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Homofobia em eleições peruanas March 29, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , trackback

Há 12 dias das eleições no Peru, as mais recentes pesquisas mostram uma consolidação do candidato ultra-nacionalista Ollanta Humala em primeiro lugar, com cerca de 32% das intenções de voto contra a conservadora Lourdes Flores, com 28% e o ex-presidente Alan Garcia, com 22%. Um eventual segundo turno entre Humala e Flores ainda aponta para uma vitória da segunda, mas tem muita gente falando no “voto envergonhado” que no final poderia ir para Ollanta, dando-lhe a vitória.

E dá-lhe análises nos principais jornais e notícias tentando entender o que está passando e, principalmente, detonando de todos os ângulos possíveis a candidatura de Ollanta Humala. Os cenários que estão sendo pintados se ele ganhar são os mais apocalípticos possíveis: fuga em massa de investimentos, instabilidade política gerada pela falta de base de sustentação no congresso, tomada por parte do novo governo de medidas autoritárias extremas, incluindo a expropriação do controle dos meios de comunicação, etc. e tal.

De certa forma, a incerteza quanto ao futuro do país sob um governo de Humala se justifica, porque a base política na qual ele foi gerado, o movimento “etnocacerista”, é extremamente autoritário, conservador e sectário. Já comentei em um post anterior aqui. Ollanta Humala tem adotado um discurso mais equilibrado, tentando distanciar-se das idéias defendidas pela sua família, mas está difícil.

Os episódios mais recentes da diarréia verbal de seus progenitores e seguidores incluem uma defesa feita por seu pai - e ideólogo do “etnocacerismo” -, Isaac Humala, do perdão aos líderes da sangrenta guerrilha do Sendero Luminoso, que aterrorizou o país por quase 20 anos. Elena Tasso, a mãe do candidato, por sua vez, não deixou por menos e deu uma entrevista dizendo textualmente que “com dois homossexuais que fossem fuzilados, já não se veria pelas ruas tanta imoralidade”. As posições homofóbicas do clã humala já são famosas e o principal jornal do grupamento político – coincidentemente chamado “Ollanta” - defende abertamente a agressão aos que apresentem comportamento homossexual em público.

Essas declarações da Elena Humala causaram alarme e líderes da comunidade gay pediram ao candidato que apresentasse publicamente sua posição sobre o tema. Fiel ao seu novo perfil “paz e amor”, ele disse que não avaliza as declarações da mãe e que até teria homossexuais declarados em seu ministério. O fato é que até hoje ele não aceitou dar uma entrevista ao jornalista e escritor Jaime Bayly, uma celebridade no Peru e bissexual assumido, que conduz um programa na televisão dedicado exclusivamente à cobertura das eleições.

Aliás, segundo notícias publicadas nos jornais de hoje, Bayly teria sido ameaçado por Isaac Humala quando uma pessoa da produção do seu programa tentou marcar uma entrevista com o líder etnocacerista. A resposta: “Díganle a ese maricón que no vamos a ir a seu programa y que cuando seamos gobierno lo vamos a fusilar”. Curto e grosso.

Ollanta continua tentando a todo custo distanciar-se das idéias malucas de sua família. Ele fez um chamado à esquerda tradicional para que lhe dê apoio no segundo turno, que certamente será contra a candidata conservadora Lourdes Flores. Mas o canto da sereia não encontrou eco, até agora, entre os progressistas do país. Isto apesar do apoio explícito que Humala vem recebendo de Hugo Chavez.

O fato é que um segundo turno entre Lourdes Flores e Ollanta Humala será uma espécie de choque entre dois países, entre duas culturas, entre dois “espaços mentais e geográficos”: a centralizadora Lima, com seu pseudo-cosmopolitismo, e as províncias, com suas culturas e economias eternamente relegadas a segundo plano. Aqui se pode ler um artigo muito interessante que trata deste aspecto que está por trás das complicadas eleições peruanas.

Comments»

1. Marcus - 29 March, 2006

Li uma pesquisa recente que mostrava que Alan Garcia tinha se embolado com os dois primeiros na luta pelo primeiro lugar. Um segundo turno entre ele e Humala, pelo que você relata, aparentemente resultaria em sua volta ao poder, não?

O apoio de Chávez a esse aventureiro deixa ainda mais claro pra mim que o presidente venezuelano não passa também de outro aventureiro.

2. pisconight - 30 March, 2006

Basta ser político ou militar para se desconfiar…
;)