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Na Colômbia, paramilitares estão no centro do jogo político January 27, 2006

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A revista “Semana”, a Veja da Colômbia (só que melhor – aliás, hoje em dia parece ser fácil ser melhor do que a Veja), publica uma interessante matéria sobre a infiltração sistemática dos paramilitares na vida política colombiana, un fenômeno ainda pouco discutido fora do país. Em minhas viagens à Colombia mais de uma vez ouvi o relato de pessoas cujas vidas foram destruídas pelo conflito armado e os “páras” são cada vez mais protagônicos neste xadrez perverso.

Não é segredo para ninguém que tanto os paramilitares como as FARC são financiados ou administram eles mesmos o rentável negócio da produção e tráfico de drogas na Colômbia. Se nos anos 80 e parte dos 90, os capos das famílias de narco-traficantes de Cali e Medellín, capitaneados pelo quase popstar Pablo Escobar, eram a referência quando se falava no tema, o século 21 viu uma significativa parte do controle do negócio mudar de mãos.

Com o fim do financiamento vindo da extinta União Soviética as FARC não tiveram outro remédio que o de financiar suas ações primeiro a partir da cobrança de “imposto revolucionário” dos traficantes, depois com o controle puro e simples da cadeia produtiva da coca. O mesmo caminho seguiu os paramilitares, cada qual em sua respectiva zona de influência no país. A diferença é que as FARC controlam áreas muito específicas da Colômbia e são caracterizadas –e caçadas - como um grupamento terrorista. Os “páras”, por sua vez, contam com o respaldo velado (e muitas vezes explícito) de amplos setores do governo. Não se pode esquecer que o mesmo presidente Álvaro Uribe tem sua origem em um grupo de paramilitares da região de Medellin.

Os paramilitares são também beneficiados por um programa governamental de “justicia y paz”, que premia a delação dos “arrependidos”, promove a “desmobilização” das forças paramilitares e na prática lhes premia com o perdão de seus crimes e apoio estatal para “reintegrar-se” à vida civil. Concretamente isto tem significado que os líderes dos “páras” estão se tornando verdadeiros barões das comunidades onde atuam, vendendo serviços de “segurança”, controlando políticos, agências governamentais e ONGs locais, e abrindo outros rentáveis negócios apoiados por financiamento estatal. Ou seja, “limpando” seus passados criminosos e virando “respeitáveis” barões locais e regionais. Tudo isto entre muitas aspas, já que ameaças, assassinatos seletivos e eventuais massacres continuam sendoi o modus-operandi dos paramilitares.

Este processo de “higienização” e legitimização dos “páras” está chegando ao paroxismo nas vésperas do processo eleitoral que vai renovar o congresso colombiano e quase certamente reconduzir Álvaro Uribe à presidência. A todo momento pipocam denúncias na mídia sobre os acordos e esquemas que estão sendo montados pelos líderes paramilitares para eleger deputados e senadores alinhados com suas visões políticas. Dinheiro é o que não falta e praticamente não há um partido que não mantenha suas relações espúrias com estes novos caciques regionais.

Uma das denúncias mais recentes envolvem um grupo de políticos “uribistas” da região de Magdalena flagrados em uma reunião com o comandante pára-militar conhecido como “Jorge 40” para definir a estratégia eleitoral que os levaria ao poder. A grita foi tanta que ele tiveram de ser excluídos das chapas eleitorais pelos sues respectvos partidos (todos da base de Uribe).

Esta é apenas uma dentre dezenas de denúncia de como o sistema político colombiano está sendo sistemanticamente contaminado e controlado pelos paramilitares e seus simpatizantes. Isto parece repetir um movimento tentado antes, em meados dos anos 80, pelos cartéis de narcotraficantes que chegaram a tentar alcançar a presidência por meio de um candidato comprometido com eles. Suas asas foram cortadas pela ação rápida das forças políticas, da justiça e da cidadania. O problema agora é que os “páras” de alguma maneira já estão no poder, apesar de Uribe negar a todo momento a vinculação de seu governo com eles.

