repelente muito eficaz.
A visita à comunidade de Makanaté trouxe uma lembrança especial para José Bailaba. Ele nos contou que para apoiar de maneira consistente a implantação da comunidade decidiu viver junto com os primeiros moradores. José era dirigente da Central de Povos Étnicos de Santa Cruz (CPESC) e precisava mostrar como a organização esta comprometida com o sucesso da comunidade.
A quem esta idéia desagradou de maneira especial foi a seu filho, que na época tinha 2 anos e era muito apegado ao pai. A solução foi leva-lo para viver com ele em Makanaté. Até hoje em dia seu filho, que é agora um adolescente, se lembra e se emociona quando escuta falar da comunidade onde compartilhou, embora não de todo consciente, do sonho de seu papai e de outros indígenas.
História de escravidão
Mas nem todas as recordações de José Bailaba foram tão cálidas. Durante o longo regresso a Concepción ele nos contou algumas histórias do passado muito recente dos indígenas chiquitanos, de como foram escravizados até outro dia e tratados como se fossem nada.
Ele se lembra de como os criadores de gado quando fechavam entre si acordos de compra e venda de gado davam famílias indígenas como brinde. Algo assim: “você me compra 50 cabeças de gado e pode levar três famílias grátis”. Ou de como os donos de seringais exerciam seu direito medieval de tomar para si as mulheres indígenas prestes a casar-se. Ou ainda dos duríssimos castigos impostos aos indígenas que tentavam escapar da situação de exploração nas fazendas. Até não mais que dez anos atrás o único lugar onde os indígenas podiam entrar numa boa em Concepción era na igreja.
Ou seja, é realmente impressionante ver as mudanças que estão acontecendo na Bolívia em um espaço relativamente curto de tempo. Concepción agora tem um prefeito indígena pela primeira vez na sua história. Evo Moralez ocupa a presidência. Seguramente há ainda muito por fazer e um longo processo por consolidar-se, mas é difícil crer que as coisas voltem a ser como eram antes. Como diz José Bailaba, os indígenas podem agora ir aonde querem, têm consciência plena de seus direitos e estão firmemente decididos a não permitir que o passado de escravidão e sub-cidadania volte.
Viagem pela Bolívia - Capítulo 2 April 26, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , deixe teu comentárioNem tive tempo de descansar e peguei um avião de manha cedo para Santa Cruz de la Sierra e de lá mais 5 horas de carro até a cidade de Concepción, no coração da Chiquitania boliviana. Já escrevi sobre está incrível região no meu blog anterior, o Trovas & Trombos.
Logo depois que decolamos de El Alto rumo a Santa Cruz uma surpresa: o avião passa tão perto do Illimani, nevado que domina o horizonte de La Paz, que quase roça a asa no pico da montanha. O piloto até tem de fazer uma pequena manobra, levantando a asa esquerda. Como eu estava sentado justamente deste lado aproveitei para tirar umas fotos.
Com os indígenas chiquitanos
Tivemos sorte de chegar a Concepcion em um momento que em os representantes das 12 comunidades indígenas que habitam a chiquitania estavam reunidos para discutir suas estratégias para conseguir eleger seus candidatos para a próxima Assembléia Constituinte que vai redefinir os rumos do país. Foi uma experiência muito interessante ver como funciona o sistema democrático de consulta direta com as bases que é praticado pelos indígenas chiquitanos.
Os três candidatos que eles lançarão para a Assembléia Constituinte foram formalmente apresentados e tiveram de se comprometer publicamente com a plataforma política dos chiquitanos. Ao mesmo tempo havia uma discussão interna sobre a liderança da organização que representa as 12 comunidades chiquitanas.
E ainda tivemos a oportunidade ter a Jose Bailaba como uma espécie de guia neste primeiro dia de visita a Chiquitania. Ele é um dos principais líderes chiquitanos, foi o primeiro a falar na necessidade de uma nova Constituição, há mais de 15 anos, e foi um dos primeiros deputados indígenas eleitos para o Congresso boliviano. Um líder muito respeitado pelos diferentes povos chiquitanos, José tem uma visão muito clara dos desafios do governo encabeçado por Evo Morales na sua tarefa de “refundar” a Bolívia.
