Culinária peruana November 29, 2005
Postado por tordesilhas em : Geral , 28comentáriosA culinária peruana é de longe uma das melhores do mundo. Melhor até do que a brasileira, devo admitir. Não é sem razão que Lima virou a meca das escolas de culinária e a tradicional Cordon Bleu, de Paris, tem aqui uma de suas filiais mais concorridas. Outro exemplo é o fato de que os restaurantes mais badalados do momento tanto em Santiago, no Chile, como em Bogotá, na Colômbia, serem filiais de Astrid & Gastón, possivelmente o melhor restaurante peruano.
Uma das explicações para a qualidade da cozinha peruana é a variedade de insumos e tradições. O país tem um litoral cujas águas frias são pródigas em frutos do mar e variedades de peixes, tem uma região andina com uma variedade extraordinária de legumes (só de batatas são mais de 800 diferentes tipos) e a selva amazônica com a sua reconhecida prodigalidade de espécies. Daí juntam-se as tradições culinárias dos incas e outros grupos que dominavam o país antes dos espanhóis com a própria influencia dos colonizadores e de outros grupos étnicos, como os indígenas amazônicos, e até mesmo chineses e japoneses e se pode imaginar o caldeirão cultural que gerou a melhor cozinha da América do Sul.
Posso garantir que comer um ceviche de pescado, uma cauza rellena, aji de Gallina, seco de cordero, arroz com pato, tallarin verde, sopa a la minuta são experiências culinárias inigualáveis. Se forem servidos em um restaurante como o Astrid & Gastón, principias divulgadores do que se chama “nova cozinha andina”, então, chega a ser covardia. Tudo acompanhado pela bebida típica peruana, o pisco (feito a partir de uva) ou a sua variação, o pisco sour (mal comparando seriam a cachaça e a caipirinha daqui).
Mas como todos os países, ainda mais com toda sua variedade cultural, também existem aqueles pratos que ainda não tive coragem de experimentar. Um deles é o pepián de cuy. Difícil de resistir ao trocadilho, por isso é melhor explicar: “cuy” é o nome em espanhol do nosso porquinho da índia. Pois é, o nosso popular bichinho de estimação é no Peru um prato muito típico, que vem desde a época do império inca.
Realmente é meio estranho ver aquele animalzinho assado, com o corpo aberto ao meio, as patas esticadas e a cabeça com a boca aberta e normalmente decorada com uma batata - e comer numa boa. Obviamente é um tema puramente cultural, principalmente para quem, como eu, já comeu bunda de tanajura assada com farinha quando era criança. Mas definitivamente há cuys e cuys… Não consegui resistir ao trocadilho infame.
O interessante é que uma notícia publicada no principal jornal de Lima hoje dá conta de que os produtores de cuy estão entusiasmados com o aumento da demanda pela carne do animas desde os Estados Unidos e Ásia. Segundo a nota cada cuy vivo (!) na região andina vale uns R$ 8,00. Processados e industrializados chegam a ser vendidos por sete dólares nos Estados Unidos. E apesar do nome pelo qual é conhecido no Brasil (porquinha da índia), o cuy (!!)é oriundo da região andina e não é sem razão que sua carne e tão apreciada desde a época dos incas. Calcula-se que no Peru existam cerca de 22 milhões de cuys (!!!), prontos para invadirem o mundo na esteira do sucesso da culinária peruana.
Há noticias de que Gastón Acurio, dono do Astrid & Gastón, vai abrir uma filial do seu badalado restaurante em São Paulo. Com isso pode ser que os brasileiros passem a conhecer melhor a cozinha peruana. Só acho difícil que pratos a base de cuy tenham muito sucesso. O bom é que há muitas outras opções deliciosas, de maneira que os porquinhos da índia, pelo menos no Brasil, poderão continuar sendo simplesmente mascotes (ou cobaias).
Para saber (quase tudo) sobre a cozinha peruana, e sobre os pratos que citei mais acima, vale uma visita a esta entrada na wikipedia.