E certamente o projeto político dos paramilitares não vem de hoje. Difícil de acreditar que o extermínio literal da principal força política de esquerda, a Unión Patriótica, já não fazia parte de uma visão de futuro. Seus principais líderes locais, regionais e nacionais foram sistematicamente assassinados, principalmente pelos “páras”, ao ponto em de o partido, antes muito importante, simplesmente ter deixado de existir.

Há uma força política mais à esquerda remanescente, a qual inclui até ex-guerrilheiros do M-19, mas diferentemente do restante da América Latina, esta não tem sido capaz de atrair aos colombianos, que siguem encantados pela retórica e carisma de Uribe, chamado de “presidente-teflon”, já que parece imune às constantes “metidas de pata”, como se diz aqui, que seu estilo autoritário produz.

O interessante artigo da revista Semanas está disponível aqui.

Brasil-Colômbia, via Panamá January 27, 2006

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Nessas férias pelo Brasil me dou conta de como estamos atrasados tecnologicamente com respeito a nossos vizinhos sul-americamos, pelo menos no que se refere ao acesso público à internet. Vim mal acostumado do Peru, onde em cada esquina tem uma cabina de internet com acesso de alta velocidade por cerca de R$ 2,00 a hora. Chego no Brasil e é difícil encontrar cabines de internet e quando achamos geralmente tem poucos computadores e o acesso é caro (encontrei de até R$ 9,00 a hora). Por isso peço desculpas aos meus 17 fiéis leitores pela falta de atualização.

Mas agora aproveitei uma viagem relâmpago à Colômbia para atualizar o blog. Sim, porque aqui em Bogotá também é muito fácil encontrar cabines de internet (diga-se de passagem o mesmo se passa na Bolívia e no Chile).

Aliás, uma mostra de que ainda falta muito para integrar realmente a América do Sul foi o périplo que tive de fazer para chegar à Colômbia. A pré-falimentar Varig suspendeu o vôo direto que tinha para Bogotá desde Manaus. Por isso, fui obrigado a tomar um vôo da Copa Airlines de Sao Paulo até a Cidade do Panamá para de lá chegar a Bogotá. O mesmo trajeto terei de fazer de volta. Ou seja, para chegar até a capital de um país vizinho ao Brasil tive de viajar até a América Central. Isto sem contar o tempo de viagem dentro de Brasil desde Pirapora (norte de Minas) até Sampa. No total tive de aturar um dia e meio de viagem para ir e outro tempo igual para voltar ao Brasil para ficar somente um dia trabalhando em Bogotá. Literalmente, ossos do ofício.

E a grande novidade de hoje na Colômbia foi o resultado de uma pesquisa de opinião pública encomendada pelo jornal El Tiempo (principal do país) que indica que Álvaro Uribe não seria reeleito no primeiro turno das eleições de abril. A oposição sonha em provocar um segundo turno acreditando que Uribe teria dificuldades de se impôr frente a uma coalisão de centro-esquerda.

A bem da verdade, segundo os resultados da pesquisa Álvaro Uribe conta com 48% das intenções de voto contra 8,5% do segundo colocado, o pré-candidato pelo Partido Liberal Horacio Serpa. Ou seja, não dá para dizer que o atual presidente colombiano esteja realmente ameaçado. Mas não deixa de ser um fato novo esta queda nas preferências eleitorais, notável quando se compara com os 70% de intenção de votos de que ele dispunha há três meses. Uma das razões apresentadas pelos analistas para esta queda foram as recentes denúncias de vínculos de congressistas ligados a Uribe com os pára-militares. Isto gerou uma crise política que resultou na expulsão destes parlamentares dos partidos que dão sustentação ao governo.

Seja como for, Álvaro Uribe suspendeu o anúncio oficial de sua candidatura à reeleição que seria feito em uma grande festa organizada pelo Partido Conservador. O presidente alegou que está sendo coerente com a promessa que havia feito de que fará “mais governo do que campanha” e por isso não quer se expor publicamente ainda como candidato. Ele tem até o dia 10 de março para anunciar a candidatura. A direção do Partido Conservador teve de montar uma operação de guerra para desconvidar as mais de 20 mil pessoas que foram convidadas para o evento. O prejuízo chega a alguns milhares de dólares porque se estava programando uma festa de arromba.