“Queremos um país no qual os poucos que têm muito dividam parte do que têm com a grande maioria que nada possui. Não queremos revanche, mas sim construir um país onde todos se sintam cidadãos plenos e se beneficiem de maneira equilibrada das riquezas que a Bolívia produz. No passado nós, indígenas, fomos escravizados. Agora estamos mostrando que somos capazes de participar da construção de um país mais justo.”
Musica Barroca
Para finalizar o dia, Peter Murphy, o videomaker da Oxfam, e eu entramos na Catedral de Concepción, talvez a mais bonita das que formam o complexo das missões jesuítas, e havia um grupo de câmara inglês ensaiando para o Festival Internacional de Música Barroca da Chiquitania, que começa no próximo dia 26.
Foi um belíssimo choque ver e ouvir aqueles estrangeiros tocando pecas de uma missa para voz e instrumentos escrita há mais de 300 anos e cuja partitura foi recentemente descoberta durante as obras de restauração da catedral. Fiquei cerca de uma hora acompanhando, extasiado, o ensaio e pensando sobre o inusitado que era aquela situação.
Apesar da beleza do momento e da composição que estava ouvindo, não pude deixar de fazer uma relação com o que havia escutado mais cedo de Jose Bailaba quando ele contava a história de como os chiquitanos foram escravizados por diferentes senhores, incluindo os jesuítas que os confinaram em suas missões para que fossem evangelizados.
Como nas missões na Argentina e no Paraguai, os jesuítas usavam a música para ensinar o evangelho aos indígenas. O resultado dos séculos de evangelização para os índios foi a perda de suas próprias referencias culturais e religiosas. Mas ao mesmo tempo gerou peças extraordinárias de música barroca que, cantadas e tocadas atualmente pelos descendentes daquelas indígenas originais, deixam os ouvintes encantados no mundo todo.
PS: Peter Murphy tambem esta escrevendo um diario desta viagem no blog da Oxfam. E so dar uma olhada aqui. Logo algumas fotos que estou tirando nesta viagem estarao por la tambem.
Viagem pela Bolívia – Capítulo I April 20, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 1 comentário até agoraAo sair do avião no aeroporto de El Alto a primeira sensação é de frio – 4 graus – seguida por um leve mareio. Afinal, estamos a cerca de 4.000 metros sobre o nível do mar, o que explica de maneira flagrante o nome dado à cidade de El Alto. O caminho de descida até La Paz, que está uns 300 metros abaixo, é impressionante, principalmente se feito à noite, como foi o meu caso. Um mar de luzes cobre as encostas das montanhas em todo o recorrido da serpenteante estrada que liga as duas cidades.
A rigor é bem difícil determinar os limites entre as duas cidades. El Alto começou como um ajuntamento urbano nos limites externos da La Paz onde viviam os migrantes principalmente das regiões andinas de origem aymara. Este ajuntamento reconheceu um crescimento extraordinário no espaço de menos de 50 anos a tal ponto que seus 760 mil habitantes tornam El Alto uma cidade com população equivalente à da capital, La Paz.
El Alto é uma cidade singular também por ter uma população extremamente aguerrida e organizada. Nas grandes mobilizações ao redor da chamada “Guerra do Gás”, que resultaram na renúncia do ex-presidente Gonzalo Sanchez de Lozada, em outubro de 2003, El Alto teve um papel fundamental. A cidade literalmente parou e com isso deixou La Paz isolada. O aeroporto internacional ficou fechado, assim como as rotas que trazem alimentos e combustíveis a capital desde a região andina.
O saldo das mobilizações, além de um presidente “renunciado”, deixou 58 mortos entre a população local. Quem testemunhou os acontecimentos de outubro de 2003 fala de imagens impressionantes do povo armado apenas de paus e pedras investindo contra as fortemente armadas tropas do exército que não hesitoram em atirar contra a multidão de maneira indiscriminada.
