Feminicídio November 25, 2005
Postado por tordesilhas em : Geral , 6comentáriosBlog novo, vida nova! Aposentei por enquanto o Trovas & Trombos. Deu no saco e não há melhor motivo do que esse para partir para outra. No caso, para outro blog, o Tordesilhas. É uma idéia que eu tenho há algum tempo de abrir mais espaço para notícias e histórias da América Latina, ainda pouco conhecida no Brasil.
Para começar me junto à blogagem coletiva organizada pela Denise Arcoverde, do ótimo Síndrome de Estocolmo. Neste dia 25 mais de 40 blogs estarão escrevendo sobre um tema comum: o Dia Internacional da Não-Violência contra a Mulher.
O Peru, como todos os países latino-americanos, tem uma cultura machista bastante enraizada. A impressão que tenho é de que eles estão meio que nos anos 70, se comparados com o machismo brasileiro. Aquela história de que “quem ama não mata”, a campanha que nasceu à luz dos crimes contra mulheres praticados por esposos ou companheiros, ainda não pegou muito por aqui.
Os dados mais recentes, divulgados pelas principais ONGs de direitos das mulheres, dão conta de que no Peru nada menos do que 42% das mulheres já sofreram algum tipo de violência física por parte de seus companheiros. Não sei como se chega a estes números, mas conhecendo um pouco da realidade peruana, depois de viver por quatros anos aqui, não duvido.
Outro dado impressionante dá conta de que entre 2000 e 2004 houve o registro de 352 assassinatos de mulheres praticados por companheiros, 42% deles dentro da própria casa. Notem que estes são os dados registrados, certamente uma porção pequena se comparada ao que deixa de entrar nas estatísticas.
Além de um impressionante número de ataques sexuais contra meninas e adolescentes em fase escolar perpetrados pelos próprios professores, acho que não existe um único dia em que se abra o jornal e não haja alguma notícia de violência física ou assassinato de mulheres dentro do seus ambientes familiares. O detonador mais comum é o ciúme. Piorado pelas condições financeiras precárias, baixo nível educacional etc. Tanto que existe uma proposta de se criar formalmente uma nova figura jurídica chamada “feminicídio”, ou seja, o assassinato de mulheres, que seria um agravante do homicídio, ou seja uma espécie de crime hediondo.
O conceito de feminicídio é novo e controverso, como não poderia deixar de ser. Procura tipificar uma prática de violência e assassinatos sistemáticos contra mulheres, muitas vezes praticados por pessoas próximas a elas. A diferença com respeito ao homicídio comum é que o feminicídio seria praticado contra as mulheres em função de sua condição de gênero. É silencioso e reflete uma misoginia arraigada.
Não sei quanto às estatísticas no Brasil, mas no Peru a ONG Flora Tristan divulgou recentemente um estudo sobre o feminicídio no país. Pode ser baixado aqui.
A ONG chilena Isis Internacional também tem um banco de dados sobre feminicídio aqui.
Outro caso clássico de feminicídio é o de Ciudad Juarez, no México, onde em um período de 10 anos mais de 300 mulheres foram assassinadas. Aqui um texto excelente sobre o caso. Nele há uma referencia ao livro “Ossos no Deserto”, que investiga esta história assombrosa. Um trecho do comentário sobre o livro:
“«Huesos en el desierto» describe la fórmula precisa para cometer crímenes perfectos. Basta pensar en una urbe en la que hubiera libertad para violar, torturar y matar mujeres, los policías encubrieran a los asesinos o fueran sus cómplices, maquinaran la culpabilidad de gente inocente y amenazaran o atentaran contra la vida de quienes se atreviesen a denunciarlos. En consecuencia, los culpables estarían libres y el gobierno cerraría los ojos. Sería una intriga siniestra de la barbarie de género: más de un centenar de victimas de homicidios en serie de cariz sexual. Tal abismo construiría una historia insólita de horror, excepto por un rasgo: es real, nada especulativo ni ficticio.”
E essa realidade as mulheres no Peru, Guatemala, Brasil, em toda América Latina conhecem muito bem.