Mas estas indas e vindas dificilmente mudarão o fato de que Álvaro Uribe será reeleito presidente da Colômbia. A sua política de “segurança cidadã” apesar de altamente questionada pela oposição, ONGs e setores da comunidade internacional, continua encontrando eco junto à população, que quer uma solução definitiva ao conflito armado que há décadas paralisa o país.

E last but not least ganhei de meus colegas de escritório um CD de “Jorge Velosa – El Carranguero Mayor”. É um cantor de “carranga”, um ritmo típico da Colômbia que se assemelha muito ao nosso ritmo caipira tradicional de Renato Teixeira e Tonico e Tinoco. Mais uma prova da proximidade cultural entre Brasil e Colômbia. Para os que estiverem interessados em conhecer um pouca da carranga, aqui se pode escutar “Ni luto, ni lagrimones” na voz de Jorge Velosa.

Bachelet chegou lá! January 15, 2006

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Bachelet é a nova presidente do Chile, eleita com cerca de 53% dos votos, mais de 6% de vantagem com relação ao seus opositor, Sebastián Piñera. Esta eleição é extraordinária, principalmente para um país machista, no qual o divórcio só passou a ser permitido há menos de um ano e homens e mulheres ainda votam totalmente em separado. Santiago foi invadida por militantes e simpatizantes da Concertación, o grupo político de centro-esquerda que está no poder há 15 anos. A cerimônia de posse será no dia 11 de março.

Subcomandante Marcos January 9, 2006

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E como o mundo dos blogs não tem limites, vai aí uma dica: não dá para perder o blog do Subcomandante Marcos. Qeu de “não-oficial” não tem nada.

Não sou um fã particular dele, mas há de reconhecer que foi dos primeiros “contestadores do neoliberalismo” a usar ed maneira inteligente a mídia. Só por isso já merece respeito.

Tô no Brasil! January 9, 2006

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Janeiro, época de férias no Brasil. Volta à terrinha para lembrar por que no Peru nao tem uma vez que alguém nao nos lembre que viemos “del pais más grande del mundo”. O périplo que temos de fazer a cada vez que viajamos entre Rio, Sao Paulo, Minas Gerais e Brasília realmente dá uma idéia da grandeza geográfica do país, em comparacao com nossos países latino-americanos. De repente daí vem uma das explicacoes para o nosso chauvinismo com relacao aos nossos vizinhos.

Aliás, foi só abrir os jornais e ver os noticiários para ficar surpreso de novo em como a América Latina continua uma ilustre desconhecida para a nossa imprensa. Claro, tem as excecoes de sempre: a Argentina e alguma coisa sobre Venezuela, por causa do Chavez, e Bolivia, logo depois das eleicoes que puseram Evo Morales no poder.

Nos próximos dias o Chile deve voltar ao noticiário, por causa do segundo turno nas eleicoes, dia 14 de janeiro. Dia 22 deve ter mais de Bolívia, com a posse do Evo, cercado de uma fauna muito interessante de representantes de movimentos sociais. Aliás, deverá ser uma cerimônia muito interessante, uma vez que o Evo já disse que usará uma vestimenta cerimonial indígena, em vez do tradicional terno-e-gravata.

Há tanta coisa interessante acontendo mais além das fronteiras me dá muita pena que a imprensa basicamente só tenha espaco para notícias vindas dos Estados Unidos e Europa. Nem as razoes geopolíticas servem de explicacao para esta miopia. Mas eu já noto um aumento de interesse e seria fantástico que mais gente vivendo em países latino-americanos compartilhassem suas experiencias.