Tudo isto me vem à cabeça enquanto sigo no táxi para o hotel em La Paz e vejo as ruas da capital ainda com grande movimento apesar de já ser mais de meia noite. Pergunto ao motorista como estão as coisas e ele estoicamente responde que estão tranqüilas, como sempre. Ou seja, com manifestações convocadas por diferentes federações e associações. Lutar por seus direitos é definitivamente uma marca do povo boliviano.
Já no hotel sou recebido com um sorriso amigável e o providencial mate de coca para ajudar a acostumar-me com a altura. O mareio já passou, espero agora conseguir dormir.
Lembrança dolorosa April 18, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 6comentáriosO mestre Telê está indo embora aos poucos… Vasculhando os meus alfarrábios, encontrei a crônica abaixo que escrevi faz um tempo resgatando as minhas lembranças adolescentes da Copa do Mundo de 1982. A seleção do Telê fazia bonito na Espanha com um futebol que nunca mais se viu no Brasil. Mas a taça ficou mesmo com a Itália… E depois disso começou o interminável debate entre futebol arte X futebol força. Mas o importa é que as imagens dos jogos daquela Copa ainda estão guardadas na minha memória. E na de muita gente que acompanhou os jogos, gritou, sorriu e sofreu com a seleção canarinho de 1982…
Uma seleção maravilhosa
A lembrança que tenho é de um dia de sol. Não fazia muito calor e o céu estava azul, com algumas nuvens brancas atrapalhando o caminho do sol naquele subúrbio do Rio de Janeiro. Faltavam 15 minutos para o fim do jogo entre Brasil e Itália e Paolo Rossi acabara de marcar o terceiro gol. Lembro-me do silêncio que se seguiu e que ecoa até hoje nos meus ouvidos.
Saí andando pelas ruas e o único som que se ouvia nas casas era o das televisões. A voz dramática dos locutores ultrapassava as janelas e parecia chacoalhar os galhos das amendoeiras e fazer tremer ainda mais o meu coração. Eu andava pelas ruas rezando por um milagre, afinal faltavam ainda 15 minutos… Mas intimamente algo me dizia que o desastre era inevitável.
Aquela era a primeira Copa que eu acompanhava integralmente, com consciência do que fazia. Havia ajudado a desenhar “Naranjitos” em todos os muros possíveis e passara várias madrugadas pintando enormes bandeiras brasileiras no chão de asfalto da minha rua e de outras próximas. O trabalho devia ser feito escondido porque tínhamos medo de ser presos. Havia uma certa sensação de perigo por estarmos fazendo algo “subversivo”. Afinal, ainda vivíamos sob a ditadura naqueles idos de julho de 1982. Era crime, como as autoridades lembravam a todo o momento, vilipendiar o pavilhão nacional.
Lembro-me do “Pacheco”, personagem que também marcou aquele ano e que tem lugar especial na minha adolescência. O “Camisa 12” com seu olhar esbugalhado e fanatismo pelo Brasil éramos todos nós. Todos os torcedores que nos juntávamos frente aos aparelhos de televisão em nossas garagens, cercados pela família e amigos, assando um churrasco e arriscando prognósticos para lá de otimistas ao som do pagode do Júnior.
Mais do que tudo, havia aquela seleção maravilhosa. Uma armada invencível, um Titanic que singrava de jogo em jogo mostrando para os gringos a infinita capacidade de improvisação e o poder dos jogadores brasileiros. Aos meus olhos de adolescente cada partida era um verdadeiro espetáculo. Ver Zico, Junior e Sócrates jogando me dava – e a todos os brasileiros – a certeza de que aquele era o nosso ano. A primeira copa que eu acompanhava integralmente seria também a do tetracampeonato brasileiro. Era bom demais para ser verdade!
Lembro-me que pensava em cada uma destas coisas enquanto andava pelas ruas desertas e poeirentas. À medida que a voz dos locutores ficava mais dramática, eu sabia que o meu sonho teria de aguardar mais um pouco. No meio do caminho havia Paolo Rossi, personagem que não havia sido convidado para a nossa festa, em quem eu sequer prestava atenção, mas que estava decidido a deixar sua marca – e seus pés – nos nossos corações.
