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De olho no Chile December 10, 2005

Postado por tordesilhas em : Geral , 2comentários

O pai de Michelle Bachelet, um general legalista e fiel a Allende foi preso assim que Pinochet tomou o poder e morreu nas masmorras da ditadura depois de uma sessão de tortura. Quando houve o golpe, ela estudava medicina e militava na juventude socialista. Foi presa junto com sua mãe e ambas foram torturadas. Escaparam da morte ao serem expulsas do país. Acabaram parando em Berlim, onde Michelle concluiu seus estudos.

Quando o regime começou a se flexibilizar ela voltou ao Chile. Tentou trabalhar no sistema público de saúde, mas foi rejeitada “por suas vinculações políticas” passadas. Foi trabalhar numa ONG que prestava apoio médico e psicológico às famílias de vítimas da ditadura. Com os socialistas no poder e uma nova geração de militares nos quartéis, Bachelet se candidatou a uma vaga na Academia Nacional de Estudos Estratégicos (a Escola Superior de Guerra local). Surpreendeu sendo a primeira aluna da turma e ganhando uma bolsa de estudos para a Inter-American Defence College, em Washington.

No governo do presidente Ricardo Lagos, que assumiu o poder em 2000, foi convidada a assumir o ministério da saúde, controlando o sistema público de saúde do qual havia sido rejeitada uns anos antes. Sua gestão bem sucedida levou a outra decisão surpreendente de Lagos, que a indicou como Ministra da Defesa. Uma novidade absoluta em um país machista e castrense como o Chile. Ao contrário do que se poderia esperar os militares aceitaram razoavelmente bem a mulher cujo pai havia sido torturado e assassinado dentro de um quartel anos antes.

Sua gestão foi elogiada e aplainou o caminho para um passo ainda mais radical e surpreendente, considerando sua trajetória de vida: a presidência do Chile. E o primeiro grande momento será dado neste domingo, 11 de dezembro, quando acontece o primeiro turno das eleições e ela seguramente sairá em primeiro lugar, com pelo menos 40% dos votos, segundo as últimas pesquisas.

Claro que a Direita não está deixando barato. Os dois candidatos opositores - o pouco carismático Joaquín Lavín e o mega-empresário Sebastián Piñera, dono da empresa aérea Lan - estão disputando quase aos tapas a oportunidade de ir para o segundo turno. Aparentemente a vaga será de Piñera que tenta se vender como a “direita civilizada”, em oposição aos partidários de Lavin, todos associados ao pinochetismo. Claro que a campanha da Direita usa dos chavões anti-femininos de sempre e até mesmo a simpatia de Bachelet já foi usada na campanha como argumento contra ela (“ser simpática não é suficiente para ser presidente”).

O segundo turno vai ser feroz. Principalmente se Piñera for o segundo candidato. Ele controla a segunda maior rede de televisão do Chile. Além disso, os católicos de direita têm um problema sério com Bachelet, uma mulher divorciada e que vive com um homem, sem estar casada, com quem tem um filho. Devemos lembrar que o divórcio só foi legalizado no Chile faz pouco mais de um ano.

Existe muita gente que pensa que ela terá pouca autonomia para governar, principalmente porque herdará, se for eleita, uma presidência marcada pelo governo de Ricardo Lagos, que tem um grau enorme de apoio público (cerca de 70% da população). Mas eu aposto na sua personalidade e visão de futuro. Ela não se preparou tanto para chegar à presidência só para ser uma espécie de marionete do Partido Socialista.

Também não acho que fará mudanças revolucionárias. Essa história de uma maneira intrinsecamente feminina de exercer o poder para mim é mito. O que acredito sim é em um uma maneira intrinsecamente respeitosa, honesta e coerente de exercer o poder e por aí acho que Bachelet tem tudo para fazer uma presidência exemplar.