Enquanto isso, tento atualizar o blog bissextamente desde o nosso Brasilsao… Por enquanto, curtindo com a família as praias de Ubatuba. Depois de Sao Paulo e Rio de novo. Ou de algum outro ponto do “maior país do mundo”.

ultra-nacionalismo a la peruana January 3, 2006

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E o patriarca dos Humala resolveu dar o ar da sua graça e tirar uma casquinha da celebridade que o clã familiar ultra-nacionalista está alcançando por conta das eleições presidenciais no Peru. Isaac Humala, ideólogo do “etnocacerismo” ou “etno-nacionalismo”, tirou esta segunda-feira para dar entrevista às suas mais importantes estações de rádio do Peru e explicar, entre outras coisas, por que não votará em seu filho Ollanta Humala e como será um governo etnonacionalista.

Em resumo Issac Humala disse que não votará por seu filho Ollanta Humala cuja candidatura estaria contaminada desde que ele teve de se aliar a “políticos corruptos” para viabilizá-la. Seu voto irá para seu outro filho, Ulises Humala, que também é candidato a presidência e quem representaria de maneira mais integral os idéias do etno-nacionalismo.

Ele reconhece que o Peru não estaria preparado para um governo etnocacerista e por isto a chegada de Ollanta Humala seria uma espécie de prévia. Sua lógica é a de que é preciso primeiro que o país tenha um governo nacionalista para que enfim sejam criadas as condições para um futuro governo etno-nacionalista puro. Já ouvi isso em algum lugar…

Deixou claro que em um futuro governo etno-nacionalista apenas as pessoas de ascendência “cobriza andina”, ou seja, os descendentes dos povos indígenas dos Andes (incas, aimarás etc.) terão a nacionalidade plena peruana. “O que vemos é que no Peru, como uma “etno-nação”, os nacionais, pelo seu sangue, têm de ser os cobrizos andinos. O resto serão cidadãos com direitos”, disse.

Um momento de muita lucidez foi a resposta que deu quando lhe pediram uma comparação entre Ollanta Humala e Evo Moralez:

“Acredito que no Peru não existe um movimento nacionalista ou etno-nacionalista e os Humala representam apenas a si mesmos. A intenção de voto em favor de Ollanta não se deve a que exista um setor que esteja aderindo a esse ideário, e sim a que existe um grupo descontente com a classe política.”

Um ótimo resumo da entrevista, incluindo áudios, pode ser encontrado no site da rádio RPP aqui.

Mão imperdível mesmo é o site do “Ollanta”, o órgão oficial do movimento etnocacerista. Está aqui e merece uma visita.

A vez do Peru January 2, 2006

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Prestem atenção neste sobrenome: Humala. Nos próximos meses ele será cada vez mais conhecido no Brasil e na América Latina, na medida em que se aproximar a data para as eleições presidenciais no Peru, em abril próximo. Ollanta Humala, ex-militar que liderou uma revolta contra Fujimori e é um dos chefes do ultra-nacionalista movimento “etnocacerista”, desponta como sério candidato a ganhar a presidência peruana e já está empatado em primeiro lugar nas pesquisas com a candidata conservadora Lourdes Flores.

A possibilidade de que Ollanta Humala seja eleito presidente do Peru está deixando a elite política, econômica e intelectual local de cabelos em pé. Ninguém sabe o que significaria para estabilidade do país a eleição deste candidato sem base política sólida e que lidera um movimento que mescla um ideário proto-nazista com conceitos de esquerda nacionalista. Para se ter uma idéia, o símbolo do movimento é uma cruz incaica posicionada sobre uma bandeira vermelha, branca e preta, normalmente apresentados em um estandarte no qual desponta a figura de um condor dourado com as asas abertas. As referências à simbologia nazista são óbvias.

A verdade é que ninguém sabe direito como classificá-lo. Em primeiro lugar não dá para compará-lo directamente com líderes como Evo Morales, apesar de sua defesa da herança incaica. Ele estaria mais para Lucio Gutierrez, o ex-presidente equatoriano de origem militar que chegou ao poder com um discurso anti-elite e apoio de movimentos sociais e acabou retirado da presidência a força.

O clã familiar Humala tem uma longa história de envolvimento em movimentos políticos. O patriarca Isaac Humala, um velho líder comunista, foi quem formulou a ideologia do “etnocacerismo”, que prega a recuperação do Tahuantinsuyo (nome genérico das áreas comprendidas pelo Imperio Inca no seu apogeu). Este profundo nacionalismo de base indígena defende que os peruanos somente sairão da miséria e da desesperança com a liderança dos descendentes dos incas. Isaac Humala diz que seu sobrenome é de linhagem antiga e que sua família historicamente é de “cuacaracas” (caciques incas).