No fim do jogo, o silêncio ainda reinava, atrapalhado por murmúrios e até choros em algumas casas. Não havia mais nada a fazer senão enrolar a bandeira, guardar o grito e esperar a próxima copa.
Fim de semana com tango April 15, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentáriosDica musical do fim de semana: o CD “Lunatico”, lançado recentemente pelo Gotan Project, o coletivo de músicos de diferentes países que, junto com o Bajofondo, estão na vanguarda do “tango eletrônico”. Música de primeiríssima qualidade e um CD indispensável.
O primeiro CD do Gotan Project, “La Revancha del Tango”, lançado em 2001 e que vendeu mais de um milhão de cópias, um pouco que marcou o padrão do que viria a ser o tango eletrônico. Este segundo CD, batizado em homenagem ao cavalo com que Carlos Gardel corria quando era jockey na Buenos Aires dos anos 30, consolida a carreira mais do que vitoriosa do grupo.
Acho que um dos segredos do sucesso de grupos como o Gotan e o Bajofondo é exatamente o fato de ser compostos por músicos de diferentes nacionalidades – e portanto de diferentes culturas musicais – que são absolutamente apaixonados por um estilo – neste caso o tango – mas ao mesmo tempo não são aferrados aos cânones tradicionais. Assim, podem prestar uma justa homenagem, respeitando os fundamentos do tango, mas ao mesmo tempo abri-lo para uma perspectiva que ultrapassa muito as fronteiras platinas dos milongueiros tradicionais.
Par dar uma idéia da qualidade de “Lunático”, abaixo a segunda faixa do CD, chamada “Nota”, escrita pelo argentino Eduardo Makaroff, uma das três caras que fazem o Gotan Project (junto com o francês Philippe Cohen-Solal e o suíço Christoph H. Müller). A letra está abaixo.
“Nota”
Africanos en las pampas argentinas
toques y llamadas de tambores
candombe, tango
Un gaucho y una guitarra
la payada milonguera y el fantasma de la indiada
china, cebame un mate
tango
Marineros, inmigrantes,
bandoneón, violín y flauta
habanera, canzonetas de los tanos
piano piano nació el tango
Nació el baile compadrito y orillero
guapo, futurista y nostalgioso
mestizaje de europeos, negros, indios
en el Río de la Plata
hace mucho, no se sabe justo cuándo
un buen día nació el Tango
Entre a cruz e a espada April 12, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 8comentáriosUPDATE 2: Hoje a correspondente do Globo, Janaina Figueiredo, sentiu na pele o já famoso desequilíbrio emocional, para dizer o mínimo, do Ollanta Humala. Ela estava participando de uma entrevista coletiva do candidato para a imprensa internacional e lhe perguntou sobre sua posição com relação aos destemperos verbais de seu irmão e de sua mãe, que defenderam, respectivamente, o fuzilamento do atual presidente Alejandro Toledo e de homossexuais. Humala perdeu as estribeiras e perguntou agressivamente a Janaina o que diria a avó dela se ele perguntasse à jornalista se ela ainda usava fraldas. Ela até que saiu-se bem… A nota completa está aqui.
UPDATE 1: A disputa pelo segundo lugar e pela chance de lutar contra Ollanta Humala no segundo turno das eleições peruanas segue indefinida. Lourdes Flores foi ultrapassada por Alan Garcia, quem segue na dianteira com uma diferença ínfima de votos. A decisão final pode levar 20 dias, quando forem contados todos os votos, inclusive os do exterior, e forem julgados todos os pedidos de impugnação. Enquanto isso, a iminência de um segundo turno entre Humala e Garcia provocou o seguinte comentário do polêmico jornalista peruano Jaime Beyly: “es como tener de decidir entre cortar el testículo derecho o el izquierdo”. Tem muita gente concordando com ele….