Feminicídio November 25, 2005
Postado por tordesilhas em : Geral , 6comentáriosBlog novo, vida nova! Aposentei por enquanto o Trovas & Trombos. Deu no saco e não há melhor motivo do que esse para partir para outra. No caso, para outro blog, o Tordesilhas. É uma idéia que eu tenho há algum tempo de abrir mais espaço para notícias e histórias da América Latina, ainda pouco conhecida no Brasil.
Para começar me junto à blogagem coletiva organizada pela Denise Arcoverde, do ótimo Síndrome de Estocolmo. Neste dia 25 mais de 40 blogs estarão escrevendo sobre um tema comum: o Dia Internacional da Não-Violência contra a Mulher.
O Peru, como todos os países latino-americanos, tem uma cultura machista bastante enraizada. A impressão que tenho é de que eles estão meio que nos anos 70, se comparados com o machismo brasileiro. Aquela história de que “quem ama não mata”, a campanha que nasceu à luz dos crimes contra mulheres praticados por esposos ou companheiros, ainda não pegou muito por aqui.
Os dados mais recentes, divulgados pelas principais ONGs de direitos das mulheres, dão conta de que no Peru nada menos do que 42% das mulheres já sofreram algum tipo de violência física por parte de seus companheiros. Não sei como se chega a estes números, mas conhecendo um pouco da realidade peruana, depois de viver por quatros anos aqui, não duvido.
Outro dado impressionante dá conta de que entre 2000 e 2004 houve o registro de 352 assassinatos de mulheres praticados por companheiros, 42% deles dentro da própria casa. Notem que estes são os dados registrados, certamente uma porção pequena se comparada ao que deixa de entrar nas estatísticas.
Além de um impressionante número de ataques sexuais contra meninas e adolescentes em fase escolar perpetrados pelos próprios professores, acho que não existe um único dia em que se abra o jornal e não haja alguma notícia de violência física ou assassinato de mulheres dentro do seus ambientes familiares. O detonador mais comum é o ciúme. Piorado pelas condições financeiras precárias, baixo nível educacional etc. Tanto que existe uma proposta de se criar formalmente uma nova figura jurídica chamada “feminicídio”, ou seja, o assassinato de mulheres, que seria um agravante do homicídio, ou seja uma espécie de crime hediondo.
O conceito de feminicídio é novo e controverso, como não poderia deixar de ser. Procura tipificar uma prática de violência e assassinatos sistemáticos contra mulheres, muitas vezes praticados por pessoas próximas a elas. A diferença com respeito ao homicídio comum é que o feminicídio seria praticado contra as mulheres em função de sua condição de gênero. É silencioso e reflete uma misoginia arraigada.
Não sei quanto às estatísticas no Brasil, mas no Peru a ONG Flora Tristan divulgou recentemente um estudo sobre o feminicídio no país. Pode ser baixado aqui.
A ONG chilena Isis Internacional também tem um banco de dados sobre feminicídio aqui.
Outro caso clássico de feminicídio é o de Ciudad Juarez, no México, onde em um período de 10 anos mais de 300 mulheres foram assassinadas. Aqui um texto excelente sobre o caso. Nele há uma referencia ao livro “Ossos no Deserto”, que investiga esta história assombrosa. Um trecho do comentário sobre o livro:
“«Huesos en el desierto» describe la fórmula precisa para cometer crímenes perfectos. Basta pensar en una urbe en la que hubiera libertad para violar, torturar y matar mujeres, los policías encubrieran a los asesinos o fueran sus cómplices, maquinaran la culpabilidad de gente inocente y amenazaran o atentaran contra la vida de quienes se atreviesen a denunciarlos. En consecuencia, los culpables estarían libres y el gobierno cerraría los ojos. Sería una intriga siniestra de la barbarie de género: más de un centenar de victimas de homicidios en serie de cariz sexual. Tal abismo construiría una historia insólita de horror, excepto por un rasgo: es real, nada especulativo ni ficticio.”
E essa realidade as mulheres no Peru, Guatemala, Brasil, em toda América Latina conhecem muito bem.