Os etnocaceristas buscam sua inspiração na figura do general Andrés Avelino Cáceres que durante a guerra do Peru contra o Chile, na segunda metade do século XIX, liderou um movimento guerrilheiro indígena contra os invasores chilenos desde os Andes, quando Lima já havia se rendido. O curioso é que quando os indígenas começaram a questionar não apenas os invasores do país do sul, mas também os latifundiários peruanos que controlavam as terras na região andina, foram traídos por Cáceres e fusilados a mando dele. Evidentemente esta parte da história não é mencionada pelo líderes etnocaceristas e bem pode ser uma pista interessante das contradições profundas deste movimento. Outra é que Ollanta, apesar de ser um importante líder do movimento, sequer fala o quéchua.

De toda maneira ele e seu irmão Antauro, também militar, começaram a surgir para a vida pública quando em 29 de outubro de 2000 lideraram uma revolta de militares no sul do Peru contra o presidente Alberto Fujimori, pedindo sua renúncia e a instauração de um governo representativo do povo. Na verdade Fujimori já estava acabado naquele momento mas a revolta pôs os Humala como líderes de uma espécie de “reserva moral” das forças armadas. Ollanta foi recompensado pelo governo de transição liderado por Valentín Paniagua com o indulto e o retorno ao seu posto. Chegou a ocupar posições em representações diplomáticas no estranjeiro, já sob o governo de Alejandro Toledo.

Na sua ausência, Antauro Humala tomou a representação pública dos etnocaceristas radicalizando o discurso que prega inclusive a tomada do poder pela força, se for necessário. Uma prova desastrada de suas intenções foi a tomada, na virada do ano de 2004 para 2005, da delegacia de polícia da pobre cidade andina de Andahuaylas por um grupo armado de etnocaceristas que resultou na morte de seis pessoas. Antauro Humala foi preso logo depois dessa ação e está em um cárcere limenho aguardando o julgamento que pode condená-lo a uma pena de 35 anos.

Depois desta ação radical, Ollanta Humala começou a afastar-se estrategicamente de seus parentes mais radicais e lançou sua candidatura à presidência. Primeiro vista como um exotismo, sua candidatura começou a alçar vôo no vácuo de lideranças políticas tradicionais que contem com o respaldo e o respeito da população.

O presidente Alejandro Toledo está terminando o seu mandato com níveis baixíssimos de popularidade, apesar da estabilidade dos indicadores macro-econômicos. O fato é que a sociedade peruana está mais fragmentada do que nunca, a centralização política e econômica de Lima é cada vez mais questionada e desafiada e as lideranças políticas tradicionais simplemente não conseguem ser as catalizadoras das demandas populares reprimidas.

Do lado dos políticos tradicionais não há, de fato, muitas opções viáveis. Lourdes Flores, a candidadata que está competindo nas pesquisas com Ollanta Humala, é ultra-conservadora e ligada a forças políticas, econômicas e religiosas de direita que pouco têm contribuído de verdade para superar o fosso social e econômico que marca o Peru. Há também o ex-presidente Alan Garcia, desacreditado até a última raíz de seus cabelos, e a frágil candidatura da esquerda tradicional, representada pelo congressista Javier Diez Canseco. Além deles, há pelo menos mais 23 pré-candidaturas à presidência.

Neste contexto não surpreende que um líder como Ollanta Humala seja encarado pela população como uma alternativa “ao que está aí”. Foi este mesmo sentimento que permitiu o surgimento de Alberto Fujimori, em contraposicão ao desastroso governo de Alan Garcia, e depois de Alejandro Toledo, como uma esperança de renovação depois de 10 anos de corrupção fujimorista. Apesar das decepções parece que os peruanos estão dispostos a embarcar em mais uma aventura política.

Uma excelente análise sobre o fonômeno Humala pode ser encontrada aqui.