E no Peru as eleições seguem o rumo esperado. Ollanta Humala ganha, mas não leva ainda. O segundo lugar está embolado entre Lourdes Flores e Alan Garcia e as pesquisas indicam que seria ela quem iria para o segundo turno. O resultado quase repete as eleições de 2001, quando o outsider Alejandro Toledo teve de esperar um pouco para saber contra quem disputaria o segundo turno, se Flores ou Garcia, que também naquele ano se embolaram na reta final pelo segundo lugar em votos.
Esta será a terceira eleição em que os peruanos apostam em alguém fora do círculo político tradicional para a presidência. Antes já haviam tentado com Fujimori, quem – vindo do nada - derrotou o candidato do stablishment Mario Vargas Llosa e com o próprio Toledo, que derrotou a Alan Garcia.Em todas estas ocasiões os votos que fizeram a diferença vieram majoritariamente das camadas mais pobres da população. Este fato evidentemente não é perdoado por analistas mais conservadores, pela classe média e pela elite. Todos lavando as mãos, livrando a própria responsabilidade e apontando os dedos para a massa de “ignorantes” que conformariam o “Peru tradicional, atrasado, iletrado” que estaria continuamente se impondo sobre “Peru moderno” e impedindo o país de “entrar en la modernidad”.
Com a possibilidade de Ollanta Humala chegar ao poder a histeria tem chegado a níveis extremos. Já tem até banco aconselhando aos seus maiores clientes a transferirem seus recursos para o exterior. A imprensa em peso, tanto a conservadora como a mais liberal, está fazendo uma campanha cerrada contra o candidato. Diga-se de passagem que Ollanta Humala não é nenhum santo. Sua ideologia confusa e autoritária, seus vínculos com os militares relacionados a Vladimiro Montesinos, ex-eminência parda de Fujimori, além das diversas acusações de violação de direitos humanos que pesam contra o candidato deixam entrever que o temor nutrido com relação a ele têm fundamentos bem concretos.
Não é sem razão que a esquerda tradicional e grande parte dos movimentos sociais e ONGs querem distancia de Humala. Já ouvi muita gente com um perfil mais progressista dizendo que prefere cometer o sacrilégio de votar na conservadora Lourdes Flores a ser cúmplice da chegada ao poder de uma figura tão potencialmente nefasta como Ollanta Humala. E sua insistência em ser chamado por todos que o cercam, até pelos jornalistas, de “Comandante” e de usar um vocabulário típico de milicos em seus discursos não ajuda em nada a mudar a impressão que se tem dele.
Pergunta sem resposta definitiva
Daí fica a pergunta: por que uma parte considerável da população peruana insiste em uma fórmula com resultados desconhecidos e potencialmente desestabilizadores? Eu particularmente arrisco o palpite de que grande parte dos que votaram em Ollanta Humala e vão votar novamente nele no dia 7 de maio, quando será o segundo turno, não têm nada a perder. Vêm desta parcela majoritária da população que nunca foi beneficiada pelas bolhas econômicas que de tempos em tempos fazem avançar a economia peruana. Simplesmente não acreditam que o sistema político tradicional esteja de verdade preocupado com eles e vêem a riqueza surgir e avançar na centralizadora capital, Lima, enquanto o interior do país segue na mesma pobreza que tem vivido nesses 500 anos.
Para esta parcela da população o alerta dado pela mídia e candidatos tradicionais de que Humala, com seu discurso e prática castrense e seu passado de violação de direitos humanos, poderia redundar em uma espécie de ditadura branca como a da Venezuela não significa nada. Isto porque esta parte significativa da população já vive sob uma espécie de ditadura cultural, econômica e social que os faz viver como cidadãos de segunda classe.
Cidadãos para os quais sua língua original, o quéchua ou o aymara, suas roupas, traços fisionômicos, sobrenomes, costumes, enfim tudo que os faz ser o que são já é motivo mais do que suficiente para que sejam condenados a viver em uma espécie de “país paralelo”. Não são respeitados pelo que são e também são impedidos de entrar no “Peru Moderno”. A mobilidade social é quase nula e mesmo aqueles que conseguem concluir a universidade ou juntar dinheiro nunca conseguirão ultrapassar a barreira nem um pouco sutil que separa os brancos de todo o resto. São dois mundos realmente distintos que nesta campanha estão sendo personalizados por Lourdes Flores e Ollanta Humala.
