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Bolívia na encruzilhada December 17, 2005

Postado por tordesilhas em : Geral , 1 comentário até agora

Neste domingo a história da Bolívia pode mudar. Pela primeira vez um candidato de origem indígena poderá ser o mais votado para a presidência do país, com grandes chances de ser empossado no início de janeiro pelo Congresso também recém eleito. Evo Morales, o líder cocaleiro de origem quéchua, pesadelo dos americanos, das empresas petroleiras e dos grandes empresários nacionais, deverá ter uma votação que o deixará com algo em torno de 7% a 10% de vantagem em número de votos com relação ao oponente mais próximo Jorge “Tuto” Quiroga.

A qualificação de “líder cocaleiro” virou um lugar comum usado pela imprensa e pelos seus detratores em todo o mundo, o que acaba dificultando uma compreensão mais isenta do fenômeno Evo Morales. É verdade que a sua base de apoio e seu berço político está na região de Chapare, no leste da Bolívia, tipicamente produtora de folhas de coca, originalmente para uso medicinal e religioso. Mas em comparação com suas origens de radical contestador do establishment branco, Evo Morales atualmente está assumindo uma posição que lhe permite estabelecer uma ponte de diálogo com setores da classe média e até do empresariado. Por isso mesmo, agrupamentos sociais mais à esquerda já nutrem por ele uma profunda desconfiança.

Mas qual é o contexto em que surge Evo Morales? Vários analistas são unânimes em apontar o fracasso absoluto do modelo econômico neo-liberal como uma das principais razões da instabilidade política que sacode a Bolívia principalmente nos últimos cinco anos. É verdade que o país tem uma história secular de golpes de Estado. Foram 83 presidentes em 180 anos de independência da Espanha (média de um presidente a cada 2,3 anos). Mas desde 1982 o país passa por uma relativa estabilidade democrática, apesar da renúncia forçada de dois presidentes.

A divisão entre a “Bolívia atrasada”, representada dos indígenas e camponeses andinos da zona ocidental do país, e a “Bolívia Moderna”, liderada pelos empresários do departamento de Santa Cruz, na zona ocidental do país, fronteira com o Brasil, está caminhando para um enfrentamento que no limite pode chegar à divisão do país.

No domingo a forças políticas que estão se enfrentando neste xadrez complicado terão sua hora da verdade. O grupo político que dá sustento a Evo Morales, o MAS (Movimiento Al Socialismo) é um partido tradicional, com uma história parlamentar. Jorge Quiroga, por sua vez, é apoiado pelo movimento PODEMOS, em cuja base política estão muitos dos políticos tradicionais execrados pela população mais pobre.

Ganha e leva, mas governa?
Para tentar aproximar-se mais da classe média urbana e universitária, Evo Morales convidou o intelectual e ex-guerrilheiro Alvaro Garcia Linera para compor a chapa como candidato a Vice-Presidência. A estratégia parece ter tido resultado e Evo subiu nas pesquisas a ponto de as mais recentes prognosticarem uma diferença a seu favor de ate 13% com relação a Quiroga.

O sistema de eleição na Bolívia é sui generis. Se nenhum candidato obtiver mais de 50% dos votos nas urnas os dois primeiros colocados, neste caso Evo Morales e Jorge Quiroga, se submeterão a duas votações do Congresso recém empossado. Se nenhum dos dois for eleito nestas duas votações indiretas, o primeiro colocado na votação popular será automaticamente empossado. Fácil ver que este sistema no passado abriu espaço para todo tipo de conchavos e acordos espúrios que resultavam em tudo, menos no respeito à vontade popular registrada nas urnas.

A maioria dos analistas coincide em que se Evo Morales realmente ganhar no voto popular, ainda mais com uma diferença superior a 5% com relação ao segundo lugar, dificilmente o Congresso deixará de ratificá-lo como presidente, sob risco de uma guerra civil. Seus problemas na verdade começarão no momento exato em que tomar posse. Principalmente porque o MAS dificilmente conseguirá eleger os governadores dos principais departamentos e corre o risco ainda de não ter maioria no Congresso. Ou seja, Evo Morales pode até levar a presidência, mas vai encontrar um ambiente político dominado pelos opositores.

Uma batalha atrás da outra

A pressão americana sobre um futuro governo de Evo Morales tem três pontos principais: todo o tema da legalização do cultivo de coca, o risco de formação de um “eixo do mal” unindo Hugo Chavez, Fidel Castro e o próprio Evo Morales, e os interesses econômicos representados pelos altos investimentos nas indústrias extrativas, principalmente em grandes projetos mineiros.

A verdade é que apesar de representar uma parcela importante dos movimentos sociais, Evo Morales não é uma unanimidade entre eles. Vários dos movimentos sociais mais radicais o condenam por não radicalizar ainda mais seu discurso em favor da nacionalização dos hidrocarbonetos.

A frágil aliança com os movimentos sociais é uma das fraquezas do MAS, um partido que internamente também tem muitas debilidades. Há pelo menos quatros tendências bem marcadas. Por um lado está Evo Morales e núcleo de cocaleros que ele lidera. Há também o núcleo parlamentar, cujos representantes são muito questionados por uma boa parte dos movimentos sociais. Outro elemento é o núcleo de intelectuais e gente da inteligentzia boliviana representados por Álvaro Garcia Linera. Finalmente existem as organizações rurais de produtores de pequena escala com interesses muito definidos e contrapostos aos dos grandes projetos agropecuários.

Ou seja, chegar ao poder será apenas a primeira batalha que Evo Morales terá de enfrentar para consolidar-se como presidente da Bolívia. Sua posse, já garantida pelas forças armadas, poderá significar o início de um novo período de instabilidade. Principalmente se ele levar adiante o processo de mudar o eixo político e de poder no país, abrindo espaço para uma parcela da população que, embora amplamente majoritária, nunca pôde decidir sobre seu futuro e usufruir as imensas riquezas deste país.

Seja como for, uma lição que a Bolívia tem dado a todos os analistas, comentaristas e observadores é a capacidade que o país tem de chegar na beira do abismo e, por meio de soluções institucionais, retomar o caminho da democracia. Com a vitória de Evo Morales esta capacidade será desafiada ao extremo e o desenlace terá impacto não apenas no país mas em toda a região, cada vez mais dependente das reservas de gás natural boliviano.