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A vez do Peru January 2, 2006

Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentários

Prestem atenção neste sobrenome: Humala. Nos próximos meses ele será cada vez mais conhecido no Brasil e na América Latina, na medida em que se aproximar a data para as eleições presidenciais no Peru, em abril próximo. Ollanta Humala, ex-militar que liderou uma revolta contra Fujimori e é um dos chefes do ultra-nacionalista movimento “etnocacerista”, desponta como sério candidato a ganhar a presidência peruana e já está empatado em primeiro lugar nas pesquisas com a candidata conservadora Lourdes Flores.

A possibilidade de que Ollanta Humala seja eleito presidente do Peru está deixando a elite política, econômica e intelectual local de cabelos em pé. Ninguém sabe o que significaria para estabilidade do país a eleição deste candidato sem base política sólida e que lidera um movimento que mescla um ideário proto-nazista com conceitos de esquerda nacionalista. Para se ter uma idéia, o símbolo do movimento é uma cruz incaica posicionada sobre uma bandeira vermelha, branca e preta, normalmente apresentados em um estandarte no qual desponta a figura de um condor dourado com as asas abertas. As referências à simbologia nazista são óbvias.

A verdade é que ninguém sabe direito como classificá-lo. Em primeiro lugar não dá para compará-lo directamente com líderes como Evo Morales, apesar de sua defesa da herança incaica. Ele estaria mais para Lucio Gutierrez, o ex-presidente equatoriano de origem militar que chegou ao poder com um discurso anti-elite e apoio de movimentos sociais e acabou retirado da presidência a força.

O clã familiar Humala tem uma longa história de envolvimento em movimentos políticos. O patriarca Isaac Humala, um velho líder comunista, foi quem formulou a ideologia do “etnocacerismo”, que prega a recuperação do Tahuantinsuyo (nome genérico das áreas comprendidas pelo Imperio Inca no seu apogeu). Este profundo nacionalismo de base indígena defende que os peruanos somente sairão da miséria e da desesperança com a liderança dos descendentes dos incas. Isaac Humala diz que seu sobrenome é de linhagem antiga e que sua família historicamente é de “cuacaracas” (caciques incas).

Os etnocaceristas buscam sua inspiração na figura do general Andrés Avelino Cáceres que durante a guerra do Peru contra o Chile, na segunda metade do século XIX, liderou um movimento guerrilheiro indígena contra os invasores chilenos desde os Andes, quando Lima já havia se rendido. O curioso é que quando os indígenas começaram a questionar não apenas os invasores do país do sul, mas também os latifundiários peruanos que controlavam as terras na região andina, foram traídos por Cáceres e fusilados a mando dele. Evidentemente esta parte da história não é mencionada pelo líderes etnocaceristas e bem pode ser uma pista interessante das contradições profundas deste movimento. Outra é que Ollanta, apesar de ser um importante líder do movimento, sequer fala o quéchua.

De toda maneira ele e seu irmão Antauro, também militar, começaram a surgir para a vida pública quando em 29 de outubro de 2000 lideraram uma revolta de militares no sul do Peru contra o presidente Alberto Fujimori, pedindo sua renúncia e a instauração de um governo representativo do povo. Na verdade Fujimori já estava acabado naquele momento mas a revolta pôs os Humala como líderes de uma espécie de “reserva moral” das forças armadas. Ollanta foi recompensado pelo governo de transição liderado por Valentín Paniagua com o indulto e o retorno ao seu posto. Chegou a ocupar posições em representações diplomáticas no estranjeiro, já sob o governo de Alejandro Toledo.

Na sua ausência, Antauro Humala tomou a representação pública dos etnocaceristas radicalizando o discurso que prega inclusive a tomada do poder pela força, se for necessário. Uma prova desastrada de suas intenções foi a tomada, na virada do ano de 2004 para 2005, da delegacia de polícia da pobre cidade andina de Andahuaylas por um grupo armado de etnocaceristas que resultou na morte de seis pessoas. Antauro Humala foi preso logo depois dessa ação e está em um cárcere limenho aguardando o julgamento que pode condená-lo a uma pena de 35 anos.

Depois desta ação radical, Ollanta Humala começou a afastar-se estrategicamente de seus parentes mais radicais e lançou sua candidatura à presidência. Primeiro vista como um exotismo, sua candidatura começou a alçar vôo no vácuo de lideranças políticas tradicionais que contem com o respaldo e o respeito da população.

O presidente Alejandro Toledo está terminando o seu mandato com níveis baixíssimos de popularidade, apesar da estabilidade dos indicadores macro-econômicos. O fato é que a sociedade peruana está mais fragmentada do que nunca, a centralização política e econômica de Lima é cada vez mais questionada e desafiada e as lideranças políticas tradicionais simplemente não conseguem ser as catalizadoras das demandas populares reprimidas.

Do lado dos políticos tradicionais não há, de fato, muitas opções viáveis. Lourdes Flores, a candidadata que está competindo nas pesquisas com Ollanta Humala, é ultra-conservadora e ligada a forças políticas, econômicas e religiosas de direita que pouco têm contribuído de verdade para superar o fosso social e econômico que marca o Peru. Há também o ex-presidente Alan Garcia, desacreditado até a última raíz de seus cabelos, e a frágil candidatura da esquerda tradicional, representada pelo congressista Javier Diez Canseco. Além deles, há pelo menos mais 23 pré-candidaturas à presidência.

Neste contexto não surpreende que um líder como Ollanta Humala seja encarado pela população como uma alternativa “ao que está aí”. Foi este mesmo sentimento que permitiu o surgimento de Alberto Fujimori, em contraposicão ao desastroso governo de Alan Garcia, e depois de Alejandro Toledo, como uma esperança de renovação depois de 10 anos de corrupção fujimorista. Apesar das decepções parece que os peruanos estão dispostos a embarcar em mais uma aventura política.

Uma excelente análise sobre o fonômeno Humala pode ser encontrada aqui.