Canalizando a insatisfação
O que está fazendo Humala é espertamente catalisar esta insatisfação e descrença no sistema político formal apresentando-se contra aquele que está contra “tudo isso aí”. Um filme que a gente já viu outras vezes inclusive no Brasil mas que continua atrativo. Claro que é muito fácil culpar a “ignorância dos pobres”, mas a minha visão é diferente. Na verdade acho que os votantes de Humala são muito inteligentes. Sabem que não podem confiar em Lourdes Flores – muito provavelmente com toda razão – e já conhecem muito bem a Alan Garcia. Daí porque não tentar com outro? Se não der certo, se tenta com outro nas próximas eleições. Afinal, já têm vivido na m… por 500 anos, alguns anos mais não farão a menor diferença.
Pode até ser uma análise simplista, mas tenho ouvido este argumento de diversas pessoas do povão, motoristas de táxi, trabalhadores de banca de jornal etc. No fundo não deixa de ser uma estratégia de sobrevivência e quem sabe talvez algum dia a elite deste país se dê conta de que não dá mais para ter uma economia com índices de crescimento como a peruana, com uma das bolsas de valores mais rentáveis do continente, enquanto uma boa parte da população tem um nível de vida comparável ao do período colonial.
Ilusão de Ótica April 11, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentáriosEssa me deixou meio hipnotizado.
Olhe para a figura abaixo. Seus olhos naturalmente acompanham o movimento circular do ponto rosa. Mas se você fixar seus olhos no centro do círculo (no símbolo de +) vai perceber que o ponto fica verde. Se você se concentrar bastante unicamente no símbolo de +, vai perceber que todos todos os pontos rosas desaparecem aos pontos e fica somente um ponto verde girando.
Além de alguma dor de cabeça e estrabismo, tudo não passa evidentemente de ilusão de ótica. É o nosso cérebro sendo enganado e nos induzindo a erro. Prova de que não é só na política que as coisis sem sempre são o que parecem.
Divirtam-se!

O Peru vai às urnas… April 9, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 3comentáriosNeste domingo, o Peru vai às urnas para votar para presidente a República e para o Congresso Nacional. E por causa disso desde sexta-feira estamos sem poder comprar sequer uma garrafinha de cerveja na bodega da esquina. É que a Lei Seca por aqui funciona mesmo, pelo menos no bairro onde vivemos.
São cerca de 18 milhões de votantes, que estão transformando estas eleições numa espécie de partida de futebol que só será resolvi aos 45 minutos do segundo tempo (espera-se que sem nenhuma “mão de Deus”). São 20 candidatos à presidência, mas só três contam de verdade: a conservadora Lourdes Flores, o ultranacionalista Ollanta Humala e o ex-presidente Alan Garcia. Até o último momento todas as pesquisas indicavam uma dianteira nas preferências de Ollanta Humala, com Lourdes logo atrás meio embolada com Alan Garcia.
Está todo mundo apavorado com a possível vitória de Humala. Os cenários descritos pela imprensa descrevem um ambiente apocalíptico caso ele vença. Já tem até gente de esquerda acreditando que uma vitória de Lourdes Flores seria um mal menor. As pesquisas de opinião divulgadas há dois dias indicam um virtual empate técnico entre os três candidatos, com uma quantidade de indecisos entre 10 e 20%. Ou seja, tudo pode acontecer.
Na prática, estas eleições vão determinar o modelo que o país adotará para os próximos cinco anos. Lourdes Flores representa uma opção pela continuidade do esquema que gerou um crescimento econômico recorde nos últimos cinco anos, mas que não foi capaz de reduzir a pobreza e o desemprego. Humala, por sua vez, prega uma mudança radical e promete nacionalizar os setores estratégicos da economia e combater a classe política tradicional. Entre os dois se apresenta Alan Garcia como uma alternativa de centro com relação a quem ele chama de “a candidata dos ricos” ou o “salto ao vazio”, representado por Ollanta Humala. Ao mesmo tempo, ele tenta apagar da memória dos peruanos o caos econômico em que deixou o Peru quando saiu da presidência, em 1990.
No final do dia já deverá haver alguma projeção que indique quem deverá ir para o segundo turno.
Abaixo uma reprodução da capa do programa de governo de Lourdes Flores, “El Perú em manos firmes”. Dispensa comentários…

Trilha sonora da infância April 4, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 13comentáriosAinda na linha “saudade não tem idade”, inaugurada no Síndrome de Estocolmo, fiquei me lembrando das músicas das séries e desenhos que eu via na minha infância e que até hoje não saem da minha cabeça. Aliás, nos momentos de “ócio mental”, quando não estou pensando en nada especificamente, são muitas vezes estas musiquinhas que vêm à minha cabeça.
Abaixo uma lista das que mais gosto (independente de gostar ou não dos respectivos desenhos ou séries). Em algumas aproveito para incluir a música original.
Os Flintstones
Clássico fácil… O “yabadabadoo” acho que está na cabeça de todo mundo com mais de 30 anos. O desenho ainda é do tempo em que ter um “gay old time” significava apenas ter uns momenos de alegria inocente… Alguém lembra da letra da música: “Flintstones, meet the Flintstones / They’re the modern stone-age family / From the town of Bedrock / They’re a page right out of history / Let’s ride with the family down the street / Through the courtesy of Fred’s two feet / When you’re with the Flintstones / Have a yabba-dabba-doo time / A dabba-doo time / You’ll have a gay old time”.
O Picapau
Admito que ria “às bandeiras despregadas” (para anter o clima do post) com as maldades do picapau. Tinha um colega na minha turma, lá pela quarta série que imitava a risadinha do picapau à perfeição. Todo dia matava todo mundo de rir.
Manda-Chuva
O jazz vocal da música de abertura é um clássico. Eu me amarrava nas armações do Manda-Chuva e no boa gente do Batatinha. Agora, sabiam que o Lima Duarte era quem dublava tanto o Manda Chuva como o Bacana, o “conquistador barato” da turma?
Os Jetsons
Entrava a o barulhinho de nave espacial do começo da música e eu já saia correndo para assistir. Ficava imaginando o tempo em que se poderia viajar de um lugar para outro nos tais carrinhos voadores. A música com um tom “jazzístico” bem anos 60 continua um clássico.
Família Addams
Os filmetes eu me lembro que eram em preto e branco, acho que dos anos 40, bem precários mesmos… Eu gostava mesmo era do começo da música, com o tan-tan-tan acompanhado do estalar dos dedos.
Jeannie é um Gênio
Tenho que admitir que a música é muito boa. Aliás, a Jeannie com aquela roupa que na verdade não mostrava nada foi uma das minhas primeiras fantasias eróticas pré-adolescentes. Principalmente quando aparecia nas cenas de sofá dentro da sua garrafa. Revendo estas cenas hoje em dia se percebe que são tão absolutamente kitsch e anódinas que não consigo imaginar que tesão eu via alí. Mas pré-adolescente fica excitado até com fechadura de porta…
Jornada nas Estrelas
“O espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos, para explorar novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações… Audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve.”
Esses cinco anos já estão durando quase 50, principalmente porque a abertura deste clássico não sai da cabeça de ninguém com mais de 30.
Além da Imaginação (The Twilight Zone)
A música de abertura da série já arrepiava por si mesma. Essa eu não perdia de jeito nenhum e até hoje me lembro de vários episódios… Rod Serling, o criador da série, aparecia na abertura narrando o texto de introdução: “Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo Homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do Homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação”.
O que vinha a seguir era na certa alguma história fantástica, arrepiante e muito bem feita.
Batman
Essa quem tem mais de 30 também não esquece… Os “pows”, “bahs” e não sei que outras honomatopéias que na tela acompanhavam o gritinho “Batman, Batman, Batman” da música de abertura já estão no inconsciente coletivo. O B-52´s deu uma modernizada, mas o original continua com o seu punch.
Flipper
Já naquela época achava a músiquinha chata. Mas é o tipo de música que quando a gente ouve uma só vez ela permanece martelando no ouvido… “They call him flipper, flipper, flipper…
Bonanza
Eu não gostava da série, mas a musiquinha de abertura, quando tocava, demorava a sair da minha cabeça…
Wild, Wild West
Desta série eu gostava e a música era outra que quando eu escutava saia correndo para ver.
Zorro (Lone Ranger)
Não gostava muito da série, mas quando começava a música (a clássica abertura de Guilherme Tell) não tinha como ficar indiferente.
Missão Impossível
Outro clássico que já virou parte da memória coletiva. O Tom Cruise pode fazer o que quiser, mas a série original dá de 10 a Zero. É até covardia.
[
Agente 86
Putz, imperdível. A música não sai da minha cabeça até hoje (nem a agente 99, o sapatofone e o “cone do silêncio”).
Havaí 5-0
Outra covardia… Começavam os acordes da música de abertura e a vontade que dava era de dançar.
Secret Agent Man
Essa eu incluí de bônus. A série de mesmo nome não sei se chegou a passar no Brasil (eu pelo menos nunca assiti). Mas a música de abertura, interpretada pelo Johnny Rivers, é duca…
QWERT April 1, 2006
Postado por tordesilhas em : Geral , 8comentáriosO Mateus trata o computador como se fosse mais um brinquedo. A coisa mais normal do mundo. Com pouco mais de 4 anos de idade, ele sabe exatamente como usar o computador e acessar os dois sites de jogos online de que mais gosta: Cartoon Network e Iguinho. Usa o mouse e as teclas tão bem como maneja os lápis de cor de suas tarefas escolares. Ou seja, a coisa mais normal do mundo. Pior que para ele é mesmo. Vai crescer num mundo onde sempre existiu computador, internet, dvd etc.
Eu ainda cheguei a conhecer e usar a máquina de escrever. Quando era moleque até estudei datilografia (mas nunca superei o ódio mortal pelo QWERT repetido ad nauseum). Mas quando era adolescente já me fascinava pelos computadores, que naquela época eram menos potentes do que uma boa calculadora científica atual. Lembro-me que quando tinha uns 15 anos fui a uma feira de informática no Riocentro. A grande novidade em termos de computador pessoal era o TK-85. Alguém ainda se lembra disso? Era uma caixa cinza que se ligava na televisão e tinha um processador com a incrível memória de 16kb. Mas eu ficava sonhando quando eu teria um só para mim.
Quando comecei a estagiar nos meus tempos de faculdade, lá pelos idos de 1990, a ONG onde fazia o meu estágio já tinha uns computadores doados por uma organização americana. Usavam DOS e eu tinha de escrever meus textos num Wordperfect 5.0 para DOS, com direito a tela de fósforo verde. Imagina o que era desenhar e escrever um boletim usando DOS. Pois é, naquela época HD ainda era chamado de winchester e a grande revolução para mim foi quando recebemos uns computadores 386 que rodavam windows 3.x.
Outra descoberta foi quando fui fazer uma pós nos Estados Unidos pelos idos de 1995 e assim que entrei na universidade recebi uma senha para acessar a internet. Cada aluno tinha esse direito, que não passava de uma miragem no Brasil daquela época. A gente tinha acesso a todo o acervo da universidade online. Era demais pra minha cabeça.
Depois tudo vai ficando parte da rotina, de tal maneira que eu mal consigo lembrar do tempo em que usava máquina de escrever. Do tempo em que não podia consultar o Google enquanto escrevia um texto para tirar alguma dúvida na hora. Hoje em dia o computador já é até peca de museu, como os exemplares dos primeiros Macintosh expostos no MET, em Nova York.
Até já me imagino falando pro Mateus que eu cheguei a escrever textos em máquina de datilografar. Ele vai olhar pra mim e achar que eu é que sou peça de museu…
Update: Para não me deixar mentir, uma foto tirada neste domingo do Mateus jogando no indefectível Cartoon Network.

